domingo, 4 de março de 2012
quinta-feira, 1 de março de 2012
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
Entrevista com Cleber Pacheco
Cleber Pacheco é gaúcho, nascido
em Esmeralda, em 1965. Mestre em Literatura Brasileira e Especialista em
Filosofia. É poeta, contista, romancista, dramaturgo, crítico literário e
artista plástico. Tem vários livros publicados. Na área do Teatro ganhou o
Prêmio Qorpo Santo, em 1996, com a peça Intimidades.
Publica na internet (no blog Translittera).
CC: Será que me
esqueci de alguma coisa? Quantos livros são ao todo? Alguns deles tivemos
(Cínthia e eu) o privilégio de editar.
Cleber Pacheco: Tem o meu trabalho na área de Terapias
Complementares, chamadas também de Alternativas. É o que faço diariamente, não
apenas para sobrevivência, mas como missão de vida. Acredito nisso. Há uma
interação profunda com as pessoas, um compartilhamento que vai muito além do
comum. Tenho aprendido imensamente e agradeço todos os dias pela oportunidade
de realizar tal tarefa. É um privilégio.
Quanto aos livros, são dez
publicados individualmente e participação em vinte e cinco antologias.
CC: Você vive em
Esmeralda. Sempre viveu aí? Como é a vida, para uma mente em constante
ebulição, como a sua, numa cidadezinha com pouco mais de 3.000 habitantes?
Cleber Pacheco: Estive fora por alguns anos. Morei em Passo Fundo, onde
fiz o curso de Letras e Filosofia e, posteriormente, para lecionar na
Universidade como professor de Literatura do RS, Brasileira e Portuguesa.
Depois fiquei dois anos e meio em Porto Alegre para fazer o curso de Mestrado
em Literatura Brasileira.
Estou ainda aqui por acreditar no
meu trabalho como uma missão que, por ora, precisa ser cumprida neste local.
Não tenho nenhum receio de falar
que é um ambiente extremamente hostil e de total indigência intelectual e
cultural. Não recebo apoio algum. Ao contrário, sofro perseguição política há
uns dez anos por ter criticado a administração municipal no jornal da cidade. Sou
boicotado até hoje. É como na época da ditadura. Cheguei a ser seguido em
viagens e espionado. Minha casa, não raro, é cercada por pessoas. A estratégia
é realizar uma total desmoralização para inviabilizar o meu trabalho por
completo por meio da calúnia, da difamação, da intimidação. Não há limites para
isso, nada é suficientemente baixo que eles não sejam capazes de fazer. Vale
tudo. É um caso de mau-caratismo explícito. Onde falta inteligência, não há
argumentos, mas bestialidade pura e simples. Enquanto isso, na cidade, a
bandalheira corre solta. É avidya, ou
seja, ignorância em sua plenitude. Para lidar com isso, é preciso vidya, conhecimento e viveka, discernimento. A estupidez
chegou a um nível tão baixo, que só resta mesmo sentir compaixão. Como disse
Buda: “O sol do meio-dia não é para as folhas tenras”.
Continuo realizando meu trabalho
terapêutico e já atendi pessoas de outras cidades, estados e até de outro país.
Continuo escrevendo e publicando livros. Acredito no que faço. Vim ao mundo
para realizar isto, para acrescentar algo, para contribuir. Não estou aqui a
passeio. Nada vai me fazer desistir.
CC: E sua
infância, como foi?
Cleber Pacheco: Já era dedicada aos livros. Tinha verdadeiro
fascínio por eles. Saí do jardim da infância porque desejava ansiosamente
aprender a ler e consegui entrar na primeira série na metade do ano letivo. Já
conhecia as letras e, por incrível que pareça, dentro de uma semana estava
lendo e escrevendo. Eu sabia exatamente o que queria.
CC: Quando você
teve o primeiro contato com a literatura? E quando você se descobriu escritor?
Cleber Pacheco: Ao lado da minha casa, meu avô materno tinha uma
loja que vendia de tudo, incluindo revistas e livros. Depois que aprendi a ler,
eu passava as tardes ali, sentado num canto, lendo, totalmente mergulhado
naquele fascinante mundo. Ele, carinhosamente, permitia. Jamais vou esquecer
disso.
Por volta de cinco, seis anos, ganhei
da minha mãe uma fantástica coleção de histórias clássicas para crianças, com
ilustrações deslumbrantes. Guardo até hoje. Tenho consciência de que aquele
universo mágico tem influência em minha escrita. E despertou-me o gosto pelo
desenho e pela pintura.
Na verdade, eu não me descobri
escritor. Já nasci escritor. Sempre soube que eu era escritor. Pode parecer
incomum, mas é a mais pura verdade.
CC: Somos amigos há bastante tempo (desde 2000, eu acho). Lembro-me
que trocávamos correspondências. Eu na minha seca Restinga, aí no RS (hoje eu
vivo em Belo Horizonte, nas Minas Gerais), e você na sua Esmeralda. Você ainda
guarda as cartas que eu lhe enviei? Eu guardo as que você me enviou (risos).
Cleber Pacheco: Sim, eu tenho, sem dúvida. Lembro perfeitamente de
quando recebi a primeira carta e de ter ficado pensando quem seria aquela
criatura e como havia me descoberto aqui, onde o diabo perdeu as botas. Li e
fiquei impressionado. Tratei de responder e aí, deu no que deu. Para minha
sorte, somos amigos até hoje. E, graças a esta parceria, diversos livros meus
vieram à tona. Uma amizade assim não tem preço.
CC: Uma explicação se faz necessária sobre as tais cartas: eu
estava lendo uma “antologia poética”, que não sei como foi parar em minhas mãos
(não me recordo), quando me deparei com um poema seu. O seu poema salvou o
livro (risos). Era, de longe, o melhor poema do livro. E digo mais: você era O
Poeta do livro. Não sou adepto das antologias, mas aquela caiu em minhas
mãos... O seu endereço estava lá no livro, e resolvi escrever-lhe uma carta:
dei o primeiro passo. Lembro-me que escrevi algo como “você é bom demais para
fazer parte dessas antologias” (risos).
Continuando: Saci ou Mosqueteiro?
Cleber Pacheco: Saci, porque é um ser meio mágico, tão brasileiro, sempre
aprontando das suas. Mosqueteiro também, porque Richelieu não dorme em serviço
e continua querendo, em sua megalomania e prepotência, ser o dono do mundo. O
falso poder doentio.
CC: O que você
está lendo no momento?
Cleber Pacheco: Eu costumo ler vários livros ao mesmo tempo. Então
ainda estou às voltas com o Moby Dick,
que é um primor de estrutura e construção literária e, no entanto, em certos
momentos, consegue ser soporífero. Enquanto isso, vou fazendo leituras mais
leves ou até mais profundas, desde graphic
novels e romances policiais até os clássicos da filosofia oriental, com os
quais me identifico profundamente.
Na verdade, leio de tudo. Poder
ler textos em outros idiomas ajuda muito também. Penso que devemos estar sempre
abertos ao aprendizado, que é algo infinito. Por pior que um livro seja, sempre
aprendo algo com ele. Evidentemente tenho consciência da qualidade ou não do
texto que estou lendo. Mas sempre me coloco como aprendiz. Além disso, sou
fascinado por histórias. Elas exercem uma atração irresistível. A aventura
humana é algo único. Sou um leitor compulsivo, bibliófilo, bibliômano. Minha
casa está soterrada por livros.
CC: Algum livro
mudou sua maneira de ver e pensar o mundo? Você acredita que isso seja
possível?
Cleber Pacheco: Sim, alguns livros foram e continuam sendo
emblemáticos para mim. Sem dúvida, um deles é o primeiro que li de Clarice
Lispector: Perto do Coração Selvagem.
Eu tinha dezessete anos. Foi um
choque e uma revelação. Um impacto decisivo. Aquilo era eu. Identifiquei-me por
completo. Era como se enfim tivesse encontrado minha alma gêmea. Meu modo de
perceber a realidade estava ali. Foi um alívio saber que existia mais alguém
assim no mundo. Eu não estava mais só. Tratei de ler os outros livros dela, sempre
com igual encantamento.
Ainda antes disso (sempre fui
precoce nas leituras) descobri Em Busca
do Tempo Perdido de Marcel Proust. Uma das mais extraordinárias experiências
literárias que já tive. Tudo está ali. Trata-se de uma obra única e
inigualável, completa, de perfeita arquitetura literária. Poucos autores
conseguem tal grau de excelência. Hoje, infelizmente, deve ser conhecido apenas
por estudiosos e alguns admiradores. Uma lástima.
Destaco ainda a Divina Comédia de Dante Alighieri, sem
dúvida um dos maiores textos poéticos de todos os tempos. A poesia no seu mais
alto grau de excelência, a meu ver. Inspirado nele, escrevi o romance A Vítima. Na poesia, ainda, Fernando
Pessoa. Impossível ignorá-lo.
Sem dúvida, Jorge Luis Borges
também e seu fascínio por livros, é claro, até mesmo os imaginários e civilizações
antigas, outros povos e culturas, outros mundos, os sonhos, a sua capacidade de
criar uma realidade profundamente rica e mágica. Muito além de um exercício de
imaginação, uma compreensão outra do real. É a busca por estas outras
realidades que me atrai no ato de ler e escrever. Pois é aí que efetuamos
descobertas e atingimos inusitadas e originais percepções e revelações, expandindo
a nossa consciência. O Aleph é obra-prima.
Não poderia deixar de citar As Ondas, de Virginia Woolf. Outra
obra-prima. Li três vezes e pretendo ler novamente.
Poderia citar muitos outros, mas
correria o risco de nunca terminar esta entrevista.
Sem dúvida acredito que um livro
pode mudar nossa maneira de ver o mundo e trazer uma nova compreensão a
respeito da vida. Ler é reinventar-se. Escrever é reinventar o mundo. Por isso
escrevi o livro de poemas Vida Reinventada,
inspirado nos versos de Cecília Meireles “A Vida só é possível reinventada”.
Busquei reescrever a vida com um
olhar genesíaco sobre as coisas, como um Adão que renomeia o mundo, redescobrindo-o,
partindo dos elementos mais básicos, como a pedra, a árvore, a água e assim por
diante. Considero-o um dos meus livros mais importantes.
CC: Qual
personagem da literatura que mais marcou você?
Cleber Pacheco: Sem dúvida, a personagem GH, do livro de Clarice
Lispector A Paixão Segundo GH. Não se tratou de mera leitura. Vivi
cada linha, cada palavra daquela experiência terrível e fascinante. Tinha
apenas dezessete anos e conseguia compreender aquilo tudo com a maior clareza.
CC: Qual a
palavra mais bonita da língua portuguesa?
Cleber Pacheco: Saudade.
É, literalmente, intraduzível.
CC: Mafagafo ou
ornitorrinco?
Cleber Pacheco: Ambos. Um estranho no ninho. Estrangeiro aqui, como
em toda parte, como diria Fernando Pessoa.
CC: Qual o
sentido da vida?
Cleber Pacheco: Aprender, evoluir infinitamente. Mergulhar no
insondável Mistério, explorar o desconhecido e de lá retornar, indicando aos
demais que a Vida é mágica. Alguns desses ousados conseguiram realizar tal
proeza, cada um na sua área: nas letras, artes, ciências, filosofia e espiritualidade.
Graças a eles, nossos horizontes se abriram e muitas transformações ocorreram. Eles
nos deixaram um legado e a seguinte deixa: agora é a sua vez. Você também pode.
Faça. É isso que realmente me interessa. Está muito além do intelectualismo. É
uma experiência vivida de si mesmo. É a exploração dos limites do conhecimento,
da sabedoria, da consciência. E é isso que eu quero e faço. Tem um preço
altíssimo: raros são capazes de compreendê-lo. Você é visto como louco, como
ameaça. Estou pagando o preço a cada minuto. E, ainda assim, vale a pena.
CC: E o Brasil?
Cleber Pacheco: Percebo que teve diversos avanços. Mas precisa
melhorar muitíssimo ainda. Creio que o Brasil pode trazer um outro paradigma
para o nosso planeta. No entanto, ainda tem de amadurecer, tornar-se adulto.
CC: Quem você ainda não leu, e que gostaria de ler?
Cleber Pacheco: Alguns mestres indianos a que ainda não tive
acesso. No Ocidente há uma prepotência de ainda achar que tudo foi inventado
aqui. Esta idéia é difundida vulgarmente nos estabelecimentos de ensino. Até
mesmo muitos intelectuais adotam uma perspectiva tão equivocada.
Vou citar um exemplo: a filosofia
grega está longe de ser o início de tudo. Os pré-socráticos foram influenciados pela filosofia indiana. Depois houve uma virada
e uma mudança de perspectiva. Na Índia antiga, não havia separação entre
ciência, filosofia, religião e arte. A filosofia era o produto de profunda
introspecção, meditação e uma vivência. Já no Ocidente, ela passou, muitas
vezes, a ser mera especulação, exercício de retórica, intelectualismo vazio. Resultado:
perdeu enormemente sua importância. E, no entanto, precisamos dela, pois é, de
fato, fundamental.
CC: Quem você não
leu e nem vai ler
Cleber Pacheco: Aí
é que está: caiu na minha mão, leio.
CC: Você se arrependeu de ler o quê?
Cleber Pacheco: Nada. Mesmo o pior tem algo a ensinar. Nem que seja
o seguinte: se quiser ser um escritor de verdade, nunca escreva desta maneira.
CC: Você tem fome de quê?
Cleber Pacheco: De um mundo melhor. De que as pessoas consigam
atingir um grau mais elevado de consciência. Só assim esta melhora poderá se
concretizar. As mudanças são internas. Nenhuma revolução, nenhum partido
político, nenhum governo, assistência social, nenhuma religião conseguirá realizar
o que só o autoconhecimento é capaz de proporcionar.
CC: Você é do tipo que coloca lenha na fogueira, ou corre para
pegar um balde com água?
Cleber Pacheco: Às vezes é preciso colocar lenha na fogueira. Às
vezes é preciso pegar o balde. Depende do momento.
CC: Como você
gostaria de morrer?
Cleber Pacheco: Com
a maior naturalidade.
CC: O que você
gostaria de ter falado e que eu não perguntei?
Cleber Pacheco: Ignorância
é a pior doença da humanidade.
CC: Cleber
Pacheco por Cleber Pacheco.
Cleber Pacheco: Um
explorador do desconhecido.
Cleber Pacheco integra, juntamente com Ádlei Duarte de Carvalho,
Fal Azevedo e este entrevistador, o Grupo de Escritores O Bodoque.
Fal Azevedo e este entrevistador, o Grupo de Escritores O Bodoque.
A entrevista foi concedida por e-mail, em fevereiro de 2012.
Contato com o entrevistado: cleberjpacheco@gmail.com
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
terça-feira, 31 de janeiro de 2012
domingo, 29 de janeiro de 2012
O CICLISTA
Imagem: Iberê Camargo
As hortênsias
com seus galhos arcados
suportam gotas de orvalho
que se estilhaçam à luz do sol
sob meu olhar
apertado
de uma manhã de um domingo qualquer
Viajo
Sou ciclista de um conto de Skarmeta
Cansado
paro
– pra morrer –
agora
sou ciclista de um quadro de Iberê
Você olha
e não me vê
com um olhar arregalado
esforçado
de uma manhã de uma
segunda qualquer
Do livro O fiel da balança.
quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
Quintana
“... Se alguém me julga ‘genial’, eu penso: está exagerando.
Se alguém não me aceita, me escracha, eu acho que é burro...”
Mario Quintana.
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
Entrevista com Ádlei Duarte de Carvalho
Ádlei Duarte de Carvalho é poeta
e romancista. Mineiro de Belo Horizonte, nascido em 1969, é autor de três
livros: A Travessia (romance), que
tive a honra de prefaciar, Todas as
Palavras de Amor (poesias) e Triângulo
Vermelho (romance), que Cínthia Casagrande e eu tivemos o privilégio de editar. Ádlei publica na internet (no blog Verso e Reverso).
CC: Você passou a infância no interior de Minas, em João Monlevade, né? Fale sobre.
Ádlei Duarte de Carvalho: Tive a sorte de uma infância feliz.
Primogênito, cresci cercado pelo carinho, amor e atenção dos meus pais e
irmãos. Afora isso, as cidades do interior são boas para os pirralhos. A
sensação de segurança dos pais permite maior liberdade aos filhos,
ensejando-lhes as mais diversas travessuras. Tal foi o que se deu comigo.
Gozei, na infância, de tanta liberdade quanto se poderia dar a um menino na
década de 70. De outro lado, sempre fui um garoto responsável. Fazia o dever de
casa antes de ganhar a rua. Todavia, nunca abri mão das peraltices próprias da
meninice.
CC: Quando você
se tornou leitor? E quando se tornou escritor?
Ádlei Duarte de Carvalho: Comecei a ler ainda muito novo. Meu pai
lecionou várias matérias, mas se dedicou mais à Língua e Literatura Brasileira.
Recebia muitos livros de editoras e, por essa razão, havia sempre algo novo
para ler em nossa casa. Creio que, aos dez ou onze anos, eu já havia lido toda
a Coleção Vaga-Lume e outras obras mais como, por exemplo, O Diário de Dany,
de Michel Quoist, e O Pequeno Príncipe, do Exupéry. Não obstante isso, o meu interesse mais incisivo pela
literatura, naquela época, recaiu sobre a poesia. Eu tinha oito anos quando meu
pai me deu para ler o poema Meus oito anos, do Casimiro de Abreu. Gostei
tanto que decorei. Certa ocasião, despertei no meio da noite e tomei o rumo da
sala, onde meus pais recebiam amigos. Não me recordo bem o porquê, mas acabei
recitando o poema inteiro e, enquanto o fazia, notei que os olhos dos meus pais
se enchiam de luz. Daí por diante, passei a buscar outros versos para ler,
decorar e recitar. Cerca de um ano depois, decidi escrever meus próprios
versinhos, que tratavam, claro, das coisas simples da infância, mas atraíam a
atenção dos meus pais, avós, tios, professores... Desde aquela época, nunca
parei de escrever. Na adolescência, sempre me convocavam para redigir algo
sobre datas comemorativas, pessoas, símbolos da Pátria e coisas do gênero. Mais
tarde, passei a publicar crônicas e contos em uma revista de João Monlevade,
denominada Agenda Cultural, afora as poesias e textos para teatro.
CC: Qual o papel
da internet em sua Literatura? Fale um pouco sobre seu blog.
Ádlei Duarte de Carvalho: A internet é hoje muito importante para a
divulgação de trabalhos literários, além de permitir um saudável intercâmbio
entre escritores. Conheci muitos através das suas publicações na rede e,
igualmente, tornei-me conhecido deles e de outros que me leem. Ainda sou
apaixonado pela obra impressa, pelo papel, mas não há como negar a importância
da internet, hoje, para o tráfego de literatura. Afora isso, claro, a internet
é uma boa fonte de pesquisas e, como sou também romancista, muitas vezes busco
nela os dados necessários àquilo em que estou trabalhando.
Meu blog nasceu de uma
necessidade de mostrar o meu trabalho. Creio que todo artista sofre de
exibicionismo em maior ou menor grau. Isso é natural e necessário à arte.
Ninguém pinta, esculpe, compõe uma canção, ensaia uma peça de teatro ou escreve
apenas para si mesmo. Chega um momento em que a arte pede para sair de dentro
do artista porque, do contrário, não sobreviverá. O blog é mais voltado para a
poesia, porque é mais facilmente publicável por esse meio, mas contém também
informações sobre meus romances e sobre os trabalhos de outros escritores que
admiro.
CC: - Qual sua
relação com o mercado editorial?
Ádlei Duarte de Carvalho: Vejo o mercado editorial brasileiro
dividido hoje em dois segmentos bastante claros: o primeiro é formado pelas
chamadas grandes editoras, aquelas que recebem a obra, revisam (nem sempre
muito bem), diagramam, elaboram a capa, publicam, distribuem e adotam ações de
marketing voltadas para as suas publicações. A outra parte do mercado, que vem
crescendo visivelmente nos últimos anos, é formada por editoras de pequeno a
médio porte, ou por grupos de gráficas que publicam obras literárias mediante
pagamento do custo pelo autor, ou até mesmo gratuitamente, com venda sob
demanda. Vejo problemas em ambos os segmentos. É perceptível que as editoras
incluídas no primeiro grupo têm crescentemente abandonado a literatura criativa
– aquela nascida do imaginário do artista – para se dedicarem mais à publicação
de coisas que, segundo julgam, lhes garantirão retorno financeiro mais rápido,
como biografias, ensaios jornalísticos, livros de culinária, transcrições de
filmes de sucesso no cinema, etc. Quando decidem pela publicação de um romance,
por exemplo, será sempre uma obra já com alguma garantia de sucesso de
vendagem, não pela sua qualidade intrínseca, mas, sobretudo, pela notoriedade
do autor ou por sua exposição na mídia. Nesse cenário, apresentadores de TV,
atores e compositores já consagrados, jornalistas famosos e outros que, de
algum modo, conseguiram exposição midiática são entendidos como publicáveis.
Não quero dizer, com isto, que obras vindas dessas fontes sejam ruins, mas que,
mesmo não sendo boas, serão publicadas.
Do mesmo modo, a outra parcela do
mercado editorial – aquela formada pelas editoras menores – é ainda muito
falha, embora seja a alternativa mais viável aos escritores não midiáticos.
O grande problema das editoras desse grupo é que, quase sempre, fazem apenas o
trabalho gráfico e alguma pequena divulgação. Não se preocupam muito com o
conteúdo da obra enquanto criação artística, tampouco com a qualidade da
escrita. Por isso, acabam publicando muito lixo, comprometendo até mesmo a
imagem dos bons autores que têm por clientes. É uma proposta interessante – na
medida em que abre portas a um grande contingente de autores que, de outro
modo, não seriam publicados –, mas pode ser melhorada.
Percebo que o mercado editorial
brasileiro padece de uma preguiça imensa de buscar novos escritores de talento.
Os grandes editores querem os já consagrados ou, pelo menos, aqueles que tenham
um nome atraente. Os pequenos e médios editores abdicam de tudo isso, inclusive
da qualidade. Esse comportamento do mundo editorial conduz a um empobrecimento
gradual da literatura brasileira, com natural enfraquecimento da própria
língua. Não é por acaso que, hoje, uma boa parcela da nossa população adolescente
não sabe escrever corretamente uma palavra de três letras.
CC: É possível
definir sua Literatura em apenas uma palavra?
Ádlei Duarte de
Carvalho: Alma.
CC: Fale um pouco
sobre Triângulo Vermelho, seu livro
mais recente.
Ádlei Duarte de Carvalho: Toda obra artística nasce da inquietação,
não é? Um escultor, por exemplo, olha a pedra e algo lhe revolve o espírito,
instigando-o a libertar de dentro dela a figura aprisionada.
Triângulo Vermelho surgiu
de uma inquietação oriunda da minha própria ignorância. Certa ocasião notei
quanto eram superficiais os meus conhecimentos sobre a transferência da Capital
Mineira de Ouro Preto para Belo Horizonte, cidade planejada e construída para
esse fim. Os motivos desse evento, os seus impactos e muitos outros aspectos me
eram absolutamente incógnitos, assim como deveriam ser para grande parte do
povo mineiro e brasileiro.
Decidi então escrever um romance
ficcional cuja trama se desenvolvesse exatamente nesse cenário real: as Minas
Gerais dos últimos anos do Século XIX. Por essa razão, quis inserir no livro um
grande número de notas de rodapé que, embora prescindíveis para o romance em
si, são importantes enquanto informações históricas, geográficas e sociais. Meu
desejo era de trazer à luz uma obra que não apenas proporcionasse
entretenimento, mas, também, conhecimento.
A trama começa em uma fazenda da
região mineira do Médio Piracicaba, depois se transfere para Belo Horizonte,
então em construção. A pesquisa histórica foi feita pela Lilian Mari Santana de
Carvalho, a revisão e a diagramação são do escritor Cláudio B. Carlos
(conhece?) e a capa é da Cínthia Casagrande.
CC: Cláudio B.
Carlos? Conheço de vista. Ele mora dentro do meu espelho (risos). E agora que o
livro foi publicado, como você se sente?
Ádlei Duarte de Carvalho: Estou feliz com o resultado final, sobretudo pelo retorno que tenho recebido das pessoas que leram ou que estão lendo o livro.
Ádlei Duarte de Carvalho: Estou feliz com o resultado final, sobretudo pelo retorno que tenho recebido das pessoas que leram ou que estão lendo o livro.
CC: Analisando
sua obra, hoje, você mudaria alguma coisa?
Ádlei Duarte de Carvalho: Aprendi a me resignar com as minhas
criações ou, melhor, com as minhas limitações. Chega um ponto em que a gente
tem que dar um basta e publicar porque, do contrário, serão intermináveis as
alterações (não estou falando aqui das revisões, que têm que ser realizadas, a
meu ver, quantas vezes forem necessárias). Sempre queremos mudar algo daquilo
que fizemos. Carregamos involuntariamente esse sentimento de que poderíamos ter
feito melhor. Isso é bom para a nossa evolução, enquanto artistas. Entretanto,
é preciso contextualizar cada livro. Se eu tomasse para reler, por exemplo, A
Travessia, meu primeiro romance, cujo texto foi escrito em 1996, é óbvio
que encontraria ainda nele muita coisa que eu mudaria. Sou hoje mais maduro,
inclusive artisticamente, do que há 16 anos. Nada obstante, vejo aquele livro
como um registro da minha literatura naquele momento da minha existência e, sob
esse enfoque, acho que não seria bom mudar qualquer vírgula. Pretendo um dia
olhar toda a minha criação e perceber nela algum traço evolutivo, o que não
seria possível se eu mudasse indefinidamente o que já foi feito.
CC: Você se
considera essencialmente poeta, ou romancista?
Ádlei Duarte de Carvalho: Isso é um pouco complicado. Gosto de dar
aos meus romances um toque de poesia. Costumo dizer que escrevo poesia por
necessidade e romance por prazer. Acho, entretanto, que na raiz da minha
literatura está a poesia. Por isso, poderia dizer que sou poeta em essência,
embora minha prosa seja melhor que minha poesia.
CC: Você vive em Belo Horizonte há muito tempo. Como é a cena
literária em BH?
Ádlei Duarte de Carvalho: Belo Horizonte é um celeiro de bons
escritores. Sempre foi. No entanto, sinto entre nós um distanciamento tão
perturbador quanto inoperante. Não nos unimos, não nos organizamos e, por isso,
não alavancamos grandes projetos para a nossa literatura. Hoje, por exemplo, me
relaciono muito mais com escritores de outros Estados (São Paulo, Rio Grande do
Sul, Ceará, Paraíba, Distrito Federal, etc.), do que com os da minha cidade.
Acho que uma aproximação maior entre os escritores poderia impulsionar a
criação e a exposição da literatura belo-horizontina.
CC: O que você
está lendo no momento?
Ádlei Duarte de Carvalho: No momento leio As esquisitices do
óbvio, bela obra que me foi enviada pelo autor Manuel Soares Bulcão Neto, na qual reúne alguns de seus ensaios
filosóficos.
CC: Qual personagem da literatura que mais marcou você?
Ádlei Duarte de Carvalho: Jean
Valjean (Os Miseráveis, de
Victor Hugo) é, para mim, sem dúvida alguma, o mais belo personagem fictício da
literatura mundial.
CC: E o Brasil?
Ádlei Duarte de Carvalho: O Brasil é um gigante-menino que começa a
adolescer. São visíveis as nossas conquistas dos últimos anos, inclusive pela posição
de destaque que temos alcançado no cenário mundial em várias vertentes
(econômica, política, artística, etc.), indicando-nos que estamos em rota de
evolução. Todavia, ainda há muito a se fazer. Precisamos educar melhor nossas
crianças e jovens, combater a violência, a miséria, a corrupção e outras
mazelas que impedem o nosso País de crescer com robustez e os nossos cidadãos
de viverem em plenitude todas as suas potencialidades, que são muitas.
CC: O que você
pretende?
Ádlei Duarte de Carvalho: Viver o suficiente para ver o meu País
vencendo as suas mazelas e garantindo o bem-estar social.
CC: Qual a
palavra mais bonita da língua portuguesa?
Ádlei Duarte de
Carvalho: Amor.
CC: Para que serve tudo isso?
Ádlei Duarte de Carvalho: Tudo o que existe tem alguma finalidade
útil. As estrelas, por exemplo, servem para muita coisa mais importante do que
agradar aos nossos olhos. Dentre muitas outras funções, respondem pelo
equilíbrio cósmico e pela irradiação do calor e da energia que sustentam as mais
variadas formas de vida dos planetas que as orbitam. Igualmente, as bactérias
são fundamentais à existência. Desempenham, por exemplo, importante papel no
Ciclo do Nitrogênio, elemento estrutural dos aminoácidos que compõem os nossos
corpos físicos. O mais incrível é que só o homem não consegue encontrar o seu
papel dentro do fenômeno existencial, talvez por sua mania de complicar tudo o
que é simples e óbvio. Tudo serve a todos. A existência é uma relação de troca
ininterrupta e eterna de energias, fluidos e matérias entre tudo o que existe.
Cada um de nos é um átomo do todo. Por isso é que não posso crer que tudo tenha
surgido do nada por obra do acaso.
CC: Sua biblioteca está em chamas: qual livro você tentaria salvar
primeiro? Por quê?
Ádlei Duarte de Carvalho: Certa feita, indagado sobre algo
semelhante, Gandhi disse que, caso se queimassem todos os livros da Terra e
apenas sobrasse o Sermão do Monte, de Jesus Cristo, a humanidade ainda assim
teria o maior código de moral e ética de que pudesse necessitar. Num incêndio
daquela magnitude, provavelmente eu salvaria o Sermão do Monte. Como,
entretanto, a sua pergunta se restringiu à minha biblioteca, eu tentaria salvar
primeiro o livro Por uma piscina ao lado, novelinha de Alberto Barroca,
escritor mineiro já falecido, por ser, talvez, a única obra da minha coleção
que eu jamais conseguiria recuperar.
CC: Literatura para viver... De quê?
Ádlei Duarte de Carvalho: Salvo casos excepcionais, ninguém vive de
literatura. No Brasil, isso não dá dinheiro, a menos que você decida revelar as
suas aventuras sexuais – e que elas sejam de impressionar –, ou que, de algum
modo, explore o mundo metafísico. Todavia, a literatura é fundamental para a
formação intelectual, a expansão do imaginário, o desenvolvimento da
sensibilidade. Sob esse prisma, creio que é preciso literatura para viver.
CC: Dos escritores de hoje, quais são seus preferidos?
Ádlei Duarte de Carvalho: Ah, são muitos. Considerando de hoje os
que estão vivos (até onde eu sei, hehehehe), citarei apenas alguns exemplos,
tomados por ordem alfabética: Adélia Prado, Affonso Romano, Ana Miranda,
Ariano, Carlos Lúcio Gontijo, Chico Buarque, Cláudio B. Carlos, Cleber Pacheco,
Fal Azevedo, Ferreira Gullar, Leonardo Brasiliense, Luís Fernando Veríssimo,
Nilto Maciel, Rubem Alves, Rubem Fonseca e muitos outros. Difícil lembrar todos
os nomes e, nesses casos, corremos sempre o risco de cometermos injustiças. Que
me perdoem, então, os que se sabem queridos por mim e não foram aqui citados.
Recentemente conheci a literatura da jovem Ângela Calou e do Poeta de Meia-Tigela, amigos cearenses. Fiquei encantado!
CC: Agradeço a deferência (risos). O que você gostaria de ter
falado e que eu não perguntei?
Ádlei Duarte de Carvalho: Acho que suas perguntas exploraram bem a
minha alma. Ainda assim, eu gostaria muito de poder lhe ter respondido algo do
tipo: sim, você pode depositar aqueles R$ 10.000.000,00 na minha seguinte
conta: xxxxx (hehehe).
CC: Ádlei Duarte de Carvalho por Ádlei Duarte de Carvalho.
Ádlei Duarte de Carvalho: Considerando apenas o que de fato
interessa, sou um homem feliz. Feliz pela família que tenho e pelos muitos
amigos que construí até aqui, feliz por ter conquistado o que me é essencial,
feliz por me reconhecer um ser em evolução e, por isso mesmo, poder carregar os
meus defeitos sem culpa, mas sempre com o firme propósito de me melhorar a cada
dia. Sou um aprendiz!
Ádlei Duarte de Carvalho integra,
juntamente com Cleber Pacheco, Fal Azevedo e este entrevistador,
o Grupo de Escritores O Bodoque.
o Grupo de Escritores O Bodoque.
A entrevista foi concedida por
e-mail, em janeiro de 2012.
Contato com o entrevistado: adleidecarvalho@gmail.com
sábado, 14 de janeiro de 2012
Por que escrevo?
Por que escrevo?
Marcelino Freire
Marcelino Freire
"Na verdade, nunca entendo por que
vivem nos perguntando isso, a todo tempo: ‘por que você escreve’, ‘qual o papel
do escritor’ etc. Sempre estão à cata de uma serventia para o que fazemos.
Serventia tem eletrodoméstico. Ninguém nunca pergunta ao clínico por que ele
clinica, à sinfônica por que ela sinfonica. Sempre digo: o papel do escritor é
higiênico. Sempre digo: eu escrevo porque é a única coisa que não preciso pagar
para fazer. Para todas as outras uso MasterCard, entende? Escrevo porque não
sei pilotar Fórmula 1, é certo. Ou escrevo porque nunca aprendi a jogar bola,
basquete. Ou porque não consigo alpinar de bunda para cima lá nos Andes, sei
lá. Enfim. Escrevo por que não sei responder a questões assim. Saravá!"
Fonte: Tiro de Letra.
quinta-feira, 12 de janeiro de 2012
quarta-feira, 11 de janeiro de 2012
sábado, 7 de janeiro de 2012
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
segunda-feira, 2 de janeiro de 2012
Algumas coisinhas lidas em 2011
Tânia Carvalho
Aracy Balabanian – nunca fui anjo
Leonardo Brasiliense
Whatever
Kiko Ferreira
Musikaligrafia
Andréa Del Fuego
Os Malaquias
Evandro Affonso Ferreira
Minha mãe se matou sem dizer adeus
Edney Silvestre
Se eu fechar os olhos agora
Frei Betto
Aquário Negro
Tânia Carvalho
Betty Faria – rebelde por natureza
José Rezende Jr.
Eu perguntei pro velho se ele queria morrer
(e outras estórias de amor)
Ádlei Duarte de Carvalho
Todas as palavras de amor
Felipe Stefani
Verso para outro sentido
André de Leones
Hoje está um dia morto
Hoje está um dia morto
Enzo Potel
Conto de facas
Conto de facas
Enzo Potel
Cura
Moacyr Scliar
A guerra do Bom Fim
Cura
Moacyr Scliar
A guerra do Bom Fim
Rodrigo Marques
O livro de Marta
Ádlei Duarte de Carvalho
Triângulo Vermelho
Cleber Pacheco
Cartas Imaginárias
Lau Siqueira
Poesia sem pele
Poesia sem pele
Moacyr Scliar
O exército de um homem só
O exército de um homem só
Moacyr Scliar
Uma História Farroupilha
Júlia de Oliveira
Desabafos (Coleção Poetas de Orpheu nº 2)
Desabafos (Coleção Poetas de Orpheu nº 2)
Donizete Galvão
Seixos (Coleção Poetas de Orpheu nº 7)
Seixos (Coleção Poetas de Orpheu nº 7)
Kepa Murua
Poemas (Coleção Poetas de Orpheu nº 1)
Poemas (Coleção Poetas de Orpheu nº 1)
Montse Fornós
Íntimo (Coleção Poetas de Orpheu nº 8)
Helena Faria Monteiro
Desfolhando Lugares (Coleção Poetas de Orpheu nº 5)
Julia Otxoa
Cartas a Mr. Gardener (Coleção Poetas de Orpheu nº 6)
Marilene Caon Pieruccini
Retalhos (Coleção Poetas de Orpheu nº 4)
Retalhos (Coleção Poetas de Orpheu nº 4)
Floriano Martins
Extravio de noites (Coleção Poetas de Orpheu nº 3)
Tránsito Villarino
Penumbra (Coleção Poetas de Orpheu nº 10)
António Cardoso Pinto
Reflexos (Coleção Poetas de Orpheu nº 9)
Aricy Curvello
50 poemas escolhidos pelo autor
Marta Lopez-Luances
Os desterrados (Coleção Poetas de Orpheu nº 11)
Adriana Ebert Cerato
Teatro das letras (Coleção Poetas de Orpheu nº 12)
Roberto Denser
O tipo de merda que acontece
Guimarães Rosa
A terceira margem do rio
Juan Rulfo
Pedro Páramo
Algermon Blackwood
Os salgueiros
Allan Pitz
Estação jugular
Bruno Brum
Mínima Idéia
Teodoro Balaven
Silêncio Branco
Nilto Maciel
Contos Reunidos
Volume 1
Cleber Pacheco
Vanessa (releitura)
Teodoro Balaven
Bananas podres
W. J. Solha
Relato de Prócula
Cleber Pacheco
Preto & Branco (releitura)
Bárbara Lia
Tem um pássaro cantando dentro de mim
Jorge Salomão
O olho do tempo (releitura)
Pedro Maciel
Como deixei de ser Deus (releitura)
Como deixei de ser Deus (releitura)
Laury Maciel
Quarto de pensão (releitura)
Geraldo Lima
Tesselário
Manoel de Barros
Livro sobre nada (releitura)
Mara Paulina Arruda
Disputas antigas e outras citações
Clarice Lispector
Perto do coração selvagem
Ângela Calou
Eu tenho medo de Górki
Geraldo Lima
Um
Hilda Hilst
Contos d’escárnio (releitura)
Carta Testamento de Getúlio Vargas (releitura)
Fernando Pessoa
O pastor amoroso
Antigo Testamento
Lamentações de Jeremias
Machado de Assis
Suje-se gordo!
Clarice Lispector
Água viva
Trechos de cartas de Mário de Andrade e de Carlos
Drummond de Andrade
Machado de Assis
A Igreja do Diabo
quarta-feira, 28 de dezembro de 2011
DIA DAS MÃES
Imagem: Cândido Portinari
Era um chão de terra batida. O vento enovelava o cisco. Havia um choro comprido: quatro ou cinco pessoas. E um cachorro, a um canto, dormitando. Maria enterrava o filho. Era o segundo domingo de maio.
Do livro Narrativas Mínimas.
segunda-feira, 12 de dezembro de 2011
Sobre influências & outras coisinhas
Eu não veria a Arte do modo como vejo, nem escreveria como
eu escrevo, se não tivesse sofrido a indelével
influência de Bebeto Alves. Quando eu conheci a Música do Bebeto (que para mim
é também Literatura), na minha adolescência (em Restinga Seca), descobri que
minha inquietação tinha nome: Poesia. E nunca mais fui o mesmo. Ainda bem.
Gracias, Bebeto!
domingo, 11 de dezembro de 2011
TORPOR
Eu não queria ouvir o que ela tinha
para falar. Como num transe, eu apenas via o mexer dos lábios murchos da velha,
sua dentadura frouxa, e o bailar de sua língua saburrosa. Tudo sem som. Eu não
escutava nadica de nada. O buço da velha lhe sombreava o lábio, e se misturava
com os pelos que lhe saíam pelas ventas. Vez em quando algum perdigoto da
bruaca me atingia o rosto. Eu permanecia imóvel. Eu não queria ouvir nada.
Nadica de nada. No pátio um dos piás chutou a pelota, que entrou pela porta da
cozinha, bateu no pé do fogão a lenha, depois no pé da mesa, espantou o gato
que passava preguiçoso, veio girando, girando, girando, até que esbarrou em
mim, me tirando do torpor. Lá fora começava um chuvisqueiro finíssimo, parecido
com neve. E eu que não queria ouvir o que ela tinha para falar escutei a última
frase do falatório da velha espanhola: O velho está morto.
Do livro O palhaço do circo sem graça (a sair em 2012)
quinta-feira, 24 de novembro de 2011
O pintor dos girassóis
Recebi do amigo Cleber Pacheco um exemplar do Jornal Linguagem Viva.
O Jornal traz um artigo do Cleber sobre o poema “O pintor dos girassóis”, de Aricy Curvello.
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quarta-feira, 23 de novembro de 2011
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