Páginas

Seguidores

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

NOS CAFUNDÓS

(inédito – até aqui)


Noite alta. Ao longe, gritaria e foguetório. Cuscos assustados. É um tal de Internacional, campeão de alguma cosa – disse o velho, ouvido colado no rádio. O lampião, pendurado no prego, espichava-lhe a delgada sombra.








(Belo Horizonte, MG, 2013)

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Graciliano Ramos









“Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer.”


(Graciliano Ramos)



sábado, 27 de agosto de 2016

PRIMEIRO AMOR

(um texto de Alexandre Guardiola)



As crianças brincavam na calçada. A mãe chamou por ele. Ela estava mais bonita do que das outras vezes: a blusa, de alça, deixava à mostra o delicado contorno das clavículas, o colo... Sorriu e disse que voltava o quanto antes e detestava deixá-lo sozinho. Ele observou-a passando entre as outras crianças que não sabiam como era amar naquela idade.





sábado, 25 de junho de 2016

sexta-feira, 17 de junho de 2016

esmagar-te-ia
como quem pisa em uma lesma
se fosses
reles e despicienda
pegajosa és
tal e qual um molusco
que não me larga
insistente
que se agranda
em minha morada
e em meus parcos teres
como posso desprezar-te
se com teu convívio
já estou quase acostumado
como posso querer
eu
criatura franzina
viver entre os bons
o que me dói
não é a falta de
são teus próprios afagos
tens mãos ásperas
que me machucam as faces amiga
posso chamar-te assim
de amiga
não posso?
conhecemo-nos bem
acho que sou pra ti
assim como uma espécie de razão de existir
e tu
amiga MISÉRIA
já és quase minha vida
esmagar-te-ia
como quem pisa em uma lesma
se pudesse
agora já não posso
tenho pernas cambaleantes
e mesmo
que fossem rijas
com nojo
não te pisotearia
pois
as solas dos meus sapatos
bem sabes
têm furos grandes como patacas
quisera
ter sido rápido o suficiente
para não me dar a conhecer
por ti...


e agora essa...
por que diabos afeiçoa-te a mim?



quarta-feira, 15 de junho de 2016

Cleber Pacheco e a poesia de João Cabral de Melo Neto



O amigo Cleber Pacheco me enviou um exemplar da antologia “Círculo de Pesquisas Literárias e Biografias – CIPEL 50 anos”. Cleber escreve, no volume, sobre a poesia de João Cabral de Melo Neto.

Gracias!








quarta-feira, 1 de junho de 2016

DOIS POEMAS DE FLÁVIO O. FERREIRA




DAS CRENÇAS



Creio que na última noite

virão os peixes

os pães

todos os cães

e faremos a última ceia

nossa breve refeição.




ABISMOS



Tenho sapatos novos

E alguns poemas

Para fingir

Que a vida não é

Feita

De abismos.






sábado, 14 de maio de 2016

Leite branco


(um poema de Angel Cabeza)





Quando pequeno
observava a mãe
na faina diária
de lavar a lua:
bacia repleta de leite
e estrelas e roupas
inundadas de branco
Seus dedos poliam com
exatidão o reflexo da orbe
acalmavam impurezas de astros
ressequiam o lamento
das constelações
no varal da noite
Durante um longo tempo
minhas roupas abandonaram
o olor da alfazema
algumas partículas do Big Bang
e cultivaram os buracos
do universo

Assombrosamente
eu me vestia
de iluminado.




quinta-feira, 17 de março de 2016

Comunicado



Comunico a morte dos blogues “O que é a poesia” e “Para que serve a poesia”. Morreram por total falta de colaboração. Convidei vários poetas para que considerassem acerca de tais assuntos – a idéia era, depois, publicar dois livros sobre o tema. Morreram também os livros. Dos muitos poetas convidados, só quatro participaram: W. J. Solha, Cleber Pacheco, Ádlei Duarte de Carvalho e Bárbara Lia – agradeço imensamente. Comunico, também, que não mais me dedicarei a projetos que dependam da participação de outrem – cuidarei apenas de minhas coisinhas. Ainda, insistente que sou, publicarei, de vez em quando, alguma entrevista no “Balaio de Letras” – e só. O mesmo já havia acontecido com o site “Dona Zica tá braba”, com o blogue “Poetas do Limbo” e com “O Bodoque” – Grupo de Escritores. Com “O Bodoque” publiquei dois livros – um de poesias e um de narrativas. Fiz, em “O Bodoque”, de forma gratuita, todo o trabalho de edição, revisão, diagramação e projeto gráfico dos livros – publiquei, inclusive pela primeira vez, alguns autores. Acho que fiz um bom trabalho – sempre gostei de incentivar e divulgar meus pares. Acontece que cansei. Os autores de “O Bodoque” (com exceções, claro) sequer falam comigo – e quando da publicação dos livros, poucos foram os que disseram alguma coisa sobre, poucos foram os que se empenharam na divulgação. Cansei. Então, repito: morrem os projetos coletivos, ficam os anéis.





sábado, 20 de fevereiro de 2016

Nem te conto






Acabo de ler o primeiro volume de “Nem te conto” – antologia de escritores de Santa Cruz do Sul, RS (ou que tenham ligação com a cidade).

Dos 30 textos que compõem o livro, destaco:

“Carmina”, de Daniela Damaris;
“A mulher da sombrinha azul”, de Eliane H. Cauduro;
“A prisão”, de Leonardo José Andriolo;
“Dois anjos”, de Leonardo Brasiliense;
“Ser e pampa”, de Leonel Aires;
“Elogio da produção industrial”, de Mauro Klafke;
“Bem urbanas, mal acabadas”, de Mauro Ulrich;
“Professor”, de Tony Saad – o melhor texto do livro.

Senti falta de revisão.



domingo, 7 de fevereiro de 2016

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Redescobrindo Gal



Alegria!

Acabo de receber o CD “Redescobrindo Gal”, da querida amiga Alexandra Scotti. O disco é uma Obra – e eu recomendo. Xanda é maravilhosa e canta que é uma beleza. O disco pode ser ouvido no YouTube.

Sou fã da menina Xanda, e poder privar de sua amizade é algo entre o sublime e o inarrável. Gracias, querida! E que dedicatória linda!







segunda-feira, 2 de novembro de 2015

GRAU ZERO



(um poema de Ricardo Aleixo)







acho bonito quando uma mulher diz,
no leito, ao seu amado "pode fazer
o que quiser comigo",
e ele entende, ainda que
com grande esforço, e aos poucos, o
pouco que há para ser entendido:
que fazer o que quiser
com aquela mulher, e só com ela,
aquela, agora a única
e nenhuma outra sobre a terra,
que ousa lhe dizer uma frase tão
arriscada e inóbvia, será
entregar-se a um jogo rápido,
mas sutil e necessário de perguntas
ao próprio corpo (o que você quer,
corpo? o que você, que agora
chamo, entre o desespero e
algo que talvez seja o grau zero
de alguma genuína alegria,
de meu corpo, pode querer
de um outro corpo que quer
você e eu tanto e tão
abertamente, que
dá a mim e a você o condão
de considerar todas as
hipóteses e, pelo menos
em tese, romper qualquer
limite?) ou não será
nada digno de
lembrança.




quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Poemas hiperbólicos do fim da pampa

Texto que escrevi para a Revista O Emplasto – sobre meu livro “Poemas hiperbólicos do fim da pampa”.


Poemas hiperbólicos do fim da pampa é meu 25º livro – o 16º de poesias. É um livro onde predomina a linguagem terrantês. Procurei, em Poemas hiperbólicos, trabalhar o terrunho – para, quem sabe, seguindo o conselho de Tolstói, ultrapassar a porteira da querência. Não é assim? Eu acredito que sim. Acredito no poder universalizador do regionalismo. É, no regional, onde me sinto mais à vontade para criar – trago o meu chão muito presente em mim. Vivo na cidade, com o campo dentro de mim. Levei muito tempo até dar o livro por pronto – e nem sei se o dou, dei. Algum livro estará realmente pronto? É possível que assim seja? Como dizia: demorei muito até as últimas pinceladas. Quando minha aldeia se fez minimamente apresentável, entreguei-a ao universo. Lia um poema aqui, outro ali, e não me convencia. Foram anos trabalhando a palavra, e só depois, já com o projeto gráfico definido, é que encontrei certa unidade apetecível. Não há, no livro, nenhum poema recente – o que comprova o que disse antes. O que atesta o árduo burilar dos poemas. Mas, agora, vendo-o assim, publicado, me sinto aliviado – pronto! O mesmo traço telúrico apresentado em Poemas hiperbólicos é encontrado em Memórias do Jirau (poesias, 2008) e em Estância dos Eucaliptos (novela, 2013).













sábado, 8 de agosto de 2015

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

O Terceiro Dia




Acabo de receber O Terceiro Dia – romance de Cleber Pacheco. Belíssima edição da Editora Penalux. Tive a honra de assinar a revisão da obra. Posto, aqui, o texto que escrevi para a orelha do livro:



O Terceiro Dia, romance de Cleber Pacheco, é feito vigoroso. É trabalho de Mestre.
“Súbito, abandonou a casa e foi preparando-se para, num desatino, talvez quebrar portas, enroscar cabelos, vazar olhos. Queria cruzar o dia enlouquecido com seus cascos. Correria, daria cambalhotas, lamberia os pés, federia sovaco. (...) Iria aos corcovos, pinoteando, fremindo, querendo pelar-se, beber mijo.”
É soco no estômago.
“Desejou ficar recebendo chuva, criando musgo, virando mato, em migalhas, em
pó, até seus ossos virarem fósseis, até feder como cadáver de pútrido cavalo.”
O livro segue a mesma linha imaginosa de Invernia, da trilogia O Mestre de Ellora e de Enigmas – outras obras do autor, que aproveito para recomendar.
Significa que o escritor – um dos melhores e mais inventivos de sua geração – está construindo uma obra que “conversa”, uma obra que se entrelaça na sutil costura da Arte.  
Significa que o autor – fecundo – está deixando. Deixar é o que busca o Artista. Cleber está deixando, deixará.
Cada livro de Cleber Pacheco é completo. E, também, cada livro de Cleber Pacheco, carrega em si, a possibilidade de uma continuação, de um encaixe com o anterior (ou com o vindouro). Cada livro é, também, personagem.
Obra de engenhoso autor: requer leitura atenta.
É Altíssima Literatura.    
O Terceiro Dia é poético, é trágico, e, segundo o autor, é experimental.
É Obra de Gênio.







quinta-feira, 9 de julho de 2015

Não há vagas

(um poema de Ferreira Gullar)





O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão.

O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras

– porque o poema, senhores,
está fechado: “não há vagas”
Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço

O poema, senhores,
não fede
nem cheira.





quinta-feira, 2 de julho de 2015

Receita para fazer um herói

                                                
                                                (um poema de Reinaldo Ferreira)




Tome-se um homem,
Feito de nada, como nós,
E em tamanho natural.
Embeba-se-lhe a carne,
Lentamente,
Duma certeza aguda, irracional,
Intensa como o ódio ou como a fome.
Depois, perto do fim,
Agite-se um pendão
E toque-se um clarim.

Serve-se morto.




domingo, 21 de junho de 2015

ENGANO

                                                                 (um poema de Angel Cabeza)






Por cima da mesa 
minha avó regava com seus olhos
as flores de plástico.
Fizesse sol ou chuva
dormiam intactas na mesma posição.

Embora minha avó soubesse que as flores
assim como as fotografias
permaneciam novas hipoteticamente
desejava um coração também de plástico.
Às visitas
entre o belo espanto das tristes flores
e uma xícara de chá
despertava na voz a certidão: 
estão aí para enganar a morte.









sábado, 9 de maio de 2015

O Amor Bate na Aorta


(um poema de Carlos Drummond de Andrade)





Cantiga de amor sem eira 
nem beira,
vira o mundo de cabeça
para baixo,
suspende a saia das mulheres,
tira os óculos dos homens,
o amor, seja como for,
é o amor.

Meu bem, não chores,
hoje tem filme de Carlito.

O amor bate na porta
o amor bate na aorta,
fui abrir e me constipei.
Cardíaco e melancólico,
o amor ronca na horta
entre pés de laranjeira
entre uvas meio verdes
e desejos já maduros.

Entre uvas meio verdes,
meu amor, não te atormentes.
Certos ácidos adoçam
a boca murcha dos velhos
e quando os dentes não mordem
e quando os braços não prendem
o amor faz uma cócega
o amor desenha uma curva
propõe uma geometria.

Amor é bicho instruído.

Olha: o amor pulou o muro
o amor subiu na árvore
em tempo de se estrepar.
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo o sangue
que corre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem,
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã.

Daqui estou vendo o amor
irritado, desapontado,
mas também vejo outras coisas:
vejo beijos que se beijam
ouço mãos que se conversam
e que viajam sem mapa.
Vejo muitas outras coisas
que não ouso compreender...



quarta-feira, 8 de abril de 2015

Pequenas obscenidades


(um texto de Márcia Maia)





Pensava sempre nele nessa hora. A hora em que, casquinha de sorvete à mão, lambia lenta e delicadamente as bolas. Deliciando-se em dobro. A relembrar outros jogos de língua. Em tardes distantes. E por vir.







domingo, 22 de março de 2015

Sabor de Burrice


(um poema de Tom Zé)







Veja que beleza
Em diversas cores
Veja que beleza
Em vários sabores
A burrice está na mesa
Ensinada nas escolas
Universidades e principalmente
Nas academias de louros e letras
Ela está presente
E já foi com muita honra
Doutorada honoris causa
Não tem preconceito ou ideologia
Anda na esquerda, anda na direita
Não tem hora, não escolhe causa
E nada rejeita
Veja que beleza
Em diversas cores
Veja que beleza
Em vários sabores
A burrice está na mesa
Refinada, poliglota
Ela é transmitida por jornais e rádios
Mas a consagração
Chegou com o advento da televisão
É amiga da beleza
Gente feia não tem direito
Conferindo rimas com fiel constância
Tu trazes em guarda
Toda concordância gramaticadora
Da língua portuguesa
Eterna defensora





terça-feira, 17 de março de 2015

sábado, 21 de fevereiro de 2015

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

MARCO CREMASCO & AS COISAS DE JOÃO FLORES

Findo a leitura de As coisas de João Flores – excelente livro de poesias de Marco Cremasco. Fico com a certeza: tenho, na estante, uma fonte imorredoura – de onde beberei, vez por outra e sempre. O volume, apresentado em capa dura, traz um belíssimo projeto gráfico – ótimo trabalho do Eduardo Lacerda (Editora Patuá).





Logo no início, leio:

“APRESENTAÇÃO”

bom dia

senhoras
senhores

bom dia

bom dia cães gatos
ratos pássaros

passo mais e mais
manhãs felizes e... tristes
mas tenho a satisfação
de vê-los a tempo

de sentir a gestação das flores

não as conheço
sinto-as no voo das borboletas
feito anjos enlouquecidos procurando
nacos de terra para descansar





Marco Aurélio Cremasco nasceu em Guaraci, no Paraná. E, com “MONÓLOGO DE UM PÉ-VERMELHO”, continua sua apresentação:

amanheci o céu na grama amarelecida
só para comê-lo com pão e margarida

já bem tarde, cansado de ser caçado por uma sombra,
rejeitei as sobras de ser ninguém para ser sol na face de alguém

meio urbano meio caipira tangi vinte liras
fora de moda, pois a moda não é violeta, é de viola

fiz-me assim para ser celestino longe do nepal
caçar rimas e colher sons é uma preferência nacional

nesta noite, quando muitos brigam por sobremesa,
fico de tocaia no prazer de virar a mesa

esfomeado, aguardo a saci astronauta
para completá-la na perna que lhe falta

saciado, adormeço no seio de um riacho
para acordar numa cama de capim

e assim tudo será como sempre foi:
olhar de índio velho sorriso de curumim


As coisas de João Flores se divide em seis partes: Paiol de espelhos, Arado nas tramas, Trançados do tempo, Madrigal de firulas, Arroio de estrelas e Canteiro de arrebol. O livro conta, ainda, com prefácio de Ademir Demarchi e posfácio de Carlos Vogt.


Para não transcrever toda a obra, já que quase toda foi sublinhada durante a prazerosa leitura, escolherei um poema de cada parte supracitada.


De Paiol de espelhos, publico “TRAVESSIA”:

quieto
observo paisagens

silêncio quebrado
por um poema
pedindo passagem


“SANTOS E LOUCOS” – de Arado nas tramas:

fiz de tudo um pouco
fui santo fui louco

tive o prazer do mundo

de poder encher
um copo sem fundo


Uma beleza!

“tive o prazer do mundo
de poder encher
um copo sem fundo”

Que bela imagem! Poesia de gente grande.


De Trançados do tempo, destaco “CÁLAMO” – que já publiquei aqui. Vale a pena relembrar:

não sei se é o sol
nem se é a chuva

luz breu chama
vela sem pavio

não sei se faz calor
muito menos frio

nem mais sei se é março
agosto dezembro abril

(não sei o que me cala)

no olhar que me conforta
vejo que a curva da porta

sempre abriga
uma sombra amiga



Os versos “vejo que a curva da porta/ sempre abriga/ uma sombra amiga” compõem a dedicatória do exemplar que me foi, gentilmente, enviado pelo autor.







Retiro, de Madrigal de firulas, o poema que segue:

“NA MARGEM DO RIO”

sempre se apanha
um peixe
no olhar do pescador


Aqui, outra bela imagem...


Em Arroio de estrelas pesco “DA ILUSÃO DE NARCISO”:

qual o limite
para o desespero?

esconder segredo
a um espelho?



 E, finalmente, de Canteiro de arrebol, destaco “PESSOAS”:

você grita esperneia
faz caras truques caretas

traça versos de espanto
e nesse universo pandilheiro

você, álvaro de campos
eu, seu alberto caeiro


Sublime, não?


As coisas de João Flores é todo escrito em letras minúsculas – gosto disso, desses “atrevimentos” estilísticos.


Agora, como revisor de textos que sou, digo: nenhuma vírgula fora do lugar. As coisas de João Flores é um primor.


Recomendo – com força.





BH – fevereiro de 2015.



  








terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Cogito

(um poema de Torquato Neto)






eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível


eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora


eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim


eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim.







sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

As coisas de João Flores

O Poeta Marco Cremasco me enviou um exemplar de seu As coisas de João Flores. Lindo livro. Edição em capa dura – belo trabalho da Editora Patuá. Lerei em breve. Muchas gracias.









quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Decapitados

O livro “Decapitados”, de Leonardo Brasiliense, tem tudo para figurar entre os grandes da Literatura.







Uma ótima história, muito bem urdida.


“A dor se mistura com a raiva que sente do filho que deu fim à vida, como se fosse Deus. Mas a dor é mais forte que a raiva, e o pai o perdoa, como se fosse Deus, como se tivesse visto em seu rosto, morto ao pé da escada, o arrependimento.”





A escrita de Leonardo Brasiliense está madura, consistente – escrita de quem sabe o que faz.


“O padre continua fazendo visitas. Chega numa hora em que não há como não convidá-lo a ficar para o almoço ou a janta. Nenhuma se compara à comida de sua cozinheira, filha daquela que foi a cozinheira do monsenhor. Mas ele se sacrifica, precisa de tempo com as famílias, e uma refeição deixa toda palestra mais longa: fica-se à mesa depois, vem um doce, um cafezinho, um chá de boldo. Ele vai permanecendo o quanto quiser, ninguém expulsa um padre de casa.”


Quando o Brasiliense (que é ótimo) pende para o regional, é maravilhoso. Que texto! E que belo livro! O livro – como objeto – é lindo (a capa e o projeto gráfico são excelentes). 






“A mulher do caminhoneiro Ariovaldo falou pouco. Nunca teve índole ativa, acostumou-se a concordar. O padre discursava sobre a desgraça que encobria a cidade feito uma sombra malévola. A dona da casa dizia ‘pois é’, ‘pois então’, assentia com a cabeça e oferecia mais polenta ao sacerdote. O caminhoneiro estava trabalhando, subira para Santa Catarina. A esposa parou a colher no ar, pensando que a viagem demorava mais do que o esperado e se o marido levara cuecas suficientes. Havia três crianças à mesa, elas não davam atenção ao padre nem à mãe. Também não conversavam entre si. A menina de oito anos tinha uma boneca doente, a perna de plástico fora comida pelo cachorro. A outra, de dez, parecia uma sonâmbula, imóvel. O menino, de onze, com o mesmo nome do pai, pensava no futuro, no que faria depois da janta.”





 “Decapitados”, de Leonardo Brasiliense: recomendo – com força.

BH – 2015.




sábado, 3 de janeiro de 2015

Algumas coisinhas lidas em 2014

Juscelino Pernambuco
Um laço, um anzol

Cleber Pacheco
Enigmas

Cleber Pacheco
Vida Reinventada (releitura)

Jane Austen
Orgulho e preconceito

Luiza Estrela
Rimas antigas para crianças modernas – Mariazinha desligada

Jaime Vaz Brasil
Pandorga da Lua

Jaime Vaz Brasil
Livro dos Amores

Jaime Vaz Brasil
Livro dos Amores (edição especial)

Leonardo Brasiliense
Sofia e Mônica

Jaime Vaz Brasil
Os olhos de Borges

Severino Figueiredo
Cravo e canela

Leonardo Brasiliense
Corpos sem pressa

Antônio Mariano
Guarda-chuvas esquecidos

Hercília Fernandes
Poemas de: chamados, esperas & (a)fins

Cassionei N. Petry
Os óculos de Paula

Cleber Pacheco
Invernia 


sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

zuns zum zoom




O amigo Luiz Edmundo Alves me enviou – e eu acabei de receber – um exemplar de seu zuns zum zoom. O livro está na fila – será devorado em breve. Adianto que, numa rápida passada de olhos, percebi o belíssimo trabalho gráfico. Gracias, Poeta.