Seguidores

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Entrevista com Cleber Pacheco


Cleber Pacheco é gaúcho, nascido em Esmeralda, em 1965. Mestre em Literatura Brasileira e Especialista em Filosofia. É poeta, contista, romancista, dramaturgo, crítico literário e artista plástico. Tem vários livros publicados. Na área do Teatro ganhou o Prêmio Qorpo Santo, em 1996, com a peça Intimidades. Publica na internet (no blog Translittera).   

CC: Será que me esqueci de alguma coisa? Quantos livros são ao todo? Alguns deles tivemos (Cínthia e eu) o privilégio de editar.
Cleber Pacheco: Tem o meu trabalho na área de Terapias Complementares, chamadas também de Alternativas. É o que faço diariamente, não apenas para sobrevivência, mas como missão de vida. Acredito nisso. Há uma interação profunda com as pessoas, um compartilhamento que vai muito além do comum. Tenho aprendido imensamente e agradeço todos os dias pela oportunidade de realizar tal tarefa. É um privilégio.
Quanto aos livros, são dez publicados individualmente e participação em vinte e cinco antologias.


 
CC: Você vive em Esmeralda. Sempre viveu aí? Como é a vida, para uma mente em constante ebulição, como a sua, numa cidadezinha com pouco mais de 3.000 habitantes?
Cleber Pacheco: Estive fora por alguns anos. Morei em Passo Fundo, onde fiz o curso de Letras e Filosofia e, posteriormente, para lecionar na Universidade como professor de Literatura do RS, Brasileira e Portuguesa. Depois fiquei dois anos e meio em Porto Alegre para fazer o curso de Mestrado em Literatura Brasileira.
Estou ainda aqui por acreditar no meu trabalho como uma missão que, por ora, precisa ser cumprida neste local.
Não tenho nenhum receio de falar que é um ambiente extremamente hostil e de total indigência intelectual e cultural. Não recebo apoio algum. Ao contrário, sofro perseguição política há uns dez anos por ter criticado a administração municipal no jornal da cidade. Sou boicotado até hoje. É como na época da ditadura. Cheguei a ser seguido em viagens e espionado. Minha casa, não raro, é cercada por pessoas. A estratégia é realizar uma total desmoralização para inviabilizar o meu trabalho por completo por meio da calúnia, da difamação, da intimidação. Não há limites para isso, nada é suficientemente baixo que eles não sejam capazes de fazer. Vale tudo. É um caso de mau-caratismo explícito. Onde falta inteligência, não há argumentos, mas bestialidade pura e simples. Enquanto isso, na cidade, a bandalheira corre solta. É avidya, ou seja, ignorância em sua plenitude. Para lidar com isso, é preciso vidya, conhecimento e viveka, discernimento. A estupidez chegou a um nível tão baixo, que só resta mesmo sentir compaixão. Como disse Buda: “O sol do meio-dia não é para as folhas tenras”.
Continuo realizando meu trabalho terapêutico e já atendi pessoas de outras cidades, estados e até de outro país. Continuo escrevendo e publicando livros. Acredito no que faço. Vim ao mundo para realizar isto, para acrescentar algo, para contribuir. Não estou aqui a passeio. Nada vai me fazer desistir.


 
CC: E sua infância, como foi?
Cleber Pacheco: Já era dedicada aos livros. Tinha verdadeiro fascínio por eles. Saí do jardim da infância porque desejava ansiosamente aprender a ler e consegui entrar na primeira série na metade do ano letivo. Já conhecia as letras e, por incrível que pareça, dentro de uma semana estava lendo e escrevendo. Eu sabia exatamente o que queria.


 
CC: Quando você teve o primeiro contato com a literatura? E quando você se descobriu escritor?
Cleber Pacheco: Ao lado da minha casa, meu avô materno tinha uma loja que vendia de tudo, incluindo revistas e livros. Depois que aprendi a ler, eu passava as tardes ali, sentado num canto, lendo, totalmente mergulhado naquele fascinante mundo. Ele, carinhosamente, permitia. Jamais vou esquecer disso.
Por volta de cinco, seis anos, ganhei da minha mãe uma fantástica coleção de histórias clássicas para crianças, com ilustrações deslumbrantes. Guardo até hoje. Tenho consciência de que aquele universo mágico tem influência em minha escrita. E despertou-me o gosto pelo desenho e pela pintura.
Na verdade, eu não me descobri escritor. Já nasci escritor. Sempre soube que eu era escritor. Pode parecer incomum, mas é a mais pura verdade.


 
CC: Somos amigos há bastante tempo (desde 2000, eu acho). Lembro-me que trocávamos correspondências. Eu na minha seca Restinga, aí no RS (hoje eu vivo em Belo Horizonte, nas Minas Gerais), e você na sua Esmeralda. Você ainda guarda as cartas que eu lhe enviei? Eu guardo as que você me enviou (risos).
Cleber Pacheco: Sim, eu tenho, sem dúvida. Lembro perfeitamente de quando recebi a primeira carta e de ter ficado pensando quem seria aquela criatura e como havia me descoberto aqui, onde o diabo perdeu as botas. Li e fiquei impressionado. Tratei de responder e aí, deu no que deu. Para minha sorte, somos amigos até hoje. E, graças a esta parceria, diversos livros meus vieram à tona. Uma amizade assim não tem preço.

CC: Uma explicação se faz necessária sobre as tais cartas: eu estava lendo uma “antologia poética”, que não sei como foi parar em minhas mãos (não me recordo), quando me deparei com um poema seu. O seu poema salvou o livro (risos). Era, de longe, o melhor poema do livro. E digo mais: você era O Poeta do livro. Não sou adepto das antologias, mas aquela caiu em minhas mãos... O seu endereço estava lá no livro, e resolvi escrever-lhe uma carta: dei o primeiro passo. Lembro-me que escrevi algo como “você é bom demais para fazer parte dessas antologias” (risos).
Continuando: Saci ou Mosqueteiro?
Cleber Pacheco: Saci, porque é um ser meio mágico, tão brasileiro, sempre aprontando das suas. Mosqueteiro também, porque Richelieu não dorme em serviço e continua querendo, em sua megalomania e prepotência, ser o dono do mundo. O falso poder doentio.


CC: O que você está lendo no momento?
Cleber Pacheco: Eu costumo ler vários livros ao mesmo tempo. Então ainda estou às voltas com o Moby Dick, que é um primor de estrutura e construção literária e, no entanto, em certos momentos, consegue ser soporífero. Enquanto isso, vou fazendo leituras mais leves ou até mais profundas, desde graphic novels e romances policiais até os clássicos da filosofia oriental, com os quais me identifico profundamente.
Na verdade, leio de tudo. Poder ler textos em outros idiomas ajuda muito também. Penso que devemos estar sempre abertos ao aprendizado, que é algo infinito. Por pior que um livro seja, sempre aprendo algo com ele. Evidentemente tenho consciência da qualidade ou não do texto que estou lendo. Mas sempre me coloco como aprendiz. Além disso, sou fascinado por histórias. Elas exercem uma atração irresistível. A aventura humana é algo único. Sou um leitor compulsivo, bibliófilo, bibliômano. Minha casa está soterrada por livros.


CC: Algum livro mudou sua maneira de ver e pensar o mundo? Você acredita que isso seja possível?
Cleber Pacheco: Sim, alguns livros foram e continuam sendo emblemáticos para mim. Sem dúvida, um deles é o primeiro que li de Clarice Lispector: Perto do Coração Selvagem. Eu tinha dezessete anos. Foi um choque e uma revelação. Um impacto decisivo. Aquilo era eu. Identifiquei-me por completo. Era como se enfim tivesse encontrado minha alma gêmea. Meu modo de perceber a realidade estava ali. Foi um alívio saber que existia mais alguém assim no mundo. Eu não estava mais só. Tratei de ler os outros livros dela, sempre com igual encantamento.
Ainda antes disso (sempre fui precoce nas leituras) descobri Em Busca do Tempo Perdido de Marcel Proust. Uma das mais extraordinárias experiências literárias que já tive. Tudo está ali. Trata-se de uma obra única e inigualável, completa, de perfeita arquitetura literária. Poucos autores conseguem tal grau de excelência. Hoje, infelizmente, deve ser conhecido apenas por estudiosos e alguns admiradores. Uma lástima.
Destaco ainda a Divina Comédia de Dante Alighieri, sem dúvida um dos maiores textos poéticos de todos os tempos. A poesia no seu mais alto grau de excelência, a meu ver. Inspirado nele, escrevi o romance A Vítima. Na poesia, ainda, Fernando Pessoa. Impossível ignorá-lo.
Sem dúvida, Jorge Luis Borges também e seu fascínio por livros, é claro, até mesmo os imaginários e civilizações antigas, outros povos e culturas, outros mundos, os sonhos, a sua capacidade de criar uma realidade profundamente rica e mágica. Muito além de um exercício de imaginação, uma compreensão outra do real. É a busca por estas outras realidades que me atrai no ato de ler e escrever. Pois é aí que efetuamos descobertas e atingimos inusitadas e originais percepções e revelações, expandindo a nossa consciência. O Aleph é obra-prima.
Não poderia deixar de citar As Ondas, de Virginia Woolf. Outra obra-prima. Li três vezes e pretendo ler novamente.
Poderia citar muitos outros, mas correria o risco de nunca terminar esta entrevista.
Sem dúvida acredito que um livro pode mudar nossa maneira de ver o mundo e trazer uma nova compreensão a respeito da vida. Ler é reinventar-se. Escrever é reinventar o mundo. Por isso escrevi o livro de poemas Vida Reinventada, inspirado nos versos de Cecília Meireles “A Vida só é possível reinventada”.
Busquei reescrever a vida com um olhar genesíaco sobre as coisas, como um Adão que renomeia o mundo, redescobrindo-o, partindo dos elementos mais básicos, como a pedra, a árvore, a água e assim por diante. Considero-o um dos meus livros mais importantes.

 
CC: Qual personagem da literatura que mais marcou você?
Cleber Pacheco: Sem dúvida, a personagem GH, do livro de Clarice Lispector A Paixão Segundo GH. Não se tratou de mera leitura. Vivi cada linha, cada palavra daquela experiência terrível e fascinante. Tinha apenas dezessete anos e conseguia compreender aquilo tudo com a maior clareza.


CC: Qual a palavra mais bonita da língua portuguesa?
Cleber Pacheco: Saudade. É, literalmente, intraduzível.

 

CC: Mafagafo ou ornitorrinco?
Cleber Pacheco: Ambos. Um estranho no ninho. Estrangeiro aqui, como em toda parte, como diria Fernando Pessoa.

 

CC: Qual o sentido da vida?
Cleber Pacheco: Aprender, evoluir infinitamente. Mergulhar no insondável Mistério, explorar o desconhecido e de lá retornar, indicando aos demais que a Vida é mágica. Alguns desses ousados conseguiram realizar tal proeza, cada um na sua área: nas letras, artes, ciências, filosofia e espiritualidade. Graças a eles, nossos horizontes se abriram e muitas transformações ocorreram. Eles nos deixaram um legado e a seguinte deixa: agora é a sua vez. Você também pode. Faça. É isso que realmente me interessa. Está muito além do intelectualismo. É uma experiência vivida de si mesmo. É a exploração dos limites do conhecimento, da sabedoria, da consciência. E é isso que eu quero e faço. Tem um preço altíssimo: raros são capazes de compreendê-lo. Você é visto como louco, como ameaça. Estou pagando o preço a cada minuto. E, ainda assim, vale a pena.

 
CC: E o Brasil?
Cleber Pacheco: Percebo que teve diversos avanços. Mas precisa melhorar muitíssimo ainda. Creio que o Brasil pode trazer um outro paradigma para o nosso planeta. No entanto, ainda tem de amadurecer, tornar-se adulto.

CC: Quem você ainda não leu, e que gostaria de ler?
Cleber Pacheco: Alguns mestres indianos a que ainda não tive acesso. No Ocidente há uma prepotência de ainda achar que tudo foi inventado aqui. Esta idéia é difundida vulgarmente nos estabelecimentos de ensino. Até mesmo muitos intelectuais adotam uma perspectiva tão equivocada.
Vou citar um exemplo: a filosofia grega está longe de ser o início de tudo. Os pré-socráticos foram influenciados pela filosofia indiana. Depois houve uma virada e uma mudança de perspectiva. Na Índia antiga, não havia separação entre ciência, filosofia, religião e arte. A filosofia era o produto de profunda introspecção, meditação e uma vivência. Já no Ocidente, ela passou, muitas vezes, a ser mera especulação, exercício de retórica, intelectualismo vazio. Resultado: perdeu enormemente sua importância. E, no entanto, precisamos dela, pois é, de fato, fundamental.


CC: Quem você não leu e nem vai ler
Cleber Pacheco: Aí é que está: caiu na minha mão, leio.

 
CC: Você se arrependeu de ler o quê?
Cleber Pacheco: Nada. Mesmo o pior tem algo a ensinar. Nem que seja o seguinte: se quiser ser um escritor de verdade, nunca escreva desta maneira.

CC: Você tem fome de quê?
Cleber Pacheco: De um mundo melhor. De que as pessoas consigam atingir um grau mais elevado de consciência. Só assim esta melhora poderá se concretizar. As mudanças são internas. Nenhuma revolução, nenhum partido político, nenhum governo, assistência social, nenhuma religião conseguirá realizar o que só o autoconhecimento é capaz de proporcionar.

 
CC: Você é do tipo que coloca lenha na fogueira, ou corre para pegar um balde com água?
Cleber Pacheco: Às vezes é preciso colocar lenha na fogueira. Às vezes é preciso pegar o balde. Depende do momento.

 
CC: Como você gostaria de morrer?
Cleber Pacheco: Com a maior naturalidade.


CC: O que você gostaria de ter falado e que eu não perguntei?
Cleber Pacheco: Ignorância é a pior doença da humanidade.

CC: Cleber Pacheco por Cleber Pacheco.
Cleber Pacheco: Um explorador do desconhecido.



 



Cleber Pacheco integra, juntamente com Ádlei Duarte de Carvalho,
Fal Azevedo e este entrevistador, o Grupo de Escritores O Bodoque.



 
A entrevista foi concedida por e-mail, em fevereiro de 2012.
Contato com o entrevistado: cleberjpacheco@gmail.com

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

domingo, 29 de janeiro de 2012

O CICLISTA

 Imagem: Iberê Camargo


As hortênsias
com seus galhos arcados
suportam gotas de orvalho
que se estilhaçam à luz do sol
sob meu olhar
apertado
de uma manhã de um domingo qualquer
Viajo
Sou ciclista de um conto de Skarmeta
Cansado
paro
– pra morrer –
agora
sou ciclista de um quadro de Iberê
Você olha
e não me vê
com um olhar arregalado
esforçado
de uma manhã de uma
segunda qualquer




Do livro O fiel da balança.









quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Quintana




“... Se alguém me julga ‘genial’, eu penso: está exagerando. Se alguém não me aceita, me escracha, eu acho que é burro...”




Mario Quintana.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Entrevista com Ádlei Duarte de Carvalho







Ádlei Duarte de Carvalho é poeta e romancista. Mineiro de Belo Horizonte, nascido em 1969, é autor de três livros: A Travessia (romance), que tive a honra de prefaciar, Todas as Palavras de Amor (poesias) e Triângulo Vermelho (romance), que Cínthia Casagrande e eu tivemos o privilégio de editar. Ádlei publica na internet (no blog Verso e Reverso). 



CC: Você passou a infância no interior de Minas, em João Monlevade, né? Fale sobre.
Ádlei Duarte de Carvalho: Tive a sorte de uma infância feliz. Primogênito, cresci cercado pelo carinho, amor e atenção dos meus pais e irmãos. Afora isso, as cidades do interior são boas para os pirralhos. A sensação de segurança dos pais permite maior liberdade aos filhos, ensejando-lhes as mais diversas travessuras. Tal foi o que se deu comigo. Gozei, na infância, de tanta liberdade quanto se poderia dar a um menino na década de 70. De outro lado, sempre fui um garoto responsável. Fazia o dever de casa antes de ganhar a rua. Todavia, nunca abri mão das peraltices próprias da meninice.

  
CC: Quando você se tornou leitor? E quando se tornou escritor?
Ádlei Duarte de Carvalho: Comecei a ler ainda muito novo. Meu pai lecionou várias matérias, mas se dedicou mais à Língua e Literatura Brasileira. Recebia muitos livros de editoras e, por essa razão, havia sempre algo novo para ler em nossa casa. Creio que, aos dez ou onze anos, eu já havia lido toda a Coleção Vaga-Lume e outras obras mais como, por exemplo, O Diário de Dany, de Michel Quoist, e O Pequeno Príncipe, do Exupéry. Não obstante isso, o meu interesse mais incisivo pela literatura, naquela época, recaiu sobre a poesia. Eu tinha oito anos quando meu pai me deu para ler o poema Meus oito anos, do Casimiro de Abreu. Gostei tanto que decorei. Certa ocasião, despertei no meio da noite e tomei o rumo da sala, onde meus pais recebiam amigos. Não me recordo bem o porquê, mas acabei recitando o poema inteiro e, enquanto o fazia, notei que os olhos dos meus pais se enchiam de luz. Daí por diante, passei a buscar outros versos para ler, decorar e recitar. Cerca de um ano depois, decidi escrever meus próprios versinhos, que tratavam, claro, das coisas simples da infância, mas atraíam a atenção dos meus pais, avós, tios, professores... Desde aquela época, nunca parei de escrever. Na adolescência, sempre me convocavam para redigir algo sobre datas comemorativas, pessoas, símbolos da Pátria e coisas do gênero. Mais tarde, passei a publicar crônicas e contos em uma revista de João Monlevade, denominada Agenda Cultural, afora as poesias e textos para teatro.

 
CC: Qual o papel da internet em sua Literatura? Fale um pouco sobre seu blog.
Ádlei Duarte de Carvalho: A internet é hoje muito importante para a divulgação de trabalhos literários, além de permitir um saudável intercâmbio entre escritores. Conheci muitos através das suas publicações na rede e, igualmente, tornei-me conhecido deles e de outros que me leem. Ainda sou apaixonado pela obra impressa, pelo papel, mas não há como negar a importância da internet, hoje, para o tráfego de literatura. Afora isso, claro, a internet é uma boa fonte de pesquisas e, como sou também romancista, muitas vezes busco nela os dados necessários àquilo em que estou trabalhando.
Meu blog nasceu de uma necessidade de mostrar o meu trabalho. Creio que todo artista sofre de exibicionismo em maior ou menor grau. Isso é natural e necessário à arte. Ninguém pinta, esculpe, compõe uma canção, ensaia uma peça de teatro ou escreve apenas para si mesmo. Chega um momento em que a arte pede para sair de dentro do artista porque, do contrário, não sobreviverá. O blog é mais voltado para a poesia, porque é mais facilmente publicável por esse meio, mas contém também informações sobre meus romances e sobre os trabalhos de outros escritores que admiro.

CC: - Qual sua relação com o mercado editorial?
Ádlei Duarte de Carvalho: Vejo o mercado editorial brasileiro dividido hoje em dois segmentos bastante claros: o primeiro é formado pelas chamadas grandes editoras, aquelas que recebem a obra, revisam (nem sempre muito bem), diagramam, elaboram a capa, publicam, distribuem e adotam ações de marketing voltadas para as suas publicações. A outra parte do mercado, que vem crescendo visivelmente nos últimos anos, é formada por editoras de pequeno a médio porte, ou por grupos de gráficas que publicam obras literárias mediante pagamento do custo pelo autor, ou até mesmo gratuitamente, com venda sob demanda. Vejo problemas em ambos os segmentos. É perceptível que as editoras incluídas no primeiro grupo têm crescentemente abandonado a literatura criativa – aquela nascida do imaginário do artista – para se dedicarem mais à publicação de coisas que, segundo julgam, lhes garantirão retorno financeiro mais rápido, como biografias, ensaios jornalísticos, livros de culinária, transcrições de filmes de sucesso no cinema, etc. Quando decidem pela publicação de um romance, por exemplo, será sempre uma obra já com alguma garantia de sucesso de vendagem, não pela sua qualidade intrínseca, mas, sobretudo, pela notoriedade do autor ou por sua exposição na mídia. Nesse cenário, apresentadores de TV, atores e compositores já consagrados, jornalistas famosos e outros que, de algum modo, conseguiram exposição midiática são entendidos como publicáveis. Não quero dizer, com isto, que obras vindas dessas fontes sejam ruins, mas que, mesmo não sendo boas, serão publicadas.
Do mesmo modo, a outra parcela do mercado editorial – aquela formada pelas editoras menores – é ainda muito falha, embora seja a alternativa mais viável aos escritores não midiáticos. O grande problema das editoras desse grupo é que, quase sempre, fazem apenas o trabalho gráfico e alguma pequena divulgação. Não se preocupam muito com o conteúdo da obra enquanto criação artística, tampouco com a qualidade da escrita. Por isso, acabam publicando muito lixo, comprometendo até mesmo a imagem dos bons autores que têm por clientes. É uma proposta interessante – na medida em que abre portas a um grande contingente de autores que, de outro modo, não seriam publicados –, mas pode ser melhorada.
Percebo que o mercado editorial brasileiro padece de uma preguiça imensa de buscar novos escritores de talento. Os grandes editores querem os já consagrados ou, pelo menos, aqueles que tenham um nome atraente. Os pequenos e médios editores abdicam de tudo isso, inclusive da qualidade. Esse comportamento do mundo editorial conduz a um empobrecimento gradual da literatura brasileira, com natural enfraquecimento da própria língua. Não é por acaso que, hoje, uma boa parcela da nossa população adolescente não sabe escrever corretamente uma palavra de três letras.


CC: É possível definir sua Literatura em apenas uma palavra?
Ádlei Duarte de Carvalho: Alma.

 
CC: Fale um pouco sobre Triângulo Vermelho, seu livro mais recente.
Ádlei Duarte de Carvalho: Toda obra artística nasce da inquietação, não é? Um escultor, por exemplo, olha a pedra e algo lhe revolve o espírito, instigando-o a libertar de dentro dela a figura aprisionada.
Triângulo Vermelho surgiu de uma inquietação oriunda da minha própria ignorância. Certa ocasião notei quanto eram superficiais os meus conhecimentos sobre a transferência da Capital Mineira de Ouro Preto para Belo Horizonte, cidade planejada e construída para esse fim. Os motivos desse evento, os seus impactos e muitos outros aspectos me eram absolutamente incógnitos, assim como deveriam ser para grande parte do povo mineiro e brasileiro.
Decidi então escrever um romance ficcional cuja trama se desenvolvesse exatamente nesse cenário real: as Minas Gerais dos últimos anos do Século XIX. Por essa razão, quis inserir no livro um grande número de notas de rodapé que, embora prescindíveis para o romance em si, são importantes enquanto informações históricas, geográficas e sociais. Meu desejo era de trazer à luz uma obra que não apenas proporcionasse entretenimento, mas, também, conhecimento.
A trama começa em uma fazenda da região mineira do Médio Piracicaba, depois se transfere para Belo Horizonte, então em construção. A pesquisa histórica foi feita pela Lilian Mari Santana de Carvalho, a revisão e a diagramação são do escritor Cláudio B. Carlos (conhece?) e a capa é da Cínthia Casagrande.

 
CC: Cláudio B. Carlos? Conheço de vista. Ele mora dentro do meu espelho (risos). E agora que o livro foi publicado, como você se sente?
Ádlei Duarte de Carvalho: Estou feliz com o resultado final, sobretudo pelo retorno que tenho recebido das pessoas que leram ou que estão lendo o livro.



CC: Analisando sua obra, hoje, você mudaria alguma coisa?
Ádlei Duarte de Carvalho: Aprendi a me resignar com as minhas criações ou, melhor, com as minhas limitações. Chega um ponto em que a gente tem que dar um basta e publicar porque, do contrário, serão intermináveis as alterações (não estou falando aqui das revisões, que têm que ser realizadas, a meu ver, quantas vezes forem necessárias). Sempre queremos mudar algo daquilo que fizemos. Carregamos involuntariamente esse sentimento de que poderíamos ter feito melhor. Isso é bom para a nossa evolução, enquanto artistas. Entretanto, é preciso contextualizar cada livro. Se eu tomasse para reler, por exemplo, A Travessia, meu primeiro romance, cujo texto foi escrito em 1996, é óbvio que encontraria ainda nele muita coisa que eu mudaria. Sou hoje mais maduro, inclusive artisticamente, do que há 16 anos. Nada obstante, vejo aquele livro como um registro da minha literatura naquele momento da minha existência e, sob esse enfoque, acho que não seria bom mudar qualquer vírgula. Pretendo um dia olhar toda a minha criação e perceber nela algum traço evolutivo, o que não seria possível se eu mudasse indefinidamente o que já foi feito. 

 
CC: Você se considera essencialmente poeta, ou romancista?
Ádlei Duarte de Carvalho: Isso é um pouco complicado. Gosto de dar aos meus romances um toque de poesia. Costumo dizer que escrevo poesia por necessidade e romance por prazer. Acho, entretanto, que na raiz da minha literatura está a poesia. Por isso, poderia dizer que sou poeta em essência, embora minha prosa seja melhor que minha poesia.


CC: Você vive em Belo Horizonte há muito tempo. Como é a cena literária em BH?
Ádlei Duarte de Carvalho: Belo Horizonte é um celeiro de bons escritores. Sempre foi. No entanto, sinto entre nós um distanciamento tão perturbador quanto inoperante. Não nos unimos, não nos organizamos e, por isso, não alavancamos grandes projetos para a nossa literatura. Hoje, por exemplo, me relaciono muito mais com escritores de outros Estados (São Paulo, Rio Grande do Sul, Ceará, Paraíba, Distrito Federal, etc.), do que com os da minha cidade. Acho que uma aproximação maior entre os escritores poderia impulsionar a criação e a exposição da literatura belo-horizontina.



CC: O que você está lendo no momento?
Ádlei Duarte de Carvalho: No momento leio As esquisitices do óbvio, bela obra que me foi enviada pelo autor Manuel Soares Bulcão Neto, na qual reúne alguns de seus ensaios filosóficos. 

CC: Qual personagem da literatura que mais marcou você?
Ádlei Duarte de Carvalho: Jean Valjean (Os Miseráveis, de Victor Hugo) é, para mim, sem dúvida alguma, o mais belo personagem fictício da literatura mundial.

CC: E o Brasil?
Ádlei Duarte de Carvalho: O Brasil é um gigante-menino que começa a adolescer. São visíveis as nossas conquistas dos últimos anos, inclusive pela posição de destaque que temos alcançado no cenário mundial em várias vertentes (econômica, política, artística, etc.), indicando-nos que estamos em rota de evolução. Todavia, ainda há muito a se fazer. Precisamos educar melhor nossas crianças e jovens, combater a violência, a miséria, a corrupção e outras mazelas que impedem o nosso País de crescer com robustez e os nossos cidadãos de viverem em plenitude todas as suas potencialidades, que são muitas.


CC: O que você pretende?
Ádlei Duarte de Carvalho: Viver o suficiente para ver o meu País vencendo as suas mazelas e garantindo o bem-estar social. 

CC: Qual a palavra mais bonita da língua portuguesa?
Ádlei Duarte de Carvalho: Amor.

 
CC: Para que serve tudo isso?
Ádlei Duarte de Carvalho: Tudo o que existe tem alguma finalidade útil. As estrelas, por exemplo, servem para muita coisa mais importante do que agradar aos nossos olhos. Dentre muitas outras funções, respondem pelo equilíbrio cósmico e pela irradiação do calor e da energia que sustentam as mais variadas formas de vida dos planetas que as orbitam. Igualmente, as bactérias são fundamentais à existência. Desempenham, por exemplo, importante papel no Ciclo do Nitrogênio, elemento estrutural dos aminoácidos que compõem os nossos corpos físicos. O mais incrível é que só o homem não consegue encontrar o seu papel dentro do fenômeno existencial, talvez por sua mania de complicar tudo o que é simples e óbvio. Tudo serve a todos. A existência é uma relação de troca ininterrupta e eterna de energias, fluidos e matérias entre tudo o que existe. Cada um de nos é um átomo do todo. Por isso é que não posso crer que tudo tenha surgido do nada por obra do acaso.


CC: Sua biblioteca está em chamas: qual livro você tentaria salvar primeiro? Por quê?
Ádlei Duarte de Carvalho: Certa feita, indagado sobre algo semelhante, Gandhi disse que, caso se queimassem todos os livros da Terra e apenas sobrasse o Sermão do Monte, de Jesus Cristo, a humanidade ainda assim teria o maior código de moral e ética de que pudesse necessitar. Num incêndio daquela magnitude, provavelmente eu salvaria o Sermão do Monte. Como, entretanto, a sua pergunta se restringiu à minha biblioteca, eu tentaria salvar primeiro o livro Por uma piscina ao lado, novelinha de Alberto Barroca, escritor mineiro já falecido, por ser, talvez, a única obra da minha coleção que eu jamais conseguiria recuperar.  


CC: Literatura para viver... De quê?
Ádlei Duarte de Carvalho: Salvo casos excepcionais, ninguém vive de literatura. No Brasil, isso não dá dinheiro, a menos que você decida revelar as suas aventuras sexuais – e que elas sejam de impressionar –, ou que, de algum modo, explore o mundo metafísico. Todavia, a literatura é fundamental para a formação intelectual, a expansão do imaginário, o desenvolvimento da sensibilidade. Sob esse prisma, creio que é preciso literatura para viver.


CC: Dos escritores de hoje, quais são seus preferidos?
Ádlei Duarte de Carvalho: Ah, são muitos. Considerando de hoje os que estão vivos (até onde eu sei, hehehehe), citarei apenas alguns exemplos, tomados por ordem alfabética: Adélia Prado, Affonso Romano, Ana Miranda, Ariano, Carlos Lúcio Gontijo, Chico Buarque, Cláudio B. Carlos, Cleber Pacheco, Fal Azevedo, Ferreira Gullar, Leonardo Brasiliense, Luís Fernando Veríssimo, Nilto Maciel, Rubem Alves, Rubem Fonseca e muitos outros. Difícil lembrar todos os nomes e, nesses casos, corremos sempre o risco de cometermos injustiças. Que me perdoem, então, os que se sabem queridos por mim e não foram aqui citados. Recentemente conheci a literatura da jovem Ângela Calou e do Poeta de Meia-Tigela, amigos cearenses. Fiquei encantado!


CC: Agradeço a deferência (risos). O que você gostaria de ter falado e que eu não perguntei?
Ádlei Duarte de Carvalho: Acho que suas perguntas exploraram bem a minha alma. Ainda assim, eu gostaria muito de poder lhe ter respondido algo do tipo: sim, você pode depositar aqueles R$ 10.000.000,00 na minha seguinte conta: xxxxx (hehehe).


CC: Ádlei Duarte de Carvalho por Ádlei Duarte de Carvalho.
Ádlei Duarte de Carvalho: Considerando apenas o que de fato interessa, sou um homem feliz. Feliz pela família que tenho e pelos muitos amigos que construí até aqui, feliz por ter conquistado o que me é essencial, feliz por me reconhecer um ser em evolução e, por isso mesmo, poder carregar os meus defeitos sem culpa, mas sempre com o firme propósito de me melhorar a cada dia. Sou um aprendiz!



 
Ádlei Duarte de Carvalho integra, juntamente com Cleber Pacheco, Fal Azevedo e este entrevistador,
o Grupo de Escritores O Bodoque.


A entrevista foi concedida por e-mail, em janeiro de 2012.
Contato com o entrevistado: adleidecarvalho@gmail.com








sábado, 14 de janeiro de 2012

Por que escrevo?


Por que escrevo?
Marcelino Freire 
"Na verdade, nunca entendo por que vivem nos perguntando isso, a todo tempo: ‘por que você escreve’, ‘qual o papel do escritor’ etc. Sempre estão à cata de uma serventia para o que fazemos. Serventia tem eletrodoméstico. Ninguém nunca pergunta ao clínico por que ele clinica, à sinfônica por que ela sinfonica. Sempre digo: o papel do escritor é higiênico. Sempre digo: eu escrevo porque é a única coisa que não preciso pagar para fazer. Para todas as outras uso MasterCard, entende? Escrevo porque não sei pilotar Fórmula 1, é certo. Ou escrevo porque nunca aprendi a jogar bola, basquete. Ou porque não consigo alpinar de bunda para cima lá nos Andes, sei lá. Enfim. Escrevo por que não sei responder a questões assim. Saravá!"



quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Comigo não tem meio-termo
e no amor
é bom mesmo não tê-lo:
Lábio é beiço
e
grelo é grelo




Do livro Poemas Mínimos.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

O almoço de hoje
é o vômito de ontem
cachorro magro
apontam-me as costelas
e segue a ciranda
num cruel brinquedo de roda
vivemos
no país das homenagens póstumas

Do livro "Poemas da nulidade".


segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Algumas coisinhas lidas em 2011


Tânia Carvalho
Aracy Balabanian – nunca fui anjo

Leonardo Brasiliense
Whatever

Kiko Ferreira
Musikaligrafia

Andréa Del Fuego
Os Malaquias

Evandro Affonso Ferreira
Minha mãe se matou sem dizer adeus

Edney Silvestre
Se eu fechar os olhos agora

Frei Betto
Aquário Negro

Tânia Carvalho
Betty Faria – rebelde por natureza

José Rezende Jr.
Eu perguntei pro velho se ele queria morrer
(e outras estórias de amor)

Ádlei Duarte de Carvalho
Todas as palavras de amor

Felipe Stefani
Verso para outro sentido

André de Leones
Hoje está um dia morto

Enzo Potel
Conto de facas

Enzo Potel
Cura


Moacyr Scliar
A guerra do Bom Fim

Rodrigo Marques
O livro de Marta

Ádlei Duarte de Carvalho
Triângulo Vermelho

Cleber Pacheco
Cartas Imaginárias

Lau Siqueira
Poesia sem pele

Moacyr Scliar
O exército de um homem só

Moacyr Scliar
Uma História Farroupilha

Júlia de Oliveira
Desabafos (Coleção Poetas de Orpheu nº 2)

Donizete Galvão
Seixos (Coleção Poetas de Orpheu nº 7)

Kepa Murua
Poemas (Coleção Poetas de Orpheu nº 1)

Montse Fornós
Íntimo (Coleção Poetas de Orpheu nº 8)

Helena Faria Monteiro
Desfolhando Lugares (Coleção Poetas de Orpheu nº 5)

Julia Otxoa
Cartas a Mr. Gardener (Coleção Poetas de Orpheu nº 6)

Marilene Caon Pieruccini
Retalhos (Coleção Poetas de Orpheu nº 4)

Floriano Martins
Extravio de noites (Coleção Poetas de Orpheu nº 3)

Tránsito Villarino
Penumbra (Coleção Poetas de Orpheu nº 10)

António Cardoso Pinto
Reflexos (Coleção Poetas de Orpheu nº 9)

Aricy Curvello
50 poemas escolhidos pelo autor

Marta Lopez-Luances
Os desterrados (Coleção Poetas de Orpheu nº 11)

Adriana Ebert Cerato
Teatro das letras (Coleção Poetas de Orpheu nº 12)

Roberto Denser
O tipo de merda que acontece

Guimarães Rosa
A terceira margem do rio

Juan Rulfo
Pedro Páramo

Algermon Blackwood
Os salgueiros

Allan Pitz
Estação jugular

Bruno Brum
Mínima Idéia

Teodoro Balaven
Silêncio Branco

Nilto Maciel
Contos Reunidos
Volume 1

Cleber Pacheco
Vanessa (releitura)

Teodoro Balaven
Bananas podres

W. J. Solha
Relato de Prócula

Cleber Pacheco
Preto & Branco (releitura)

Bárbara Lia
Tem um pássaro cantando dentro de mim

Jorge Salomão
O olho do tempo (releitura)

Pedro Maciel
Como deixei de ser Deus (releitura)

Laury Maciel
Quarto de pensão (releitura)

Geraldo Lima
Tesselário

Manoel de Barros
Livro sobre nada (releitura)

Mara Paulina Arruda
Disputas antigas e outras citações

Clarice Lispector
Perto do coração selvagem

Ângela Calou
Eu tenho medo de Górki

Geraldo Lima
Um

Hilda Hilst
Contos d’escárnio (releitura)

Carta Testamento de Getúlio Vargas (releitura)

Fernando Pessoa
O pastor amoroso

Antigo Testamento
Lamentações de Jeremias

Machado de Assis
Suje-se gordo!

Clarice Lispector
Água viva

Trechos de cartas de Mário de Andrade e de Carlos Drummond de Andrade

Machado de Assis
A Igreja do Diabo


quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

DIA DAS MÃES



 Imagem: Cândido Portinari


Era um chão de terra batida. O vento enovelava o cisco. Havia um choro comprido: quatro ou cinco pessoas. E um cachorro, a um canto, dormitando. Maria enterrava o filho. Era o segundo domingo de maio.



Do livro Narrativas Mínimas.





segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Sobre influências & outras coisinhas




Eu não veria a Arte do modo como vejo, nem escreveria como eu escrevo, se não tivesse sofrido a indelével influência de Bebeto Alves. Quando eu conheci a Música do Bebeto (que para mim é também Literatura), na minha adolescência (em Restinga Seca), descobri que minha inquietação tinha nome: Poesia. E nunca mais fui o mesmo. Ainda bem. Gracias, Bebeto!

domingo, 11 de dezembro de 2011

TORPOR


Eu não queria ouvir o que ela tinha para falar. Como num transe, eu apenas via o mexer dos lábios murchos da ve­lha, sua dentadura frouxa, e o bailar de sua língua sabur­rosa. Tudo sem som. Eu não escutava nadica de nada. O buço da velha lhe sombreava o lábio, e se misturava com os pelos que lhe saíam pelas ventas. Vez em quando al­gum perdigoto da bruaca me atingia o rosto. Eu permane­cia imóvel. Eu não queria ouvir nada. Nadica de nada. No pátio um dos piás chutou a pelota, que entrou pela porta da cozinha, bateu no pé do fogão a lenha, depois no pé da mesa, espantou o gato que passava preguiçoso, veio gi­rando, girando, girando, até que esbarrou em mim, me ti­rando do torpor. Lá fora começava um chuvisqueiro finís­simo, parecido com neve. E eu que não queria ouvir o que ela tinha para falar escutei a última frase do falatório da velha espanhola: O velho está morto.


Do livro O palhaço do circo sem graça (a sair em 2012)

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

O pintor dos girassóis

Recebi do amigo Cleber Pacheco um exemplar do Jornal Linguagem Viva.
O Jornal traz um artigo do Cleber sobre o poema “O pintor dos girassóis”, de Aricy Curvello

Clique na imagem para ampliá-la

quarta-feira, 23 de novembro de 2011