Sábado, 4 de Julho de 2009

Foto: Cínthia Casagrande



PENSAR NA VIDA
EU NÃO PENSO
ACASO PENSA ELA EM MIM?

Domingo, 21 de Junho de 2009

ODE À CASA MATERNA (GRITO MUDO)


Ilustração: Iberê Camargo

No escuro do quarto
ouço o ruído dos meus cabelos crescendo
ouço o som de estrelas caindo no telhado
e o grito mudo – como num quadro de Iberê –
do meu espírito saindo de mim
Ouço o estalar de tábuas velhas
da casa materna
é bom estar de volta
o silêncio é tão intenso
consigo ouvir as vozes da minha infância
que ficaram guardadas aqui e eu nem lembrava
é bom estar de volta à casa materna
É bom fechar os olhos e dormir
feito criança
é chato ser adulto
que bom seria se os homens soubessem disso
e se recusassem a crescer
todos os homens
um dia
deveriam retornar à casa da mãe
nem que fosse para um cochilo rápido
Rio Pardo, RS, 15 de setembro de 1998.

Sábado, 6 de Junho de 2009

o não-verbal

Segunda-feira, 1 de Junho de 2009

Entrevista com Leonardo Brasiliense

Domingo, 31 de Maio de 2009

O ESPETÁCULO

Imagem da internet (modificada por Cínthia Casagrande)

Triste espetáculo. O atirador de facas errou: acertou a faca na testa da partner, que presa à roda e girando, no centro do picadeiro, espirra sangue pra todo lado. O atirador, feliz com o alvoroço do público, vendado, sem saber que matara a amada, curva-se em agradecimento.


Segunda-feira, 25 de Maio de 2009

Será que vale a pena?

tanta dor, tanto poema...

Rota Lunar - Será

Domingo, 24 de Maio de 2009

TÊNUE

Foto: Cínthia Casagrande


No sul
de Manhattan
o World Trade Center desaba

No sul
do Rio Grande
uma perdiz em disparada
corta os campos...
onze de setembro de dois mil e um
a parreira brota no meu quintal
silenciosa/decidida

terrorismo aqui
é o desmame d’algum terneiro ou
quem sabe um cusco encurralando um pinto...

A CNN mostra os corpos em queda
imagem sem som
de torres que desabam
grito mudo
da vida que se estatela

e as corruíras fazem ninho
no porongo
que pendurei na laranjeira...
11/ 09/ 2001
Restinga Seca, RS.

Domingo, 10 de Maio de 2009

Ilustração: Lula Cardoso Ayres


PORQUE TE PROCURO
EM RARAS VISITAS
CURTÍSSIMAS
E PELO CAMINHO DE TUA CASA
ME ARRASTO
MISTO DE CULPA E HUMILHAÇÃO
E POR QUE TE PROCURO
AINDA
MINHA SENHORA?
PORQUE ÉS MINHA SINA
MINHA CRUZ
POR MAIS QUE ME AFASTE
DE TUA MORADA
É COMO SE TE LEVASSE ÀS COSTAS
PREGADA

Para aquela a quem um dia chamei de mãe.


Domingo, 3 de Maio de 2009

Ilustração: Cândido Portinari



Ergueram-se do chão
rumo ao céu
os filhos de Maria
Um cordão de anjinhos barrigudos
os filhos de Maria
Mamãe mamãe não vamos mais sentir fome
não chora mamãe
as nuvens são feitas de miolo de pão

Sexta-feira, 1 de Maio de 2009

FÁBULA

Ilustração: escultura de Ron Mueck


A noite postou-se
feito gravura
no globo ocular do gigante
que naquele instante
de monstro temido
menino se fez
e teve medo
medo
medo outra vez...


Sábado, 25 de Abril de 2009

metafórico

Só ainda não morri porque meu câncer é metafórico.

Quinta-feira, 23 de Abril de 2009

23 de abril

Salve Jorge!

Sábado, 18 de Abril de 2009

1/3 da nossa vida
a gente passa dormindo
e quando estamos acordados
sonhamos

Domingo, 5 de Abril de 2009


O tempo
é um templo
onde minutos e segundos
passam horas a fio
ajoelhados
entra ano e sai ano
numa profunda e infinita ladainha


tudo tão lento tão rápido...

Domingo, 15 de Março de 2009

O URUTAU


— Olha guri, um urutau!
— Onde pai? — Só tem pau!
— Pois então...

Segunda-feira, 16 de Fevereiro de 2009

Entrevista com o poeta Douglas da Cunha Dias




CC: Fale um pouco sobre você, sobre sua infância.
Douglas da Cunha Dias: Nasci em Belém, minha família é toda de Belém. Morei apenas um ano fora, Rio de Janeiro, 1999-2000, pra cursar mestrado. Minha infância: invento-a bretoniana, ao lado do meu irmão (2 anos mais novo que eu), meus pais, primos, tios e avós. Morávamos todos no mesmo bairro, tivemos uma criação bem próxima. Brincadeiras, cirandas, passeios, coisas assim. Minha mãe morreu quando eu tinha 13 anos; tal perda foi de grande impacto para a vida de todos nós. Sobrevivemos. Daí veio o rock, o blues e muitas loucuras impublicáveis. Um dia acordei formado em educação física e, logo adiante, professor concursado da Universidade Federal do Pará; trabalho com disciplinas ligadas ao universo da filosofia, antropologia e sociologia, em três cursos, educação física, pedagogia e licenciatura em dança. E escrevo. E sonho. E desperto. Não necessariamente nessa ordem.

CC: Quando você descobriu a poesia? Ou a poesia lhe descobriu?
Douglas da Cunha Dias: Rabiscava palavras, entre meus 16 e 20 anos, acreditando que um dia seriam letras de rock ‘n’ roll. Não há registro algum delas. Depois, um longo hiato. A partir de 2000 comecei a freqüentar a sala de poesia, chat do terra – nesse tempo existia vida inteligente por lá. Estabeleci contato, virtual, com algumas delas; duas, em especial. Permita-me revelar apenas os nicks: menino sujo de tinta (esquilo) e a morphine. Até hoje converso com o esquilo, que, por sinal, tem um blog muito bom, mas acho que ele não gostaria que eu revelasse o endereço. De fato, considero que foi desta forma que comecei a escrever – em um chat, pasme. De lá pra cá, não parei mais. Descobri a poesia quando ela soube de mim.

CC: Você é um poeta de uma fecundidade ímpar. Você mantém vários blogs na internet, como você consegue? Tudo começou com o vomitando imagens, não é? Fale um pouco sobre seus blogs. Quando você decidiu publicar na internet?
Douglas da Cunha Dias: Decidi publicar justo no dia do meu aniversário, 23 de setembro, ano de 2004. Eu estava no chat, conversando com a morphine e ela lançou o desafio: crie um blog. Bem, eu criei o vomitando imagens.
Não sei explicar, racionalmente, como mantenho esses blogs. Considero que cada um deles tem um perfil, expressa uma forma minha de olhar ao mundo, dizer o que sinto e o que invento. Sei que muitas vezes a quantidade de blogs prejudica a qualidade do que posto, mas não consigo livrar-me de nenhum deles. Alguns ficam um tempinho empoeirados, quase sem postagens – com regularidade mesmo, só o vomitando imagens (esse, sempre): o amores fúnebres, o eu, espantalho, o rascunhos em tons de brevidade e silêncio e, agora, o prelúdio ao homem de palha, o mais recente de todos e que é, na verdade, o que chamo de não-livro, um blog que terá três tomos, cada qual com uma estética-estilo, mas com um único tema. Também posto fotos nos blogs, em três deles, vomitando, deus e outros escombros e o prelúdio. Os demais apresentam ilustrações de pintores que admiro; o da natureza dos sonhos e o rascunhos não possuem qualquer imagem, só palavras.

CC: Qual é o seu método de criação?
Douglas da Cunha Dias: Há um autor chamado Paul Feyerabend, cujo livro “contra o método” orienta minhas intervenções acadêmicas. Por que eu teria método para poetar? Se há algum método na minha poesia, este é algo visceral, corpóreo. Afirmo que o não-método está lá, na origem do primeiro blog: vomitando imagens.

CC: Inspiração existe?
Douglas da Cunha Dias: Sim, existe. Inspiração, pra mim, é algo fundamentalmente visceral, emotivo, avesso ao racional, àquilo que é meticuloso. No meu caso, a inspiração está enraizada à respiração. Do sufoco ao êxtase, respiração, fluxo contínuo e incansável. Expirar e inspirar. Dito isso, não creio que o verbo anteceda à carne. O verbo é, antes, carne. A inspiração será carne ou não será, permita-me parafrasear o Breton.

CC: Qual a finalidade da poesia? É possível defini-la em uma única palavra?
Douglas da Cunha Dias: Não há finalidade alguma que pertença à poesia. Poesia não tem fim. Poesia é um eterno vir-a-ser, no sentido nietzscheano, com todo o peso e a leveza que isso implica. Deste modo, poesia está além de qualquer definição. Mas, uma palavra fala da poesia às minhas entranhas: suportar.

CC: Qual a importância da poesia na sua vida?
Douglas da Cunha Dias: Preenche-me daquilo que fui, alimenta-me daquilo que sou e revigora-me daquilo que serei.

CC: Como você definiria sua Poesia?
Douglas da Cunha Dias: Inquieta.

CC: Poesia para viver... De quê?
Douglas da Cunha Dias: Daquilo que pulsa.

CC: Você acredita em oficinas literárias?
Douglas da Cunha Dias: Elas têm a minha total descrença. Poesia não é algo que se ensine. Ou se aprenda.

CC: Qual a palavra mais bonita da língua portuguesa?
Douglas da Cunha Dias: Saudade. E isso não tem nada de clichê!

CC: Sua opinião sobre o acordo ortográfico.
Douglas da Cunha Dias: A linguagem tem várias possibilidades. A escrita, uma delas. O acordo não modificará a pronúncia das palavras, e isso é bem interessante. Sim, é fato que a língua é e deve ser viva, cambiante. Agora, incomoda-me saber que alguns acadêmicos reunidos decidem o que julgam ser o melhor para uma língua por milhões escrita-falada, a partir de critérios quase-arbitrários, movidos por interesses pouco claros, sequer consultando-nos sobre isso tudo. Talvez porque sejamos rebanho. Ou eles, iluminados, quem sabe.

CC: Qual personagem da literatura que mais marcou você?
Douglas da Cunha Dias: Chinaski.

CC: Dos poetas de hoje, quais são seus preferidos?
Douglas da Cunha Dias: Arnaldo Antunes. Rubens da Cunha. Carlos Besen. Gosto do que a Marianna T., a menina com quem namoro, escreve, embora apenas em blogs. Gabriela Kimura, literatura porrada. E o Antonio Gamoneda. Mas o meu hoje tem muito dos que já partiram: Rilke, Bukowski, Ted Hughes, Maiakovski, Jorge de Lima, Sylvia Plath.

CC: O que você está lendo no momento?
Douglas da Cunha Dias: Leio vários livros, ao mesmo tempo. Agora, Bukowski “O amor é um cão dos diabos”, Vicente Franz Cecim “Ó Serdespanto”, Lucy Figueiredo “Imagens Polifônicas - corpo e fotografia”, Zygmunt Bauman “Vida para consumo”, W. H. Auden “A mão do artista” e o Nietzsche, sempre.

CC: Hoje em dia todo mundo é “escritor”, todo mundo é “poeta”... Basta navegar um pouco pela internet para perceber isso. O que você acha disso? De cada 10 blogs, quantos, em sua opinião, são de Literatura?
Douglas da Cunha Dias: Há blogs de excelente qualidade. Literatura mesmo. Mas a quantidade de blogs vazios, recheados por pessoas vazias, é imensa. Assim, pensando em termos proporcionais, dois, no máximo três blogs a cada dez.

CC: Já que estamos falando em internet e blogs, indique um blog para os leitores do Balaio de Letras.
Douglas da Cunha Dias: Resposta difícil... só um? Se eu indicar o do
Rubens da Cunha vai parecer gratidão, porque ele indicou o meu. Assim, indico o blog do Carlos Sousa de Almeida (http://casoual.wordpress.com/) e o palavras sobrepostas, da Marianna (http://www.palavrassobrepostas.blogspot.com/) e assim acabo rompendo o limite da tua pergunta!

CC: Como anda a Literatura aí no PA? Você mantém contato com poetas daí?
Douglas da Cunha Dias: Nenhum contato. Não os conheço, tampouco eles a mim. Admiro, muito, a obra do Vicente Franz Cecim. Dos ditos novos poetas paraenses, os que por aqui são premiados com publicações e coisas do gênero, não gosto.

CC: Algum livro mudou sua maneira de ver e pensar o mundo? Você acredita que isso seja possível?
Douglas da Cunha Dias: Fazer revolução com um livro? Não creio. Creio que um livro possa mudar a nossa forma de ver-sentir-agir. No meu caso, não há um único livro, mas a obra do Nietzsche.

CC: Qual o sentido de tudo isso?
Douglas da Cunha Dias: Ir além. Com todos os sentidos. Em todos os sentidos.

CC: E o papel da poesia?
Douglas da Cunha Dias: Devorar-nos. E ser devorada. Pra que nada estanque.

CC: E o Brasil?
Douglas da Cunha Dias: É o país do futuro, que não chega.

CC: Pode-se dizer que você é inédito em livro, não é?
Ou o nosso livro cinza (*) conta como a primeira experiência em livro impresso? Fale um pouco sobre o livro cinza, já que a modéstia me impede de fazê-lo (risos).
Douglas da Cunha Dias: O livro cinza é minha única experiência em livro impresso e dele sinto muito orgulho. Por todo o processo que envolveu a criação, pela competência tua em administrar os encontros e desencontros, bem como a tua excelência em dar corpo ao livro cinza. Além disso, há a qualidade da poesia nele presente. Fico muito feliz de ter sido publicado ao teu lado e ao lado do Celso. Não sei se algum dia algo meu será publicado, mas o primeiro tem um sabor todo especial.

CC: O que você acha dos e-books?
Douglas da Cunha Dias: Gosto dos livros, do contato com as páginas, do cheiro, das dobraduras. Confesso que a princípio não me sinto atraído pelo formato dos e-books. Mas, enquanto veículo traz em si a essência da subversão. E isso me fascina.

CC: Navegar é preciso?
Douglas da Cunha Dias: Pra que as águas não estagnem. Sim, é preciso navegar.

CC: O navegar é impreciso?
Douglas da Cunha Dias: Por ser fluxo, ir e vir que não cabe em si, impreciso é. Precisa ser.

CC: O que você gostaria de ter falado e que eu não perguntei?
Douglas da Cunha Dias: Que há uma lanterna mágica (Breton mais uma vez) presente naquilo que escrevo.

CC: Qual palavra seria a mais apropriada para o fim de tudo?
Douglas da Cunha Dias: Quietude.

CC: Douglas da Cunha Dias por Douglas da Cunha Dias.
Douglas da Cunha Dias: Olhos docemente tristes. Sorriso que traz paz àqueles que me habitam. Amo, desesperadamente, até o tutano. Tenho a língua presa, sigmatismo lateral, o que faz a minha voz ser sempre de moleque. Poucos amigos, verdadeiros amigos. Guardo sonhos numa caixinha de fósforos. Gosto de silêncio. Rock e blues. Troco o dia pela noite (madrugada), como minha mãe sempre dizia. É isso. E bem mais que isso.


(*) Livro artesanal, com poemas de Douglas da Cunha Dias, Celso Boaventura e Cláudio B. Carlos (CC).

Entrevista concedida ao poeta e prosador Cláudio B. Carlos (CC).
Visite o blog do Douglas da Cunha Dias:
www.vomitandoimagens.blogspot.com

Domingo, 15 de Fevereiro de 2009

Macho Man (não-ficção)

Ontem à tarde, o meu vizinho (do 303) cagou a mulher a laço.
Depois ligou o som no volume máximo: para ouvir "
Macho Man".
"Macho Man", é? Sei... lá em
São Sepé isso tem outro nome...

Sábado, 7 de Fevereiro de 2009

Deu no jornal

Matéria no jornal Gazeta do Sul, Santa Cruz do Sul, RS.




Foto: Lula Helfer


Uma trajetória literária em e-books

Poeta e prosador, Cláudio B. Carlos tem explorado o formato e-book, na internet, para divulgar o seu trabalho. Nascido em São Sepé, CC – como é mais conhecido – vive atualmente em Santa Cruz do Sul. No seu blog, o Balaio de Letras (www.balaiodeletras.blogspot.com), ele disponibiliza dez livros para download que representam sua trajetória.

Vale a pena mergulhar um pouco no universo do CC, um autor de escrita vigorosa e intensa, que pode ser verificada tanto na poesia – em livros como "O espelho de Narciso", "Sentimento hiato", "Liberdade vigiada", o mais recente "Memórias do Jirau", entre outros – como na prosa afiada de "Um arado rasgando a carne" e "O uniforme". Um cara que tem bastante coisa pra dizer, e sabe como fazê-lo. Textos muitas vezes antigos e reescritos ao longo dos anos, o que demonstra a preocupação do escritor com o seu ofício.

Luís Fernando Ferreira - Gazeta do Sul, 7 e 8 de fevereiro de 2009.

Segunda-feira, 26 de Janeiro de 2009

Um arado rasgando a carne (em PDF)

Quinta-feira, 22 de Janeiro de 2009

22 de janeiro de 1971



Nasci chorando como nascem todas as crianças. E todas as crianças nascem como que já carregando todas as dores do mundo. Daí eu pensar que a vida é muito mais lágrimas do que sorrisos. Era 22 de janeiro de 1971. Chovia. Daí, talvez, esta minha preferência por dias assim.
Há quem diga que uma coisa pra dar certo, pra criar raízes, é bom que aconteça em dias assim, de chuva. Bem, encaremos então o meu nascimento como uma coisa...
Se por um lado a chuva propicia o enraizamento, por outro, transforma a terra em lodo. Daí, talvez, a minha dificuldade em sair do lugar...

Domingo, 18 de Janeiro de 2009

Meu mundo caiu...

A Rede Globo legendou o show do Elton John. Putz!
Era bem melhor antes (quando eu não fazia a mínima idéia do que ele estava cantando).

Domingo, 11 de Janeiro de 2009

Breves retratos de família

Sábado, 3 de Janeiro de 2009

Carne humana tem gosto
de sobrevivência

Domingo, 28 de Dezembro de 2008



entre o NADA
e o TUDO
uma eternidade
entre o TUDO
e o NADA
tênue divisa

Terça-feira, 23 de Dezembro de 2008

Prêmio Dardos

O que é?
É um selo oferecido aos melhores blogues (sob a ótica de blogueiros).
Como funciona?
O blogue que recebe o selo deve linkar o blogue que o indicou ao prêmio, indicar quinze blogues, e avisar os indicados.

Agradeço ao Nilson Vellazquez pela indicação.
Os meus indicados são:
Ádlei Duarte de Carvalho
Búfalo Noturno
Cecília Cassal
Douglas da Cunha Dias
Eduardo Baszczyn
Ítalo Puccini
Líria Porto
Gabriela Kimura
Cínthia Casagrande
Ordisi Raluz
Rinaldo de Fernandes
Rubens da Cunha
Plínio Fuentes
Márcia Maia
Marcelo Sahea

Era isso...

Quarta-feira, 17 de Dezembro de 2008

Uma dica

Deixo aqui o que considero uma excelente dica de leitura, e de presente para o Natal (pela belíssima Mensagem de Amor que encerra). Falo de “A Travessia”, romance de estréia de Ádlei Duarte de Carvalho, poeta e escritor mineiro. Agradeço ao Ádlei por ter me dado a honra de prefaciar a obra.

Entre em contato com o autor para adquirir o livro.

Sexta-feira, 28 de Novembro de 2008

O ESPELHO DE NARCISO



Espelho
espelho meu
como ousas apontar as marcas em meu rosto
como me dizes velho e feio
se sem mim
– teu amo supremo –
não terias utilidade alguma
se sem minha imagem
tua existência não faria sentido
como
criatura infernal
ousas mostrar-me as rugas que trago
se sem meu rosto refletido em ti
serias nada
serias vazio
como moldura sem tela



Lajeado, RS.

Sábado, 15 de Novembro de 2008

Amigos!

Coloquei uns links novos (ali do lado) para algumas narrativas em mp3.

Divirtam-se!

Sexta-feira, 14 de Novembro de 2008

a tal da mosca azul que pica os políticos
é
a
mesma
varejeira
que
deposita
ovos
no
meu
pouco espesso
e
raro
bife

Domingo, 9 de Novembro de 2008

quando quero
sou deus
e quando o sou
sou mau
uma seca aqui
uma enchente acolá
como num tabuleiro
brinco


que se danem
os que não sabem morrer...

Sexta-feira, 24 de Outubro de 2008

Quinta-feira, 16 de Outubro de 2008

MÃEZINHA

Mãezinha nunca me amou. Cresci, e meus punhos como que se transformaram em aço: mãezinha se quebrou...

Domingo, 12 de Outubro de 2008

IRMÃZINHA

Irmãzinha sempre foi estranha. Da fauna, o bicho diferente. Dentre cobras e lagartos, prefere a aranha.

Quarta-feira, 8 de Outubro de 2008

IRMÃOZINHO

Irmãozinho era quietinho. Brincava com bonecas, sozinho. De tanto brincar com elas, hoje ele é uma.

Sábado, 4 de Outubro de 2008

PAIZINHO

Paizinho era perfeito. Cresci, e meus olhos como que se transformaram em lupas: quantos defeitos...

Domingo, 21 de Setembro de 2008

As manifestações da indigência humana
a quem imputaremos?
À inventividade da plebe que sobrevive germinal
ou
ao simples prazer narcisista de exibirmos
feridas?

Domingo, 14 de Setembro de 2008

SOPRO MORNO DE VIDA E MORTE



o BÁSICO vira LUXO
a fome ABUNDA sobre a mesa MAGRA
o DESTINO que logramos
– ZOMBETEIRO –
parece dar-nos as costas
a caça é fraca o rio é ingrato
a vida é LOUCA & MALVADA
a sorte é ESCASSA
a coragem nos escapa
como um sopro morno
ora insistente (de vida)
ora realista (DE MORTE)

Quinta-feira, 4 de Setembro de 2008

CHUPO
PORQUE SUGAR
É POR DEMAIS ERUDITO
TUAS TETAS
PORQUE SEIOS
É POR DEMAIS RESPEITOSO
NA HORA DE AMAR
O GOSTOSO
É A FALTA DE RESPEITO
ME DÁ CÁ UM PEITO
QUERO MORDER O BICO
MORDISCAR
É POR DEMAIS FRESCO
VÊ COMO CRESCE
O POMPOSO PÊNIS
ESQUECE A ETIQUETA
AGARRA O TICO
ME MOSTRA A BUCETA


Poema de A Pedra da Realidade (e-book). Clique aqui para baixar o livro.

Domingo, 31 de Agosto de 2008

Foto: Cínthia Casagrande



GARotos jogam futebol
com uma bola de lua cheia
que reflete nas poças
canelas finas
bambu
trave amarelada
entrave
as cabeças chatas
feitas
pro ofício
do cabeceio
este tempo nosso
que vejo pela janela
– quadro feio –
o gol é o pão dos guris
vê lá
a alegria efêmera dum grito
e meia dúzia de palavras

Sexta-feira, 29 de Agosto de 2008

Muito culto

Ouvi do diretor de uma emissora de rádio:
- Você é muito culto para trabalhar conosco.



Fiquei sem ação. Será que deveria ter agradecido?

Domingo, 24 de Agosto de 2008

MERDA

Foto: Cínthia Casagrande


HÁ QUE SE PÔR
UM POUCO DE SAL
G R O S S O
PRECISAMOS IR AO FUNDO
PRA SAIRMOS DO POÇO
SOMOS TÃO INSIGNIFICANTES
DIANTE DE TUA PORTA
SOMOS TÃO NADA
DIANTE DA VIDA
DA MORTE
HÁ QUE SE PÔR
NA BOCA
UMA PITADA
DE UM SABOR QUALQUER
UM SORRISO
AINDA QUE MORNO
NOS LÁBIOS CRISPADOS
CANSADOS
AH! COMO ESTOU CANSADO
QUE QUEIMEM AS VELAS
QUE SE ACENDAM OS
INCENSOS
QUALQUER COISA
QUE ME TIRE ESTE PESO
QUE TRAGO
QUE LEVO
QUE HERDO
(QUE MERDA!)
QUE CARREGO
SEI LÁ
QUALQUER COISA
QUE ME TIRE ESTE
P E S O

Quinta-feira, 21 de Agosto de 2008

BOSTA


Ilustração: Mário Gruber



AS PALAVRAS SE CONTRAPÕEM SOBRE A MESA
o diálogo corre solto
ALGUÉM AOS PRANTOS
corre pro quarto
TILINTAR DE ADJETIVOS NO PRATO DE SOPA
prato cheio
PRA QUEM GOSTA
PENA QUE NÃO FOTOGRAFAMOS
a bosta

do almoço em família

Segunda-feira, 18 de Agosto de 2008

O CÃO DO CÃO

Foto: Cínthia Casagrande


SONhei
que o homem
era o cão do cão
e sabia
da fiel amizade
irrestrita


Sexta-feira, 15 de Agosto de 2008

O MUNDO NOS PÉS DOS GURIS




A BOLA
É UM MUNDO
NOS PÉS DOS GURIS
GIRA GIRA
GIRAMUNDO
EM BUSCA DE UM MOMENTO
QUE SE CHAMA FELICIDADE
E QUE ATENDE
PELO SINGELO APELIDO
DE GOL...

28/05 a 06/06/2002,
Copa do Mundo.

Quarta-feira, 13 de Agosto de 2008

1982, AGOSTO

Foto: Cínthia Casagrande

Em agosto de 1982
meu pai morria
na pequena restinga
Em agosto de 1982
o poeta Luiz de Miranda
escrevia “Montevidéu”
em Porto Alegre
Veja
a crueza da poesia
Veja
o lírico da morte
Veja
a tênue linha
navalha afiada finíssima
Sinta
a ardência do polegar
de quem prova o fio de uma carneadeira
Sinta
o veio que brota
que tinge
Sangue
Sinta
o lírico da poesia
Veja
a crueza da morte
o que chamamos vida
é sua lavoura
pronta para a ceifa
O que chamamos vida
é só uma lacuna
um intervalo
um café, talvez
um cigarro
de um vindimadeiro.

Sábado, 9 de Agosto de 2008

Quinta-feira, 7 de Agosto de 2008

Memórias do Jirau (poemas da salobre restinga)


Meu novo livro de poesias (em formato PDF, e-book).

Terça-feira, 5 de Agosto de 2008



QUERO
QUE SEJAS ASSIM
COMO MINHA COMIDA
E
QUE ME COMAS TODOS OS DIAS
ÀS MORDIDAS
TE DEVORAREI
ME CONSUMIRÁS
PORQUE NA VIDA
O QUE NÃO FOR PRA SER POR INTEIRO
QUE
NÃO SEJA AOS PEDAÇOS

Quinta-feira, 31 de Julho de 2008

Entrevista com Rubens da Cunha

CC: Você nasceu em Joinville, SC, onde reside, não é? Fale um pouco de você: como foi sua infância?
Rubens da Cunha: Sou filho de um agricultor e de uma professora primária. Vivi até os vinte anos na roça, trabalhando com meu pai. Costumo dizer que tenho vinte anos de mato e quando eu tiver quarenta anos, vou ter vinte anos de cidade, assim aos quarenta vou estar zerado. Minha infância foi marcada pela falta de energia elétrica no lugar em que vivíamos. A “luz” só chegou lá em casa quando eu tinha 7 anos, e com ela vieram todos os confortos: geladeira, televisão, enceradeira, liquidificador. Coisas que se tornaram imprescindíveis, mas que para mim naquela época não faziam muita diferença. Às vezes falta energia e meu irmão mais novo pragueja por não poder usar o computador. Eu rio por dentro, da distância entre a infância que ele teve (está com 18) e a minha. Fui alfabetizado por minha mãe. Tive aula com ela, da primeira à quarta série. Sempre fui muito sozinho, desde cedo olhava os livros com olhares diferentes dos meus colegas, eu os lia para além do dever, para além da sala de aula. Fora isso, fiz tudo que os moleques da localidade faziam: tomava banho de rio, pescava, andava de bicicleta, caçava passarinho, subia em árvore, mijava sobre formigueiros...

CC: Quando você decidiu ser escritor? E quando você se descobriu verdadeiramente escritor?
Rubens da Cunha: Eu decidi ser escritor mais tarde, por volta dos 20, 22 anos. A leitura me motivou à escrita. Eu sempre li muita poesia. Comecei a tecer uns exercícios, todos horríveis, claro, mas fui tomando gosto, percebendo que escrever não era apenas sentimento, inspiração, mas um trabalho de criação artística que exigia muito. Por ser uma arte de simples execução: papel e caneta, própria para os tímidos, e que não exige tantas coisas como as demais artes, fascinante, é que me aproximei e me decidi pela escrita como forma de expressão.
Quanto à segunda pergunta, eu ainda não sei se sou verdadeiramente um escritor. Exerço a escrita, gosto dela, é a forma que eu escolhi para me manifestar, mas esse “verdadeiramente” pra mim é muito amplo, vem muito carregado de responsabilidades. Vou me amparar em Fernando Pessoa e responder de forma irônica: eu sou “fingidoramente” um escritor.

CC: Você acaba de lançar Aço e Nada, livro de crônicas. Fale sobre o livro.
Rubens da Cunha: Escrevo crônicas há mais de quatro anos para o Jornal A Notícia, um dos principais jornais de Santa Catarina. Aço e Nada é uma seleção das crônicas publicadas entre fevereiro de 2004 e março de 2007. São 64 crônicas divididas em quatro capítulos temáticos: “Os Animais Dentro”, em que as crônicas se aproximam do conto, possuem personagens. “O Olho Vigiador”, são crônicas a respeito da cidade, das ruas, do lugar em que moro. “O Corpo da Gratidão”, cujas crônicas se aproximam da prosa poética. “O Morador das Palavras”, em que as crônicas refletem sobre o ato da escrita.
Procurei, nesse livro, reunir textos mais atemporais, que não dependessem tanto do contexto histórico.

CC: Muito já se falou sobre a morte da crônica, que a crônica é um gênero menor... O que você pensa a respeito?
Rubens da Cunha: Não acredito muito em gênero, gosto de misturar as fronteiras, minha prosa vem carregada de poesia, alguns de meus poemas são quase narrativos. Acredito que não haja mais possibilidade de estancar os tipos possíveis de textos literários dentro das características básicas de cada gênero. O mesmo ocorre com a crônica, tida como conversa do escritor com o leitor, misto de linguagem literária e jornalística, tem que abordar cenas do cotidiano, geralmente com humor, enfim, essas são características da crônica clássica. A crônica atual é muito mais abrangente, pois vai beber também na fonte dos outros gêneros.
Não acredito na morte da crônica, até porque é muito praticada. Só no jornal em que escrevo existem 7 cronistas, um para cada dia da semana. E é assim em praticamente todos os jornais. Como vai morrer um gênero que é tão escrito?
Quanto a ser menor, acho esse discurso meio erudito, existem textos bons e ruins, independem do gênero. Uma crônica bem escrita vale bem mais que um poema mal escrito. Além disso, a crônica tem uma gama enorme de leitores, e pelo menos em relação a mim, é o único gênero que eu pratico profissionalmente, no sentido em que recebo pelo trabalho que executo.

CC: Antes de Aço e Nada você publicou A Busca Entre o Vazio (em formato e-book), Campo Avesso e Casa de Paragens (não sei se a ordem é essa, não me recordo). Fale um pouco sobre cada um dos livros.
Rubens da Cunha: A ordem é a seguinte: 2001, Campo Avesso, meu primeiro livro, e como tal uma experiência quase desastrosa, um livro metalingüístico em que os assuntos abordados nos poemas só interessavam a mim ou a outro escritor novato.
Em 2004 lancei Casa de Paragens, que já é um livro mais maduro, com uma linguagem mais definida, um projeto mais acertado que aproxima o poema à prosa pelo formato quadrado dos textos, numa tentativa de abolir a forma mais comum dos versos.
O e-book foi um projeto do site
www.arcosonline.com, capitaneado pelo poeta português Victor Domingos, em que eu publiquei algumas narrativas.

CC: Você coordena o Grupo de Poetas Zaragata, aí em Joinville. O que exatamente vocês fazem, além de zaragata? O que é o Grupo Zaragata?
Rubens da Cunha: Deixei a coordenação no fim do ano passado. Passei a bola para um poeta mais jovem e motivado do que eu. O Zaragata é um grupo de estudos, que se reúne para leitura e crítica dos próprios poemas. Talvez por isso somos menos de dez pessoas, já que a crítica é um dos nossos pontos-chave. Fazemos apresentações, saraus, vamos a algumas escolas, esse tipo de atividade. Mas a essência do grupo é o estudo do texto poético como elemento essencial para o aprimoramento da escrita.

CC: Você é contista, poeta, cronista... O que você prefere: a poesia ou a prosa? O que exige mais de você? Você se considera essencialmente poeta, ou prosador?
Rubens da Cunha: Minha linguagem natural é o poema. Minha linguagem racional é a prosa, é quase como um segundo idioma. Costumo me identificar como poeta, apesar de todo estigma que a palavra carrega, mas devido à dimensão que o jornal tem, estou sendo citado muito como cronista. Não vejo muita distinção entre prosa e poesia, até porque meus textos misturam muito os gêneros, então não posso dizer que sou poeta ou prosador, vou sair pela tangente: sou poeta e prosador.

CC: Qual a finalidade da poesia? É possível defini-la em uma única palavra?
Rubens da Cunha: Quando a poesia tiver finalidade eu desisto dela imediatamente. A sua força, beleza, verdade, está no fato que ela não serve para nada, não tem viés utilitário, objetivista, não é algo que vá exercer uma função. A poesia é apenas poesia. Cada um faz o que quer dela. Na verdade, ela não serve para nada e ela serve para tudo.
Quanto à segunda pergunta, não consigo encontrar uma palavra que defina poesia, talvez dicionário e imaginação. A primeira porque contém quase todas as palavras, a segunda porque com ela é possível reinventar as palavras já existentes e criar novas.

CC: Como você definiria a sua Literatura?
Rubens da Cunha: Muito complicado isso, mas minha literatura quer expor a fraqueza do humano e a beleza trágica dessa fraqueza. Costumo trabalhar com um tema recorrente: o homem inadequado ao meio. Um homem preso às convenções e conveniências, mas com um desejo intenso de fuga, de distanciamento de tudo.

CC: Você acredita em oficinas literárias? Você é fruto de oficinas?
Rubens da Cunha: Acredito em oficina como uma das ferramentas possíveis para melhorar a escrita, ampliar possibilidades, desenvolver a técnica criativa. Muito do poeta que eu sou veio a partir de uma oficina que fiz com o poeta Fernando José Karl. Não há dúvidas que minha escrita é antes e depois do contato que tive com ele e sua oficina da palavra.

CC: Você lê crítica literária? Você liga para a crítica, para o que falam sobre seus livros?
Rubens da Cunha: Eu leio crítica porque gosto e por força dos meus estudos de Letras. Gosto muito. Acho que ajuda a conceituar melhor os projetos literários. Impossível não ligar para o que falam do meu trabalho. Tanto elogiosamente quanto negativamente. Tudo se torna motivo de reflexão e ferramenta de aprimoramento da minha escrita. Os elogios mantêm acesa a chama da minha humildade, as críticas negativas mantêm o meu orgulho vivo, com aquela necessidade de provar que na próxima não vai ser bem assim.


CC: Qual a palavra mais bonita da língua portuguesa?
Rubens da Cunha: Alaranjado.

CC: Qual personagem da literatura que mais marcou você?
Rubens da Cunha: Abel, do romance Avalovara, de Osman Lins. Eu queria muito ser aquele cara.

CC: Dos poetas e escritores de hoje, quais são seus preferidos?
Rubens da Cunha: Hilda Hilst acima de tudo e de todos. Foi a única escritora (entre homens e mulheres) que me fez parar de escrever. Eu sempre leio Hilda pra saber meu lugar, para me colocar em meu lugar de escritor insignificante. Hilda destrói meu ego e isso é bom. Me dá consciência dos meus limites e de como e quanto posso superá-los.
Dos vivos, aqui em Santa Catarina tem um poeta chamado C. Ronald que me fascina muito, uma obra difícil, estranha, mas sempre sedutora. Recentemente li Lourenço Mutarelli: Cheiro do Ralo e Natimorto, além de uma série de revistas em quadrinhos dele. Me impressionou muito, sobretudo, o romance Natimorto.

CC: O que você está lendo no momento?
Rubens da Cunha: Terminei Se um viajante numa noite de inverno, do Ítalo Calvino, e vou começar a ler A Rainha dos Cárceres da Grécia, do Osman Lins. Nesse intervalo tenho lido textos teóricos e muitos poemas.

CC: Hoje em dia todo mundo é "escritor", todo mundo é "poeta"... Basta navegar um pouco pela internet para perceber isso. O que você acha disso? De cada 10 blogs, quantos, na sua opinião, são de Literatura?
Rubens da Cunha: Depende. Se você diz de cada 10 blogs que se dizem de literatura, quantos são realmente de literatura? Eu digo que no máximo 3. Na verdade a gente vai fuçando, caindo nos blogs meio ao acaso, por indicação, e vai se identificando, se conhecendo. O meu blog tem a pretensão de ser de literatura, de ser um espaço que demonstre a minha produção literária. Acredito que muitos tenham a mesma intenção, quanto a valores estéticos e literários, aí embaralha o meio de campo.

CC: Já que estamos falando em internet e blogs, indique um blog para os leitores do Simplicíssimo e do Balaio de Letras.
Rubens da Cunha: O blog do Henrique Fialho traz sempre resenhas muito interessantes da literatura contemporânea portuguesa, algo que me interessa muito atualmente (
www.antologiadoesquecimento-leituras.blogspot.com). No Brasil posso indicar o blog do Fernando José Karl (http://nautikkon.blogspot.com) e um dos vários blogs do Douglas Dias (www.vomitandoimagens.blogspot.com). (Sempre invejei quem consegue manter vários blogs ao mesmo tempo).

CC: Como anda o cenário literário aí em SC? Você mantém contato com escritores daí?
Rubens da Cunha: Sim, mantenho bastante contato com muitos. Óbvio, como em todo lugar, andamos conforme nossas identificações estéticas. O cenário literário em SC é bom, bastante produtivo, o que nos falta é uma ampliação dessa produção. É muito difícil de sair, via livro, das fronteiras catarinenses.

CC: Algum livro mudou sua maneira de ver e pensar o mundo? Você acredita que isso seja possível?
Rubens da Cunha: Sim, alguns já alteraram minha rota. Poemas dos Becos de Goiás, de Cora Coralina, fez com que eu olhasse a poesia como uma arte possível de ser feita por mim. Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão, de Hilda Hilst, fez com que eu olhasse a poesia como uma arte impossível de ser feita por mim. A Paixão Segundo G.H. me fez homem. Avalovara, do Osman Lins, me desfez enquanto homem.

CC: Qual o sentido de tudo isso?
Rubens da Cunha: Nenhum, talvez se procurar bem, haja no fim de tudo uma bela interrogação.

CC: E o Brasil?
Rubens da Cunha: Acho que o Brasil precisava mesmo era ir para reciclagem. Limpeza total, tudo novo. Tudo inédito.

CC: O que você diria para quem pretende ser escritor?
Rubens da Cunha: Leia. Escreva. Não goste muito do que você escreve. Mas sinta um certo orgulho de exercer esse poder: o da escrita criativa.

CC: O que você gostaria de ter falado e que eu não perguntei?
Rubens da Cunha: Contar que eu queria mesmo era ser cineasta e músico. Mas por incompetência financeira da minha família e da minha falta completa de ritmo não pude ser nem uma coisa nem outra.

CC: Rubens da Cunha por Rubens da Cunha.
Rubens da Cunha: Cito Caetano, em “Peter Gast”, para me definir:
“Sou um homem comum
Qualquer um
Enganando entre a dor e o prazer
Hei de viver e morrer
Como um homem comum
Mas o meu coração de poeta
Projeta-me em tal solidão
Que às vezes assisto
A guerras e festas imensas
Sei voar e tenho as fibras tensas
E sou um
Ninguém é comum
E eu sou ninguém...”



Entrevista concedida ao poeta e prosador Cláudio B. Carlos (CC) - publicada anteriormente no site Simplicíssimo.
Visite o blog do Rubens da Cunha: www.casadeparagens.blogspot.com

Sexta-feira, 25 de Julho de 2008

POEMAS MÍNIMOS 8

Foto: Cínthia Casagrande
Pra quem vive
no escuro
uma brasa de cigarro
é um farol
_______________
O PENSAR pequeno
A CIDADE minúscula
A gentinha
_________________
É PRECISO PILAR
PILAR E
PILAR INCANSÁVEL
PARA SÓ DEPOIS
SABOREAR
ESSA É A VIDA
EIS A RECEITA
__________________
Há em mim
uma tristeza profunda
dizem:
Infelicidade
digo:
Realismo
aliás, o que chamam felicidade
digo:
Alienação
_______________________
Minha cabeça
no céu da tua boca...
______________________
A nossa cidade
a necessidade
____________
Teresa
minha fuga tem teu nome...

Terça-feira, 22 de Julho de 2008

A Travessia

O poeta e escritor Ádlei Duarte de Carvalho acaba de lançar A Travessia, seu romance de estréia, livro que tive a honra de prefaciar. Clique aqui e saiba mais sobre o livro. Para receber o livro autografado, entre em contato com o Ádlei pelo seguinte e-mail: projetoatravessia@terra.com.br. A foto da capa é de Cínthia Casagrande.


Sábado, 12 de Julho de 2008

O UNIFORME

Foto: arquivo pessoal do autor

ERA uma espécie de código. Se, por aqueles dias, me mandassem pôr o uniforme eu deveria saber do esperado inevitável. Acordaram-me cedo. Indicaram-me as roupas: camisa branca, calça de tergal azul-marinho, carpins pretos e as indefectíveis congas. Depois, alguém me deu o café e conduziram-me ao necrotério. Sentei-me, ainda acordando, ao lado da mãe. Não entendia nada. Alguns colegas meus foram me abraçar. Eu era a única criança com o uniforme do grupo escolar. Era período de férias. E eu havia esquecido do código. No centro da sala, a esquife e o pai sendo velado.

Sábado, 5 de Julho de 2008

ODE ÀS HIENAS

Oh, não
não se calem
hienas
continuem
a rir-se de mim
sou mesmo digno de todas as troças
pois
enquanto bebem
fumam
e saracoteiam
eu
perco meus dias
a pensar
e apenas penso
e decerto não é por meus pensamentos
que a roda gira
nem por vossos rega-bofes, é claro
mas o fato é
que se divertem
enquanto eu
tento
inútil
passar um elefante
numa cabeça de agulha

Sexta-feira, 27 de Junho de 2008

POEMAS MÍNIMOS 7

Foto: Cínthia Casagrande
O CARMA
A CALMA
_________


AMORAL
MORAL
IMORAL
_________
A T R A I R
T R A I R
______________
A ALMA
A ARMA
____________
A escassez
apura
o olfato
_____________
inquietações
e poesias
me habitam:
Revoada de palavras
_____________

FOSTE
levando meu globo
___________

a perfeição é a imperfeição
________

a fé
é filha do parco com a necessidade...


Domingo, 22 de Junho de 2008

QUALQUER PALAVRA

Qualquer palavra pode ser a primeira palavra de uma história. Neste caso, já que a introdução faz parte do relato, a palavra é qualquer... dia desses dou cabo dessa merda. Ando meio morto pela vida e suas avenidas, meio que não dando ligança, mas sei o que pensam, sei o que cochicham, sei dos risinhos de canto de boca, dos meneios de cabeça, dos dedos que me apontam. Qualquer palavra pode ser a primeira palavra de uma história. Qualquer ato pode ser o primeiro ato de uma tragédia. Qualquer coceirinha na ponta do dedo pode causar o primeiro disparo. Sei de gente que dispara. Sei de gente que diz pára...
Ando meio morto pela vida e suas avenidas, meio que não dando ligança, mas digo uma coisa pro moço, pra mim não faz diferença: um coice num cusco ou um tiro na cara dum fila-da-puta desses...
Crianças me chutam as canelas, me jogam pedras, me xingam. Adultos me escorraçam, me cospem. Nem na igreja me deixam entrar: me apontam a rua.
O moço sabe por que a porta da igreja é alta desse jeito? Pra mostrar a pequeneza das gentes...
Ai que tem dias que me dá uma coceira e aí eu meto uma cangebrina nas caraminholas que se não fosse gente humana... ai que pra mim faz diferença, sim. Faz muita diferença, que eu não dou coice em cusco.

Sexta-feira, 20 de Junho de 2008

Entrevista com Líria Porto

CC: Líria, você sabe que eu conheci sua Poesia há pouco tempo... Lembro que quando encontrei seu blog fiquei completamente apaixonado: encantado pela força das suas palavras, pelo humor sutil, pela Literatura maiúscula que acabara de descobrir. Enviei o link do seu blog para o Ádlei Duarte de Carvalho, também poeta e escritor (mineiro, assim como você), que me respondeu o seguinte: “Muito bom. Gostei. Ela tem um cheiro de mineirice, de interior, que gosto muito.” Pois então, de onde vem Líria Porto? Você é mineira, de que cidade? Fale um pouco sobre você: sua infância, sua adolescência... Você vive em “Belzonte” (risos), não é?
Líria Porto: Nasci em Araguari, triângulo mineiro, região muito plana, diferente das montanhas de Belo Horizonte, onde moro há mais de 40 anos. Sou privilegiada, aprendi na infância a enfrentar diretamente o que vem pela frente – depois aprendi que também se pode sonhar com o que está atrás dos montes...
Desde que me entendo por gente gosto das letras, das palavras! Minha mãe contava que comecei a ler sozinha e antes da idade em que as crianças, por lei, tinham permissão para entrar na escola... Meus pais encontraram uma alternativa, freqüentei o Externato Santa Terezinha, escola particular, a partir dos 5 anos, e já alfabetizada.

CC: Você ainda é inédita em livro, certo? Por quê? Nunca quis publicar ou não teve oportunidade?
Líria Porto: No colégio era boa aluna de português, criativa, escrevia quadras, pequenos poemas, participava ativamente dos eventos literários... Casei-me, vim para Belo Horizonte, tive filhos, e de alguma forma hibernei como escritora – lia outros autores, outros poetas, mas não produzia texto algum – isso durou umas três décadas!

CC: Quando você começou a escrever? E quando você se descobriu poeta? Já vou logo avisando que não vou chamá-la de poetisa (a menos que você queira), tá? Acho essa palavra horrível.
Líria Porto: Comecei a sentir necessidade de me expressar de outras formas, entrei para uma aula de pintura num curso de extensão na UFMG e foi absoluta a falta de talento – num daqueles dias, uma das colegas pediu-me um texto para acompanhar um quadro seu, vencedor num concurso, e o que escrevi com muita naturalidade foi um poema – entreguei-o a ela sem o assinar... Percebi que escrever era o meu caminho – de lá para cá faço-o todos os dias, se bem que no (re)começo não tinha coragem de mostrar a ninguém aquelas ousadias...

CC: Por que você escreve?
Líria Porto: Por que escrevo? Não sei... Talvez porque já não consiga viver sem a escrita – além de ótima companhia, com ela mantenho “diálogos” interessantes...

CC: Além de escrever em seu blog, onde mais você publica?
Líria Porto: Tenho publicações em alguns sites: escritoras suicidas, germina literatura, cronópios, casa da cultura.org, interpoética, garganta da serpente, jornal da poesia, paralelo 30, entre outros... Sem falar do blog pessoal e do putas resolutas.
Há muita gente generosa na net que, vez por outra, publica poemas meus em suas páginas...

CC: Qual a finalidade da poesia? É possível defini-la em uma única palavra?
Líria Porto: Poesia é olhar, defino-a com esta palavra – olhar.

CC: Como você definiria a sua Poesia?
Líria Porto: Tenho uma forma direta, simples, bem-humorada de ver a vida, de escrever, não sei o que isto significa.

CC: Você participou, ou participa de alguma oficina literária? Você acredita em oficinas literárias?
Líria Porto: Já participei de alguns grupos, porém acho que estou ficando velha – não tenho muita paciência para todas as discussões – algumas tão inócuas...

CC: Qual a palavra mais bonita da língua portuguesa?
Líria Porto: Há palavras lindas – orvalho, crepúsculo, desmaio... Sem falar que amo as proparoxítonas, dão-me a impressão de morrerem antes do tempo, antes que acabemos de pronunciá-las, o que as transforma numa força delicada, meio etérea, sei lá... pétala, trágica, fórmula, esquálida, mística...

CC: Se sua vida fosse um poema, que título teria?
Líria Porto: Hum, talvez... terra!

CC: Qual personagem da literatura que mais marcou você?
Líria Porto: As mulheres de Érico Veríssimo – Olívia, Ana Terra, Bibiana; Diadorim, do Guimarães Rosa; Capitu, do Machado de Assis; Inácia Micaela e Catula, no lindo livro O Cheiro de Deus, do Roberto Drummond; Cândida Erêndida, do García Márquez...

CC: Dos poetas e escritores de hoje, quais são seus preferidos?
Líria Porto: Quintana, Drummond, Adélia, Cora, Affonso Romano, Carpinejar...

CC: O que você está lendo no momento?
Líria Porto: Leio Inês da Minha Alma, da Isabel Allende e releio a obra de Adélia Prado.

CC: Hoje em dia todo mundo é "poeta"... Basta navegar um pouco pela internet para perceber isso. O que você acha disso? De cada 10 blogs, quantos, na sua opinião, são de Literatura?
Líria Porto: Pois é... E é também, acho, o motivo pelo qual ainda não publiquei meu primeiro livro – preciso estar segura de que não serei mais uma a abarrotar as prateleiras das livrarias com livros de qualidade sofrível...

CC: Já que estamos falando em internet e blogs, indique um blog para os leitores do Simplicíssimo e do Balaio de Letras.
Líria Porto: www.escritorassuicidas.com.br tem muita gente boa lá, literatura da melhor qualidade!

CC: Como anda o cenário literário aí nas Minas Gerais? Você mantém contato com escritores e poetas daí?
Líria Porto: Minas é uma fonte de bons escritores! Sou tímida, caseira, os contatos que tenho são na maioria feitos por e-mails – além do mais, não sou conhecida no meio literário...

CC: Você acha que existe uma “literatura mineira”?
Líria Porto: Acho, embora haja escritores mineiros como o Affonso Romano de Sant’Anna, cuja linguagem é universal.

CC: E uma “literatura feminina”?
Líria Porto: É... Não sei bem...

CC: Você acha que “a mão que governa o verso balança o mundo”? Explicação aos leitores: estes versos de Líria Porto aparecem logo na abertura de seu blog.
Líria Porto: Acredito nisto! A poesia é capaz de (co)mover o mundo, conduzi-lo a caminhos menos violentos, mais conscientes...

CC: Algum livro mudou sua maneira de ver e pensar o mundo? Você acredita que isso seja possível?
Líria Porto: Adolescente, li e reli uma antologia de poetas portugueses – meu pai era comerciante, em casa só havia os livros escolares, então eu fugia para a casa do vizinho para ler poesia – até hoje me lembro do “Melro” (Guerra Junqueiro), de alguns dos sonetos do Camões, do Bocage, de poemas do Fernando Pessoa... Foi aí que comecei a sentir o mundo – ao invés de tão somente habitá-lo...

CC: Qual o sentido de tudo isso?
Líria Porto: “Tudo vale a pena se a alma não é pequena”.

CC: E o papel da poesia?
Líria Porto: Essencial como o algodão que se coloca entre os cristais!

CC: E o Brasil?
Líria Porto: Amo o Brasil, acredito na minha pátria e no povo brasileiro!

CC: O que você gostaria de ter falado e que eu não perguntei?
Líria Porto: O hábito da leitura. É preciso cultivá-lo! Cuidar da escola desde o início, remunerar bem os professores – isso muda o rumo de uma nação!

CC: Líria Porto por Líria Porto.
Líria Porto: Pode parecer contraditório, mas sou a um só tempo brava e pacata – aquilo de dar um boi para não entrar na briga... (risos).




Entrevista concedida ao poeta e prosador Cláudio B. Carlos (CC) – publicada anteriormente no site Simplicíssimo. Visite o blog de Líria Porto: www.liriaporto.blogspot.com

Quarta-feira, 18 de Junho de 2008

POESIA
é um ajoujamento de idéias e palavras
flores e espinhos
céus e terras
é a carícia e a tortura
que
– meninas –
de mãos dadas
dançam em ciranda mostrando as polpas
e atordoando os poetas

Sábado, 14 de Junho de 2008

para ler e ouvir 2

MUDO
PÁGINA
SEM PALAVRAS
BOCA
SEM LÍNGUA
UM SURDO QUE NÃO PULSA
É MUDO

Sábado, 7 de Junho de 2008

POEMAS MÍNIMOS 6

Foto: Cínthia Casagrande

o sol é dos outros
e a peneira SEMPRE MINHA
***
Tudo virou arte
arte virou nada
***
Passaste:
ouço o brotar de flores...
***
MISERÊ
MISERERE
***
Existem coisas
que nos ajudam o viver
é o que chamam lenitivos
é o que chamo sonhos
***
POÉTICO
APOTEÓTICO
METEÓRICO
vão
***
METAL
VI
TAL
LETAL



Quarta-feira, 4 de Junho de 2008

URUBU-REI



O HOMEM
COMO LOBO DE OUTRO HOMEM
COMO LOBO DE OUTRO HOMEM
COMO LOBO DE OUTRO
À ESPREITA
DE QUÊ?
A FOME
ARDE
COMO FOGO
CONSOME
O LOBO NÃO COME
O HOMEM NÃO COME
E O CÃO DO HOMEM TAMBÉM NÃO
CHOÇA PESTILENTA
DE SAPÊ E BARRO
MOSCAS AZULADAS
O QUE SE PLANTA SE PERDE
SE PLANTA A PLANTA
DO PÉ NA TERRA
VERMES
PARASITOS
À ESPERA DE QUÊ?
A ESPERA
ARDE
COMO A FOME
CONSOME
SE PERDE A NOÇÃO DO TEMPO
CORPO SEM ÓRBITA
PERDE-SE NO ESPAÇO
HOMEM
MOSCA
CÃO
CASEBRE
O BRAÇO FRACO
RISCA
O CHÃO
CÍRCULO
LIMITE IMAGINÁRIO





CÃO HOMEM




ALCATÉIA
A FOME FICA DENTRO
A MORTE
TANTO FAZ
DENTRO
E
FORA
A MORTE ESTÁ EM TODO LADO
FEDE
NAS CABEÇAS DE GADO
NO OSSO HÁ MUITO SEM CARNE
OFENDE
FERE
O HOMEM
COMO LOBO DE OUTRO HOMEM
COMO LOBO DE OUTRO HOMEM
COMO LOBO DE OUTRO
TAMBÉM
em terra de cego quem tem um olho
NO CÉU SEM SOL
URUBU-REI

Domingo, 1 de Junho de 2008

KAFKA?

Foto: Cínthia Casagrande

As pequeninas patas produzem, ao andar freneticamente na madeira do rodapé do banheiro, um barulho como o de unhas batendo alternadas numa mesa.



De cócoras. Tenta pegá-la com a mão esquerda. O dedo anular da direita está inflamado. Evita usar a mão direita. Ela é elétrica, rápida, pequena e ágil. Escapa. Corre atrás dela. Um, dois, três passos laterais. Desordenados. Tenta esmagá-la com o pé direito. Chuta a parede. Erra. Abaixa-se novamente. Tenta agarrá-la com a mão (esquerda) de novo. Evita usar a direita. O dedo anular da mão direita está inflamado. Tem a mania de arrancar as cutículas com os dentes. Bem feito. Deu nisto. À tarde tomou vacina antitetânica. O dedo lateja. Um minúsculo vôo. 2 x 0. Ela foge mais uma vez.


Encurralada atrás da porta do banheiro. Talvez cansada. Talvez desistente. Ela se entrega. Ele agarra-a (com a mão esquerda). A direita está com o dedo anular inflamado. O dedo lateja. Tem na ponta uma bolha de pus. Anda até o vaso onde joga-a com força. Ela esperneia inutilmente. Ele abaixa as cuecas. Barata, água sanitária e mijo se misturam. Aperta com o polegar direito o botão da descarga. Ela some em redemoinho com a água e com o mijo. Ele ergue as cuecas. Vai até a pia. Lava as mãos. Faz xis para o espelho oval. Os dentes amarelos de cigarro. Sorri um sorriso adormecido. Amarelecido (não de cigarro). Tem a garganta rasgada do resfriado e das palavras não-ditas pensadas na insônia de tantas noites. Click. Apaga a luz. Dirige-se ao quarto. Deita. Tenta dormir. Consegue?

Domingo, 25 de Maio de 2008



Amar amar
amar incondicional
mas como
se não entendem
a sutileza do meu cinema
as entrelinhas do meu romance
amar
amar
inutilmente amar
personagem
de um samba sem enredo

Domingo, 18 de Maio de 2008

POEMAS MÍNIMOS 5

Foto: Cica

SOBRE O Q C V

quem menos sabe
mais sobe
_______________________
TUA FAMÍLIA TE FARÁ FALTA



se um dia quiseres montar
um álbum de fotografias...
_______________________
SE PENSAS QUE



Se pensas
que pensas
não pensas:
És programado
________________________
FRAGMENTO DE ELEGIA PARA UMA PULGA



unha de polegar
contra unha de polegar
um estalo
e estouras
parasita gorda
transformando-te:
minúsculo salpico de sangue

Sábado, 10 de Maio de 2008

para ler e ouvir

DE LUA E ESTRELAS


E
eis que veio a noite
com seu brilho de lua e estrelas
exímia maquiadora
transformou o hoje em amanhã
o dia
amanheceu outro...



Clique aqui para baixar o poema (mp3).

Domingo, 27 de Abril de 2008

... é dolorido
ser herói
a cabeça lateja
os olhos pesam
amarga é a boca
as mãos tremem
as tripas se contorcem
acho que é fome...



Sábado, 19 de Abril de 2008



ESCREVI
com caco de tijolo
teu nome
no
céu
depois que as crianças
cansadas de pular
esqueceram na calçada

os traços da amarelinha

Quarta-feira, 16 de Abril de 2008

Lírica fedentina



Nas construções
atrás dos tapumes
em cima dos andaimes
fazendo cimento
misturando a massa
carregando pedra
quantos Severinos
Raimundos
Nonatos
de cabeça chata
minúsculos
coitados
de olhos grandes
compridos
parados
no horizonte
na hora da marmita
hora morta
de músculos doídos
para além de onde vão e vêm
os bondes
que partem
e
que
chegam
na rodoviária
entra ano e sai ano
em qualquer estação
O que entende de liberdade quem já nasce em
arapuca?
Sinuca de bico
o jugo de dar forma aos esqueletos
prédios em elevação
no fiofó do mundo da pampa
desenhos inanimados
arquitetônicos

Trecho de Lírica fedentina, poema-livro (formato PDF, e-book).
Clique aqui para baixar o livro.

Sábado, 5 de Abril de 2008

POEMAS MÍNIMOS 4

Foto: Cica

C O M P O R
R E C O M P O R
D E C O M P O R
__________________________
Ser poeta é um compromisso.
Mas com quem foi mesmo
que eu assumi esta *-!/#*+ ?
__________________________
O FUMO
REVELA
E O MEL
NA PONTA DOS DEDOS
ACUSA
__________________________
SOLIDÃO
CERCADA DE SOLIDÕES
POR TODOS OS LADOS:

PESSOA
__________________________
FOME
É
O
NOME
DO
QUE
CONSOME
HOMEM
É
O
NOME
DO
BICHO
MISÉRIA
É
O
CENÁRIO
__________________________
Meu destino tem nome:
O teu nome.

Domingo, 30 de Março de 2008

DAS CISMAS

Todo início de todas as manhãs alimentava o hábito que mandava no corpo. Sempre. Mateava. Sempre o mesmo ritual. Sacro. A água esquentando na chapa do fogão, seis ou sete colheres de erva na cuia, o morro ajeitado com capricho: a cuia inclinada sobre a palma da mão direita, o morro lisinho e verde que nem coxilha. Começava o mate com a água morna. Esperava a água abaixar inchando a erva. Introduzia a bomba com o bocal tapado pelo polegar direito. Depois, o primeiro mate, já com a água chiando. Aí cismava, tomava uma, duas chaleiras, ouvia o assobio do vento que vazava frinchas adentro, invadindo o rancho. Ali cismava, ouvia a gritaria do bichedo e era acariciado pelas lembranças do tempo em que era guri e acordava mais tarde e ali naquele baú de guardar gravetos sentava o pai pra matear despacito. A vida segue. Somos peças de um jogo que na evolução(?) vão trocando de posição até o fim, numa espécie de rodízio. Até o fim. O fim de nós mesmos. Sabia do termo, mas era se como esperasse, de cuia na mão, enquanto o filho no quarto, aboletado no catre, dormia até um pouco mais tarde...

Domingo, 23 de Março de 2008

UM CANTO PARA PATATIVA

Dizem que no Brasil
em Assaré
existiu um homem feliz
tinha um metro e meio de altura
era semi-analfabeto
faltava-lhe um olho
e sobrava-lhe pobreza



Ora! Perguntaria-me o amigo:
— Como pode ser de ser feliz um ser assim?

Morreu ao oitavo dia do mês de julho
do ano de dois mil e dois
aos noventa e três anos de idade
era feliz o infeliz
porque era POETA!






Poema escrito em 8/ 7/ 2002, dia da morte do poeta cearense Antônio Gonçalves da Silva, o Patativa do Assaré, que dizia não haver ninguém mais feliz que ele.

Leia sobre Patativa do Assaré: clique aqui.

Domingo, 16 de Março de 2008

POEMAS MÍNIMOS 3

ALMA
DO
AVESSO
pode ser
LAMA
_________________________________
ENTRE O POEMA
E O POÉTICO:
entrelinha
_________________________________
DESMEREÇO
MEREÇO
ESMOREÇO
_________________________________
QUERO VIVER!
COMO EU QUERO VIVER!


QUERO VIVER COMO EU QUERO VIVER.
_________________________________
DESEJEI A SINA DOS EXCLUÍDOS
E SOFRO COM TANTA RESIGNAÇÃO
QUE QUEM ME VÊ
NEM NOTA
_________________________________
DENTRO
DE MIM
TEM UMA MULHER
INQUIETA E INQUIETANTE
QUE
INDAGA E ASSUSTA
________________________________
A GENTE TEM LIBERDADE
PRA FAZER O QUE QUISER

DESDE QUE
SEJA DENTRO DA ÁREA DE EXCLUSÃO

Domingo, 9 de Março de 2008

O VELHO GERMANO

tinha um olho nublado
e o outro era de vidro
e quebrado
manipulava títeres encardidos
e mal cosidos
aos que jogavam moedas no chapéu velho
que se quedava no chão
agradecia com discreta mesura
depois
levantava com dificuldade
apoiando-se na bengala de junco
e despedia-se em alemão
AUF WIEDERSEHEN
eu gostava de vir ao centro vê-lo
tinha ânimo o velho germano
um dia me disse com sotaque carregado:
— há de se ter engenho na vida...
quase trinta anos se passaram
e só agora é que percebi
estou aqui sentado
próximo ao chafariz
e não o vejo
além de mim só todas as pessoas do mundo
passando apressadas por aqui
os pombos disputam espaço
entre os passos das gentes
pra catar as migalhas que jogo
nenhum artista de rua
crescemos: a cidade e eu
o fantoche
hoje
sou eu
que crescido
não caibo no colo do ventríloquo
me levanto
guarda-chuva pendurado no braço
uma última olhada pra trás:
a paisagem é uma foto que guardarei comigo
embrulhada em amarrotados papéis com
cheiro de saudade
AUF WIEDERSEHEN








Para Tiarajú e Ubiratan Carlos Gomes

Domingo, 2 de Março de 2008

Foto: Cica


ANDAR PELAS RUAS
PASSAR POR JANELAS
ATRÁS DAS VIDRAÇAS
AS LENTES
SÃO AS VELHAS E OS VELHOS
PESSOAS MATEANDO NAS CALÇADAS
FIANDEIRAS DA VIDA ALHEIA
PASSAR POR ESQUINAS
ESGUEIRAR-SE
PARA NÃO DAR MOTIVOS
ser pequeno
o menor possível
PARA NÃO SER O MOTIVO
ANDAR PELAS RUAS
PASSAR POR JANELAS
TER A
LIBERDADE VIGIADA

Domingo, 24 de Fevereiro de 2008

esmagar-te-ia
como quem pisa em uma lesma
se fosses
reles e despicienda
pegajosa és
tal e qual um molusco
que não me larga
insistente
que se agranda
em minha morada
e em meus parcos teres
como posso desprezar-te
se com teu convívio
já estou quase acostumado
como posso querer
eu
criatura franzina
viver entre os bons
o que me dói
não é a falta de
são teus próprios afagos
tens mãos ásperas
que me machucam as faces amiga
posso chamar-te assim
de amiga
não posso?
conhecemo-nos bem
acho que sou pra ti
assim como uma espécie de razão de existir
e tu
amiga MISÉRIA
já és quase minha vida
esmagar-te-ia
como quem pisa em uma lesma
se pudesse
agora já não posso
tenho pernas cambaleantes
e mesmo
que fossem rijas
com nojo
não te pisotearia
pois
as solas dos meus sapatos
bem sabes
têm furos grandes como patacas
quisera
ter sido rápido o suficiente
para não me dar a conhecer
por ti...



e agora essa...
por que diabos afeiçoa-te a mim?

Domingo, 17 de Fevereiro de 2008

A GERINGONÇA

Deu entrevero de gente. Todos queriam ver o resultado de mais de trinta dias de trabalho. Foi um tal de cavouca daqui, cavouca dali... Homens, mulheres e crianças, de olhos arregalados, formavam um imenso círculo. No centro, um dos engenheiros desatarraxava a cabecinha da geringonça. Eu era guri e fiquei impressionado: como podia caber tanta água dentro daquilo que os doutores chamavam de torneira...

Domingo, 10 de Fevereiro de 2008

POEMAS MÍNIMOS 2

Foto: Cica


NÃO SE PODE ARRANHAR O CÉU
SEM SE PROVOCAR CHUVA...
____________________________
BUSCO SER RETO
MAS UMA PAISAGEM SEM CURVAS
É TÃO MONÓTONA...
_____________________________
tenho lodo na alma
amasso barro
obro tijolo
lama dando liga
jungindo palavra
obra



poeta
___________________________
À MARGEM:
A VIDA PARECE-ME
UM ETERNO RECOLHER
DE REDES VAZIAS
___________________________
O AMOR
REQUER
A
PACIÊNCIA
DE
UM AMOLADOR
DE FACAS
___________________________
ESPERANÇA
dia e noite alimentada
e como come a desgraçada!
__________________
Meu maior desejo
é ser somente o ser
que desejas
que eu seja
IMPERFEITO que sou:
ser humano

Domingo, 3 de Fevereiro de 2008

Tá rolando por aí...

O Homem da Caixa e Ítalo Puccini me perguntaram:

O que você estava fazendo em 1978, há 30 anos?
R: Eu tinha 7 anos de idade, morava numa fazenda, brincava com cuscos e com amigos imaginários. E namorava a filha do bolicheiro, só que ela não sabia.

E em 1983, há 25?
R: Com a morte, em 1982, daquele a quem chamava pai, estava aprendendo saudade. Começava a sentir o peso do mundo.

O que você estava fazendo em 1988?
R: Saindo da casa daquela a quem chamava mãe. Mais uma vez. E para sempre, como das outras vezes.

E em 1993?
R: Morava em Santa Cruz do Sul. Estava nascendo o “CC”.

O que você estava fazendo há 10 anos?
R: Comprando uma baita briga (mais uma), em nome do amor: valeu a pena.

E há 5?
R: Vivia, em Caxias do Sul, um grande momento profissional no rádio. Vi, de perto (mais uma vez), a inveja: a melhor definição para incompetência.


Seguindo as regras da corrente, passo adiante as perguntas. Os amigos escolhidos são:

TB

Ordisi Raluz

André Gabriel

Lucimar Justino

AS TIAS VELHAS, OS PRIMOS RUDES

TODOS ali ao redor da mesa grande, feita da emenda de três ou quatro pequenas: as tias velhas e os primos rudes que há tempos não via. As tias velhas com os resmungos lá delas e os primos rudes com os assuntos sobre cachorros, cavalos e exército, bailes, brigas e mulheres. As tias velhas envolvidas com rabugices. Os primos rudes com a rudeza da comilança: feijões, carnes e batatas. A dança das cervejas num eterno abrir de garrafas. Os cuscos, sob a improvisada mesa, rosnando na disputa pelos ossos pelados que os rudes primos, para total contrariedade das velhas tias, jogavam ao chão. As conversas lá deles em palavras atiradas à mesa, calando na madeira encarquilhada, com suas ranhuras disfarçadas pela tinta verde carregada: pintura das velhas. O assunto lá deles em palavras fáceis e não-pensadas, jogadas ao léu. Conversa lá deles, coisas lá deles que me entravam num ouvido e me saíam no outro. A revoltante dança das comidas nas bocas abertas ao comer, nas bocas cheias ao falar. O comprido dia que não passava, com seu interminável almoço: domingo. Na cabeceira, o velho Albano olhava a todos, que nem o notavam – seria seu último almoço no seio do que restava daquilo que por convenção ou comodismo, chamávamos família. Eu, que por outros e óbvios motivos também não era notado, percebi que ele se despedia: olhava com vagar e olhos úmidos um a um, enquanto todos se preocupavam em destrinchar as carnes, pelar os espetos, secar as garrafas... Depois, à tarde, os rudes primos, ou pelo menos a maioria deles, iria se entregar à rudeza do futebol lá deles, na várzea lá deles, e as velhas se entregariam a fuxicos – não de roupas – do viver alheio, e ao tricô. Tricotavam também o viver do próximo, mas aí, só se o próximo estivesse longe... Ah, as tias velhas! O que dizer das tias velhas? Ainda agora fechei os olhos e tudo o que me veio das velhas foi o falar dos outros, o tricô e um cheiro enjoativo de talco. Ah, os primos rudes! O que dizer dos primos rudes? Fechando os olhos o que vem são as peladas no campinho de terra vermelha – naquele tempo, tempo lá da nossa infância, não percebia os maus modos que hoje me saltam aos olhos. Minha presença naqueles almoços foi se escasseando cada vez mais até que... não mais apareci. E ficou por isso mesmo. O velho Albano olhava a todos, que nem o notavam – morreria dois dias depois daquele churrasco de domingo. Ele não percebeu que eu notei a despedida silenciosa. A morte do velho e a vidinha lá dos outros. Tudo ao mesmo tempo. Tudo se misturando ali na mesma mesa enjambrada, pintada com sobras de tinta esmalte. As tias velhas pintavam tudo o que desse na telha lá delas com o que sobrava da pintura anual das casas: mesas, cadeiras, cristaleiras, tudo. Da mesma cor das paredes. Terça-feira no final da tarde foi-se o velho Albano. Na quarta, no enterro, chovia chuva fina fininha que entranhava nos ponchos e nos chapéus, umedecia bombachas e lustrava botas. As tias choravam copiosamente com outras velhas conhecidas, e os primos, com outros rudes conhecidos, planejavam caçadas e jogos de bola e bocha em meio à pilhéria mal-porcamente disfarçada. Era início de julho e o vento no alto do campo-santo zunia-me nas orelhas. Quando baixaram a esquife joguei uma rosa branca pro velho, e como ele fez no domingo, em silêncio me despedi.

Domingo, 27 de Janeiro de 2008

POEMAS MÍNIMOS

SOU PRISIONEIRO
QUE LIBERTO
TEM MEDO DE TUDO O QUE NÃO É
DELIMITADO

**********

PRA
MINHA FOME
A ETIQUETA DE TEU PRATO RASO
COM PORÇÕES MINIMALISTAS
**********
A VIDA ME DITA REGRAS
QUE EU NÃO SEI SEGUIR
ACHO QUE NÃO NASCI
PRA VIVER
**********
LOUCURA
PODE SER UMA PALAVRA
ATIRADA NO ROSTO DE ALGUÉM...
a verdade
talvez
**********
A morte na vida é foda
o amor
literalmente

Domingo, 20 de Janeiro de 2008

A SANTA

Foto: Cica

DELA
guardei comigo uma medalhinha amassada com a imagem de uma santa que carrega um guri no colo. Quando perambulava por aí a trazia no bolsinho da fatiota. Quando assentei parada aqui na fazenda depositei-a pendurada a um prego sobre a cabeceira do catre. Rezar rezar, não rezo, que não sei nem nunca aprendi, mas proseio co’a santa vez por outra. E não é só pra pedir que falo com ela. Aprendi que na vida se tem que agradecer às vezes. Mesmo que se tenha pouco. Pior seria se fosse nada.
POR
aqui faço o de tudo. Tudo que um piá pode fazer, que o patrão é homem bom e não força sua montaria. Tiro o leite, que é tarefa buena, pois sou o primeiro a beber dele de manhã. Direto da teta pra caneca. Da caneca pra goela. Aí é só lamber o bigodinho de apojo que fica no beiço. Também varro o terreiro, dou bóia pras galinhas, pros porcos, pros patos, pros cavalos e cuido de manter o nível do sal do cocho daqui de perto da casa, o da Bragada, a que dá leite pros da casa. O de vender são os peões que tiram e essas vacas nem ficam aqui por perto...
DE
tarde vou ao grupo, que o patrão me quer fazendo conta, lendo e escrevendo. Pra mim já ta bom assim que já sei assinar o nome e o reconheço no papel.
DE
tardezinha repito as obrigações de tratar da bicharada e depois da janta me deito. Bem cedo, que aqui faz bastante frio. Até mesmo no verão. Aqui sempre sopra um ventito bagual que aprendi com a tia Leonor, a minha professora, se tratar de uma tal de brisa. No quarto, às vezes, fico folheando umas revistas de mulheres peladas, que consigo de contrabando com o negro Bocage. Nessas horas fico meio desajeitado nos pelegos, me dá uns troços diferentes, o pau endurece e aí não tem jeito. Não durmo enquanto não castigo o bem-te-vi.
O BORGES
disse que guri que muito se espunheteia cria cabelo nas mãos, mas eu tenho certeza que é mentira dele, ou então milagre da santa. Por falar nela – na santa – quando eu preciso fazer essas minhas necessidades com as gurias das revistas, eu tapo os olhos dela. Penduro as bombachas por cima. A peonada diz que dá pra guri fazer com as ovelhas ou com alguma égua mais mansa, ou até mesmo com porca que é bem parecido com mulher. Mas eu nunca tive vontade. E acho que se tivesse vontade teria medo. Medo de algum coice ou que o patrão me pegue, ou pior ainda, que a mulher dele me pegue. Ou muito pior ainda, que a filha dele que é guria meio fresca, me pegue. Credo. Me mijo de medo só de pensar...
AQUI NA FAZENDA
tenho um cusco de meu mesmo. Cruza de ovelheiro com perdigueiro. É meu amigo mesmo, o vivente. Quando saio pro mato pra caçar passarinho, não de arminha de chumbo, que o patrão não deixa, de bodoque mesmo, ele sempre vai junto comigo. Até já me aliviou de um bote de cruzeira, o bichão. O bodoque quem fez foi o Borges, que é mais meu amigo do que o Bocage, apesar de o Bocage me emprestar as revistas. É que o Bocage é mais bagaceira. Falquejou bem direitinho com o facão uma forquilha de figueira, amarrou uma borracha bem novinha de câmara de pneu de bicicleta, que conseguiu com o Jarí da borracharia, e me deu. Era meu aniversário. Nesse dia, o patrão me deu um relogito que uso só às vezes, por que o saber que o tempo escorre me angustia. O Bocage, à noite, foi ao meu quartinho, me entregou uma revista novinha, plastificada e tudo, me deu uma piscadinha e disse que eu não precisava devolver. Tá com as páginas surradinhas já e algumas meio que coladas por causa de uns acidentes de percurso que andei tendo...
DE VEZ EM QUANDO
choro. Nessas horas me escondo. Vou até a velha ponte quebrada e ali debaixo dela, sentado no barranco da sanga fico a escutar o lamento chiado das águas. Tenho vontade de mijar quando escuto o barulho que faz a água escorrendo. Quando lavo a cara de manhã cedo também sinto vontade de mijar, aí eu fecho a torneira, mas não adianta. Depois da vontade nascida só mesmo o prazer do mijo.
QUANDO
estou ali, na sanga, penso nela. Não consigo lembrar do rosto dela. Só dos cabelos lisos, longos e dos olhos tristes e grandes, e das mãos de dedos longos, unhas bem curtinhas e judiadas pelo sabão, pelo frio e pela água gelada. Se queixava de dor nos braços. Batia na tábua um tanto de roupa por dia. Lembro dela me dando a imagem da santa. Com a manga da camisa seco as lágrimas, afago a cabeça do cusco e volto pra casa, ora correndo atrás dele, ora ele atrás de mim. E olhando pro céu azul azulzinho daqui, me consolo. Que vida melhor do que essa pra um guri?

Domingo, 13 de Janeiro de 2008

A DEGOLA

Eu gostava de ver. Sentia uma espécie de gozo, que só experimentava quando via o sangue escorrendo pelo pescoço rasgado. O capim ficava salpicado de um vinho forte. As folhas dos eucaliptos, que secas, eram trazidas pelo vento, se borravam de sangue. O brilho que sumia, aos poucos, dos olhos amendoados, arrepiava-me. Eu gostava daquele espetáculo. Não era por mal. Eu não sabia que era um menino mau. Ficava ali, acocorado, bem perto, vendo a ovelha dependurada pela perna. Eu não sabia muito bem o que acontecia, não imaginava que era ela, a vida, que se esvaía. Hoje em dia é bem melhor: além de ver o sangue que escorre, posso, às vezes, sentir a alma saindo dos corpos. Não via isso nas ovelhas: bicho não tem alma...

O VAGO LUME

Foto: Cica


O vago
lume
da brasa
a vagar
por entre os dedos
sou
nada profundo
na vaga
que ouso
na vida

sentado no cepo
vagueio na noite
pito
sem sono
mateio
o próprio zumbi
mas
ao alvor
estarei pronto:
Tropearei o negrume das minhas noites
com os olhos rasos de ontens...

Domingo, 6 de Janeiro de 2008

taedium vitae

Foto: Cica

não oferecerei resistência. não serei eu a desviar o curso dos caprichos divinos. não que me falte vontade. não que não me sobre indignação. apenas tenho tédio. falta-me ânimo. ficarei aqui sentado enquanto este bafo quente varre o terreiro, enquanto os vermes resfolegam na carne de pêssegos maduros que se desprendem do pé, enquanto moscas azuladas e gordas cumprem seu destino de depositar ovos em cães, homens e outros bichos, enquanto o charque seca no varal, enquanto o charco se forma de água, terra e bosta de galinhas que pisam e repisam seu fadário burro... não serei eu a levantar daqui, a quebrar este encantamento de coisas e animais que como que hipnotizados vivem e morrem, são e estão, sem saber como nem porquê, quem apodrece e quem viceja, quem é que escolhe isto ou aquilo... estou aqui sentado. não resisto. não por mim, é que isto já foi decidido. então sigo parado, quieto. só o meu pensar é que pulsa, mas isto não tem importância. de que vale o pensamento se o esboço já vem de antes traçado? só me resta esparramar-me, ocupar um lugar até que seja, de fato, obra conclusa sob um revoar de corvos crocitantes: carne podre sobre terra fétida...