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sexta-feira, 17 de março de 2017

A CAIXA



para Nilto Maciel – in memoriam






               Ele chegou faceiro, depositou a caixa sobre a mesa e chamou toda a família para que víssemos o que havia conseguido no centro da cidade, na saída do trabalho. Foi uma pechincha, disse. Falou que se tratava de um animalzinho frágil, que faria muito bem a todos. Disse que o bichinho comia pouco, e se chamava Paz. Pediu para que todos se aproximassem. Disse que abriria a caixa. O guri menor arregalou bem os olhos e abraçou a perna do velho. Quando o pai abriu a caixa o bicho voou, e desapareceu por um vão da cumeeira. Mal tivemos tempo de ver a cor do animal. A Paz, tão desejada pelo velho, foi embora de nossa casa, e ainda cagou sobre nossas cabeças. O pai nunca mais foi o mesmo.

(Belo Horizonte, MG, setembro de 2011)




domingo, 19 de fevereiro de 2017

E-BOOK




Num projeto exclusivo para a Revista Gueto, “Isto não é um livro” - um apanhado de narrativas breves e alguns poemas. Algumas narrativas são inéditas. Aguarde.



quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Dalton Trevisan


“Depois de tanto pensar ele moeu pó de vidro e mastigou duas colheres cheias, empurrando-o com bocados de banana e laranja, por sinal azeda.

Nada acontecia, amarrou uma corda na viga da cozinha. Antes de subir na cadeira, deixou entre cascas de fruta o seguinte bilhete:

Me matei por amor. Eu quero a Maria, ela não me quer. Engoli três colheres de vidro moído, mas não fez efeito. Então me enforquei.
Só te peço, Maria, a calcinha de florinha azul no meu caixão.

Com ódio, o último beijo – João.




Dalton Trevisan – em “A pombinha e o dragão vermelho”.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

ALGUMAS COISINHAS LIDAS EM 2016

Rachel de Queiroz
O quinze



Paulo Gonçalves
Poemas de Paulo Gonçalves em Maria da Fé



Vários autores
Nem te conto – 1º volume (releitura)



Ádlei Duarte de Carvalho
Uma estrela nos olhos do menino (original)



Choderlos de Laclos
Relações perigosas



Érico Veríssimo
Incidente em Antares



José Hildebrando Dacanal
Linguagem, poder e ensino da língua



João Silveira
Dever/Haver (releitura)



Alberto Bresciani
Sem passagem para Barcelona



Bruno Tolentino
A balada do cárcere






Marco Aurélio Cremasco
Histórias prováveis



André Rangel Rios
Dentro do teatro de marionetes



Cleber Pacheco
A poesia de João Cabral de Melo Neto (texto avulso)



Priscila Merizzio
Minimoabismo



Bruna Beber
Rua da padaria



Julio Cortázar
Bestiário



Cristovão Tezza
O filho eterno



Angélica Freitas
Um útero é do tamanho de um punho



Richard Bach
Fernão Capelo Gaivota (releitura)



Flora Figueiredo
Limão rosa



Edney Silvestre
Boa noite a todos (novela)




Charles Kiefer
Logo tu repousarás também



Adélia Prado
Os componentes da banda



Edney Silvestre
Boa noite a todos (peça)



Edney Silvestre
Boa noite a todos (ensaio)



Adélia Prado
O coração disparado



Liberato Vieira da Cunha
Um visto para o interior – viagens a Cachoeira e meus outros mundos



Leticia Wierzchowski
De um grande amor – e de uma perdição maior ainda



Patrick Modiano
Remissão da pena



Gaciliano Ramos
Vidas secas



George Orwell
A revolução dos bichos



Vários autores
Contos de bolso (releitura)




Mitch Albom
A última grande lição



Márcia Leite
Poeminhas da terra



Lara Meana
Selou e Maya



Cleber Pacheco
Intersecções (releitura)



Dalton Trevisan
A trombeta do anjo vingador (releitura)



Alice Munro
Vida querida









sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

O sorriso da estrela


(um texto de Aleilton Fonseca)




Estava morta a minha irmã, ali entre jasmins e rosas, minha mãe à cabeceira chorava. Era uma noite inquieta, essa do velório em vigília e prantos por Estelinha, de quando em quando se rezavam benditos. O enterro iria seguir no outro dia, no meio da manhã de sol.
Estela estava morta, aos treze anos. E eu sentia dentro de mim esta morte. Era um pouco também eu morto, sem tempo de me redimir e poder amar minha irmã, como — só agora! — eu sabia ser capaz. Ela não morresse, eu iria brincar com ela, nunca mais uma zombaria, nem desprezo, nunquíssimo a chamaria de "sua doida". Pois agora eu começava a compreender sua linguagem, logo agora, desde que ela se fora para o hospital, eu comecei a entender seus diálogos compridos com as pedras, com os tocos de pau, com as folhagens ao vento. O silêncio de sua ausência no quintal se mostrou dentro de mim em tons de uma saudade estranha. Mas ainda ali, eu não suspeitava do que me vinha na alma. Tudo fora a ordem do tempo. Ela nascera primeiro, três anos antes de mim. Agora a diferença encurtava, mas justo quando eu me afogava nesse deserto de lágrimas. Pela primeira vez, eu dialogava com a minha irmã:
— Estela, acorde, vamos conversar com as pedras — sussurrei no seu ouvido, ninguém me escutasse. A madrinha veio me consolar, eu tivesse paciência, fora a vontade de Deus, o melhor para ela, tão doentinha, coitada. Tive raiva de madrinha, no meu mais íntimo sofrimento. Continuei a conversa, até que me puxaram pelo braço, pois minha mãe redobrava-se no pranto.

— Estela, acredite em mim agora. Vamos correr picula.
O corpo dela suava, dormindo sem ressonar. Um pano envolvia seus cabelos castanhos e descia para sustentar seu queixo, — talvez para conter o sorriso? — Minha mãe enxugava o suor da morta com o mesmo lenço em que depositava as próprias lágrimas. O tempo voltasse, meu Deus! Eu só implorava um único milagre. As imagens desfilavam na minha memória, eu a escutava como se fosse agora:

— Vamos brincar, Dindinho.

— Não me chame de Dindinho! Meu nome é Pedro — respondia áspero, sem sequer olhar, e ia saindo.
Eu pensava odiar o fato de ter uma irmã assim. Ela insistia, amorosa, que me dava um constrangimento.
— Não, ninguém sabe, mas é Dindinho, seu nome bonito, eu chamo — dizia, como se eu continuasse presente.
Eu fugia de ter essa irmã. Os meninos me abusavam. Várias vezes briguei por me chamarem de Dindinho, o irmão da doida. Dindinho, eu mesmo não! Minha mãe já ia pegando o costume de me chamar assim, nas vontades de sempre agradar a filha. No contra, eu me rebelei, fugi de casa um dia inteiro. Minha Mãe me deu uma surra, depois, mas nunca mais me chamou daquele nome. Por que ela existia? Eu não me dirigia a Estela. Mudava de rumo, baixava os olhos para não dar com ela. Eu a considerava um estrago na minha vida. Quis muito que morresse. Ela me surpreendia, às vezes, antes que me mostrasse irritado, como quase sempre acontecia:

— Quando você morrer, Dindinho, de que cor você quer suas asas no céu?
Uma coisa tão sem sentido, que eu sequer respondia. Apenas fazia uma careta de enfado, balançava a cabeça negativamente. Ela me cercava os olhos, inventava brincadeiras cada vez mais estranhas para conquistar minha atenção. Isso tudo mais me afastava. Os meninos, meus amigos, considerassem que eu não tinha irmã, pois mencioná-la era já motivo de desavenças. Fiquei de mal com alguns dos melhores, tempos e tempos, por essas causas.

Diante de minha repulsa, Estela intentava uns modos de me sensibilizar, sem o menor sucesso. Um dia, posto que eu a estivesse atentando muito, ela imaginou uma proposta das mais descabidas. No começo da noite, ela, depois de tanto silêncio, me propôs com a maior certeza do mundo:

— Eu lhe dou uma coisa para sempre, aquela estrela grande será só sua a vida toda e depois, Dindinho.

— Ora, quem pode ter uma estrela, "sua doida"? — desdenhei.
— Pois pode, porque é minha e eu lhe dou só pra você, Dindinho. Mas só se você sorrir para mim, todo dia, uma vez... só uma... você quer?

Nunca soube sorrir para você, Estela, me perdoe. Quando eu tomava posse de mim mesmo em mais profundo, quando um sorriso germinava no fundo de minha alma — e seria seu! — você já não estava aqui. Até hoje só me vêm as lágrimas que nunca tive antes, quando você vivia em seu mundo de imagens que só percebi depois. Eu era mesmo um Pedro, o coração tinindo na dureza, você foi me amaciando. Você, aos quase quatro anos, me carregou no colo. Eu era seu neném, como a nossa mãe me contou, depois de tudo, tardiamente. Estela... tudo podia ser tão diferente!
A noite ia avançando, em horas que eu não conhecia, os meus olhos já desistentes. Eu me debruçava sobre a morta, o sono me empurrava para ela, nos movimentos bruscos dos cochilos. Minha mãe me mandou dormir e eu, depois de insistir negativo, enfim saí cabisbaixo da sala, a solidão me completava. Não me dirigi ao meu quarto, mas ao que ficava ao lado. E examinei os ângulos daquele lugar, tudo tão limpo e arrumado numa ordem que eu não conhecia. Ali, enxerguei os contornos deste vazio que até hoje carrego. Fiz meia-volta e caminhei para o meu leito, mas não consegui me acomodar. O sono me apertava os olhos, uma agonia no peito teimava-me pela vigília. Quis retornar à sala, mas nossa mãe me suplicou que não com um olhar terno, tão raro aquele olhar... Eu voltei, mas não para o meu quarto. E me deitei na cama de Estela, deixando na alfazema do travesseiro o sal dos meus olhos.

Eu me vi vivendo o melhor que nossa realidade. Estela me sorria, corria de mim, eu não tinha pressa de apanhá-la, era talvez picula. O nosso quintal se alargava, o caminho de plantas, paus e pedras ia-se margeando em nuvens sem um fim que se avistasse. Eu tinha o saber de tudo, mas não me importava, o sorriso de Estela me preenchia e me fazia leve, que então voávamos. Eu queria alcançar minha irmã, mas não podia lhe pedir que parasse. Estela tinha um vôo firme e certo, e eu, me parece que só voava no seu vácuo. Mas eu a queria, buscava-a para um abraço que faltava em mim, um toque que me transmitisse os seus modos de sorrir. Eu queria conversar com as nuvens e as pedras lá embaixo já me sorriam, as folhas acenavam para mim. Estela ia-se distanciando, eu me surpreendi no cansaço desse vôo, as nuvens perdendo sua leveza. Estela! Estelinha, me dê a mão! Me leve com você! Mas o seu sorriso já me abandonava. Ela se foi fazendo em cor de nuvem, aos poucos me vi sem olhos para tê-la. E era tarde, muito tarde: tive um sobressalto e tudo que agora eu via eram as telhas vãs do nosso quarto.
A manhã se ia acesa como as velas, numa rapidez que doía
em nós. Vi que minha mãe não dormira, velara nessa noite toda uma vida ao lado da filha. Era um olhar cansado, dela para mim, com um desencanto mudo, enxergando o nosso vazio. Acerquei-me dela, os seus braços me tatearam. E logo me acariciava os cabelos com a mão direita, com a outra acariciava os cabelos de Estela. Inesquecível aquele gesto de nossa mãe, em toda a nossa vida, por seu corpo passando a nossa última sintonia.
As pessoas iam chegando, a hora do enterro se aproximava. Madrinha apagou os quatro tocos de vela acesos ao redor de Estela. Começaram a distribuir os ramos de flores para o acompanhamento. Eu reparava nos meninos e nas meninas que se acotovelavam para ver a morta. Alguns que sempre zombavam dela. Uns me pareciam tristes, outros apenas viviam uma aventura. Eu me sentia completamente afastado de todos.
Iam fechar o caixão. Minha mãe despejou mais lágrimas e inquiria Deus pela morte da filha. E até madrinha, pela vez primeira, soltou as rédeas do seu pranto. Eu me guardei no silêncio, peguei um ramo de rosas que estava próximo ao rosto de Estela. Não me pareceu que eu pudesse beijar o seu rosto agora, já que nunca o fizera
em vida. Então beijei as flores e pus de volta no caixão.
Era hora, o enterro ia seguir. Quando me mandaram olhar minha irmã pela última vez, não chorei, pois me pareceu que ela sorria um sorriso longe só para eu sentir. Então percebi que ela agora se tornava como nuvens. Eu quis seguir com ela, mas não me deixaram. E me levaram Estela de mim.


O cortejo dobrou a primeira curva de nossa rua. Os meus olhos continuaram buscando, até hoje parados naquela curva sem nome. Madrinha varreu a casa, dos fundos para a porta da frente, juntando as folhas e restos de flores e tocos de velas. Deixou o montinho no pé de jambo que Estela chamava de "meu segundo amor". Era onde minha irmã costumava ficar à sombra, enfeitando-se com as flores rubras de jambo. Ali eu derramei as minhas derradeiras lágrimas.
Minha irmã, ainda hoje eu contemplo a tua estrela e tenho uma vontade enorme de que fosse minha. Eu vejo tua imagem se projetando de lá, num sorriso longe que não me deixa desamparado. Era essa luz que você me oferecia, por apenas um sorriso que já era seu sem que eu soubesse. Quantas estrelas no céu — e eu não possuo uma sequer!
O tempo me deu estes cabelos brancos, mas a minha memória guarda os sinais do semblante de Estela, com suas alegrias sem nenhum motivo. Em nosso quintal, as pedras, os tocos de pau, as folhagens ao vento puxam conversa comigo, mas eu continuo mudo. No entanto, agora sinto: eu sou Dindinho.




quinta-feira, 10 de novembro de 2016

NOS CAFUNDÓS

(inédito – até aqui)


Noite alta. Ao longe, gritaria e foguetório. Cuscos assustados. É um tal de Internacional, campeão de alguma cosa – disse o velho, ouvido colado no rádio. O lampião, pendurado no prego, espichava-lhe a delgada sombra.








(Belo Horizonte, MG, 2013)

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Graciliano Ramos









“Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer.”


(Graciliano Ramos)



sábado, 27 de agosto de 2016

PRIMEIRO AMOR

(um texto de Alexandre Guardiola)



As crianças brincavam na calçada. A mãe chamou por ele. Ela estava mais bonita do que das outras vezes: a blusa, de alça, deixava à mostra o delicado contorno das clavículas, o colo... Sorriu e disse que voltava o quanto antes e detestava deixá-lo sozinho. Ele observou-a passando entre as outras crianças que não sabiam como era amar naquela idade.





sábado, 25 de junho de 2016

sexta-feira, 17 de junho de 2016

esmagar-te-ia
como quem pisa em uma lesma
se fosses
reles e despicienda
pegajosa és
tal e qual um molusco
que não me larga
insistente
que se agranda
em minha morada
e em meus parcos teres
como posso desprezar-te
se com teu convívio
já estou quase acostumado
como posso querer
eu
criatura franzina
viver entre os bons
o que me dói
não é a falta de
são teus próprios afagos
tens mãos ásperas
que me machucam as faces amiga
posso chamar-te assim
de amiga
não posso?
conhecemo-nos bem
acho que sou pra ti
assim como uma espécie de razão de existir
e tu
amiga MISÉRIA
já és quase minha vida
esmagar-te-ia
como quem pisa em uma lesma
se pudesse
agora já não posso
tenho pernas cambaleantes
e mesmo
que fossem rijas
com nojo
não te pisotearia
pois
as solas dos meus sapatos
bem sabes
têm furos grandes como patacas
quisera
ter sido rápido o suficiente
para não me dar a conhecer
por ti...


e agora essa...
por que diabos afeiçoa-te a mim?



quarta-feira, 15 de junho de 2016

Cleber Pacheco e a poesia de João Cabral de Melo Neto



O amigo Cleber Pacheco me enviou um exemplar da antologia “Círculo de Pesquisas Literárias e Biografias – CIPEL 50 anos”. Cleber escreve, no volume, sobre a poesia de João Cabral de Melo Neto.

Gracias!








quarta-feira, 1 de junho de 2016

DOIS POEMAS DE FLÁVIO O. FERREIRA




DAS CRENÇAS



Creio que na última noite

virão os peixes

os pães

todos os cães

e faremos a última ceia

nossa breve refeição.




ABISMOS



Tenho sapatos novos

E alguns poemas

Para fingir

Que a vida não é

Feita

De abismos.






sábado, 14 de maio de 2016

Leite branco


(um poema de Angel Cabeza)





Quando pequeno
observava a mãe
na faina diária
de lavar a lua:
bacia repleta de leite
e estrelas e roupas
inundadas de branco
Seus dedos poliam com
exatidão o reflexo da orbe
acalmavam impurezas de astros
ressequiam o lamento
das constelações
no varal da noite
Durante um longo tempo
minhas roupas abandonaram
o olor da alfazema
algumas partículas do Big Bang
e cultivaram os buracos
do universo

Assombrosamente
eu me vestia
de iluminado.




quinta-feira, 17 de março de 2016

Comunicado



Comunico a morte dos blogues “O que é a poesia” e “Para que serve a poesia”. Morreram por total falta de colaboração. Convidei vários poetas para que considerassem acerca de tais assuntos – a idéia era, depois, publicar dois livros sobre o tema. Morreram também os livros. Dos muitos poetas convidados, só quatro participaram: W. J. Solha, Cleber Pacheco, Ádlei Duarte de Carvalho e Bárbara Lia – agradeço imensamente. Comunico, também, que não mais me dedicarei a projetos que dependam da participação de outrem – cuidarei apenas de minhas coisinhas. Ainda, insistente que sou, publicarei, de vez em quando, alguma entrevista no “Balaio de Letras” – e só. O mesmo já havia acontecido com o site “Dona Zica tá braba”, com o blogue “Poetas do Limbo” e com “O Bodoque” – Grupo de Escritores. Com “O Bodoque” publiquei dois livros – um de poesias e um de narrativas. Fiz, em “O Bodoque”, de forma gratuita, todo o trabalho de edição, revisão, diagramação e projeto gráfico dos livros – publiquei, inclusive pela primeira vez, alguns autores. Acho que fiz um bom trabalho – sempre gostei de incentivar e divulgar meus pares. Acontece que cansei. Os autores de “O Bodoque” (com exceções, claro) sequer falam comigo – e quando da publicação dos livros, poucos foram os que disseram alguma coisa sobre, poucos foram os que se empenharam na divulgação. Cansei. Então, repito: morrem os projetos coletivos, ficam os anéis.





sábado, 20 de fevereiro de 2016

Nem te conto






Acabo de ler o primeiro volume de “Nem te conto” – antologia de escritores de Santa Cruz do Sul, RS (ou que tenham ligação com a cidade).

Dos 30 textos que compõem o livro, destaco:

“Carmina”, de Daniela Damaris;
“A mulher da sombrinha azul”, de Eliane H. Cauduro;
“A prisão”, de Leonardo José Andriolo;
“Dois anjos”, de Leonardo Brasiliense;
“Ser e pampa”, de Leonel Aires;
“Elogio da produção industrial”, de Mauro Klafke;
“Bem urbanas, mal acabadas”, de Mauro Ulrich;
“Professor”, de Tony Saad – o melhor texto do livro.

Senti falta de revisão.



domingo, 7 de fevereiro de 2016

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Redescobrindo Gal



Alegria!

Acabo de receber o CD “Redescobrindo Gal”, da querida amiga Alexandra Scotti. O disco é uma Obra – e eu recomendo. Xanda é maravilhosa e canta que é uma beleza. O disco pode ser ouvido no YouTube.

Sou fã da menina Xanda, e poder privar de sua amizade é algo entre o sublime e o inarrável. Gracias, querida! E que dedicatória linda!







segunda-feira, 2 de novembro de 2015

GRAU ZERO



(um poema de Ricardo Aleixo)







acho bonito quando uma mulher diz,
no leito, ao seu amado "pode fazer
o que quiser comigo",
e ele entende, ainda que
com grande esforço, e aos poucos, o
pouco que há para ser entendido:
que fazer o que quiser
com aquela mulher, e só com ela,
aquela, agora a única
e nenhuma outra sobre a terra,
que ousa lhe dizer uma frase tão
arriscada e inóbvia, será
entregar-se a um jogo rápido,
mas sutil e necessário de perguntas
ao próprio corpo (o que você quer,
corpo? o que você, que agora
chamo, entre o desespero e
algo que talvez seja o grau zero
de alguma genuína alegria,
de meu corpo, pode querer
de um outro corpo que quer
você e eu tanto e tão
abertamente, que
dá a mim e a você o condão
de considerar todas as
hipóteses e, pelo menos
em tese, romper qualquer
limite?) ou não será
nada digno de
lembrança.




quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Poemas hiperbólicos do fim da pampa

Texto que escrevi para a Revista O Emplasto – sobre meu livro “Poemas hiperbólicos do fim da pampa”.


Poemas hiperbólicos do fim da pampa é meu 25º livro – o 16º de poesias. É um livro onde predomina a linguagem terrantês. Procurei, em Poemas hiperbólicos, trabalhar o terrunho – para, quem sabe, seguindo o conselho de Tolstói, ultrapassar a porteira da querência. Não é assim? Eu acredito que sim. Acredito no poder universalizador do regionalismo. É, no regional, onde me sinto mais à vontade para criar – trago o meu chão muito presente em mim. Vivo na cidade, com o campo dentro de mim. Levei muito tempo até dar o livro por pronto – e nem sei se o dou, dei. Algum livro estará realmente pronto? É possível que assim seja? Como dizia: demorei muito até as últimas pinceladas. Quando minha aldeia se fez minimamente apresentável, entreguei-a ao universo. Lia um poema aqui, outro ali, e não me convencia. Foram anos trabalhando a palavra, e só depois, já com o projeto gráfico definido, é que encontrei certa unidade apetecível. Não há, no livro, nenhum poema recente – o que comprova o que disse antes. O que atesta o árduo burilar dos poemas. Mas, agora, vendo-o assim, publicado, me sinto aliviado – pronto! O mesmo traço telúrico apresentado em Poemas hiperbólicos é encontrado em Memórias do Jirau (poesias, 2008) e em Estância dos Eucaliptos (novela, 2013).













sábado, 8 de agosto de 2015

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

O Terceiro Dia




Acabo de receber O Terceiro Dia – romance de Cleber Pacheco. Belíssima edição da Editora Penalux. Tive a honra de assinar a revisão da obra. Posto, aqui, o texto que escrevi para a orelha do livro:



O Terceiro Dia, romance de Cleber Pacheco, é feito vigoroso. É trabalho de Mestre.
“Súbito, abandonou a casa e foi preparando-se para, num desatino, talvez quebrar portas, enroscar cabelos, vazar olhos. Queria cruzar o dia enlouquecido com seus cascos. Correria, daria cambalhotas, lamberia os pés, federia sovaco. (...) Iria aos corcovos, pinoteando, fremindo, querendo pelar-se, beber mijo.”
É soco no estômago.
“Desejou ficar recebendo chuva, criando musgo, virando mato, em migalhas, em
pó, até seus ossos virarem fósseis, até feder como cadáver de pútrido cavalo.”
O livro segue a mesma linha imaginosa de Invernia, da trilogia O Mestre de Ellora e de Enigmas – outras obras do autor, que aproveito para recomendar.
Significa que o escritor – um dos melhores e mais inventivos de sua geração – está construindo uma obra que “conversa”, uma obra que se entrelaça na sutil costura da Arte.  
Significa que o autor – fecundo – está deixando. Deixar é o que busca o Artista. Cleber está deixando, deixará.
Cada livro de Cleber Pacheco é completo. E, também, cada livro de Cleber Pacheco, carrega em si, a possibilidade de uma continuação, de um encaixe com o anterior (ou com o vindouro). Cada livro é, também, personagem.
Obra de engenhoso autor: requer leitura atenta.
É Altíssima Literatura.    
O Terceiro Dia é poético, é trágico, e, segundo o autor, é experimental.
É Obra de Gênio.







quinta-feira, 9 de julho de 2015

Não há vagas

(um poema de Ferreira Gullar)





O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão.

O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras

– porque o poema, senhores,
está fechado: “não há vagas”
Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço

O poema, senhores,
não fede
nem cheira.





quinta-feira, 2 de julho de 2015

Receita para fazer um herói

                                                
                                                (um poema de Reinaldo Ferreira)




Tome-se um homem,
Feito de nada, como nós,
E em tamanho natural.
Embeba-se-lhe a carne,
Lentamente,
Duma certeza aguda, irracional,
Intensa como o ódio ou como a fome.
Depois, perto do fim,
Agite-se um pendão
E toque-se um clarim.

Serve-se morto.




domingo, 21 de junho de 2015

ENGANO

                                                                 (um poema de Angel Cabeza)






Por cima da mesa 
minha avó regava com seus olhos
as flores de plástico.
Fizesse sol ou chuva
dormiam intactas na mesma posição.

Embora minha avó soubesse que as flores
assim como as fotografias
permaneciam novas hipoteticamente
desejava um coração também de plástico.
Às visitas
entre o belo espanto das tristes flores
e uma xícara de chá
despertava na voz a certidão: 
estão aí para enganar a morte.









sábado, 9 de maio de 2015

O Amor Bate na Aorta


(um poema de Carlos Drummond de Andrade)





Cantiga de amor sem eira 
nem beira,
vira o mundo de cabeça
para baixo,
suspende a saia das mulheres,
tira os óculos dos homens,
o amor, seja como for,
é o amor.

Meu bem, não chores,
hoje tem filme de Carlito.

O amor bate na porta
o amor bate na aorta,
fui abrir e me constipei.
Cardíaco e melancólico,
o amor ronca na horta
entre pés de laranjeira
entre uvas meio verdes
e desejos já maduros.

Entre uvas meio verdes,
meu amor, não te atormentes.
Certos ácidos adoçam
a boca murcha dos velhos
e quando os dentes não mordem
e quando os braços não prendem
o amor faz uma cócega
o amor desenha uma curva
propõe uma geometria.

Amor é bicho instruído.

Olha: o amor pulou o muro
o amor subiu na árvore
em tempo de se estrepar.
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo o sangue
que corre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem,
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã.

Daqui estou vendo o amor
irritado, desapontado,
mas também vejo outras coisas:
vejo beijos que se beijam
ouço mãos que se conversam
e que viajam sem mapa.
Vejo muitas outras coisas
que não ouso compreender...



quarta-feira, 8 de abril de 2015

Pequenas obscenidades


(um texto de Márcia Maia)





Pensava sempre nele nessa hora. A hora em que, casquinha de sorvete à mão, lambia lenta e delicadamente as bolas. Deliciando-se em dobro. A relembrar outros jogos de língua. Em tardes distantes. E por vir.







domingo, 22 de março de 2015

Sabor de Burrice


(um poema de Tom Zé)







Veja que beleza
Em diversas cores
Veja que beleza
Em vários sabores
A burrice está na mesa
Ensinada nas escolas
Universidades e principalmente
Nas academias de louros e letras
Ela está presente
E já foi com muita honra
Doutorada honoris causa
Não tem preconceito ou ideologia
Anda na esquerda, anda na direita
Não tem hora, não escolhe causa
E nada rejeita
Veja que beleza
Em diversas cores
Veja que beleza
Em vários sabores
A burrice está na mesa
Refinada, poliglota
Ela é transmitida por jornais e rádios
Mas a consagração
Chegou com o advento da televisão
É amiga da beleza
Gente feia não tem direito
Conferindo rimas com fiel constância
Tu trazes em guarda
Toda concordância gramaticadora
Da língua portuguesa
Eterna defensora





terça-feira, 17 de março de 2015

sábado, 21 de fevereiro de 2015

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

MARCO CREMASCO & AS COISAS DE JOÃO FLORES

Findo a leitura de As coisas de João Flores – excelente livro de poesias de Marco Cremasco. Fico com a certeza: tenho, na estante, uma fonte imorredoura – de onde beberei, vez por outra e sempre. O volume, apresentado em capa dura, traz um belíssimo projeto gráfico – ótimo trabalho do Eduardo Lacerda (Editora Patuá).





Logo no início, leio:

“APRESENTAÇÃO”

bom dia

senhoras
senhores

bom dia

bom dia cães gatos
ratos pássaros

passo mais e mais
manhãs felizes e... tristes
mas tenho a satisfação
de vê-los a tempo

de sentir a gestação das flores

não as conheço
sinto-as no voo das borboletas
feito anjos enlouquecidos procurando
nacos de terra para descansar





Marco Aurélio Cremasco nasceu em Guaraci, no Paraná. E, com “MONÓLOGO DE UM PÉ-VERMELHO”, continua sua apresentação:

amanheci o céu na grama amarelecida
só para comê-lo com pão e margarida

já bem tarde, cansado de ser caçado por uma sombra,
rejeitei as sobras de ser ninguém para ser sol na face de alguém

meio urbano meio caipira tangi vinte liras
fora de moda, pois a moda não é violeta, é de viola

fiz-me assim para ser celestino longe do nepal
caçar rimas e colher sons é uma preferência nacional

nesta noite, quando muitos brigam por sobremesa,
fico de tocaia no prazer de virar a mesa

esfomeado, aguardo a saci astronauta
para completá-la na perna que lhe falta

saciado, adormeço no seio de um riacho
para acordar numa cama de capim

e assim tudo será como sempre foi:
olhar de índio velho sorriso de curumim


As coisas de João Flores se divide em seis partes: Paiol de espelhos, Arado nas tramas, Trançados do tempo, Madrigal de firulas, Arroio de estrelas e Canteiro de arrebol. O livro conta, ainda, com prefácio de Ademir Demarchi e posfácio de Carlos Vogt.


Para não transcrever toda a obra, já que quase toda foi sublinhada durante a prazerosa leitura, escolherei um poema de cada parte supracitada.


De Paiol de espelhos, publico “TRAVESSIA”:

quieto
observo paisagens

silêncio quebrado
por um poema
pedindo passagem


“SANTOS E LOUCOS” – de Arado nas tramas:

fiz de tudo um pouco
fui santo fui louco

tive o prazer do mundo

de poder encher
um copo sem fundo


Uma beleza!

“tive o prazer do mundo
de poder encher
um copo sem fundo”

Que bela imagem! Poesia de gente grande.


De Trançados do tempo, destaco “CÁLAMO” – que já publiquei aqui. Vale a pena relembrar:

não sei se é o sol
nem se é a chuva

luz breu chama
vela sem pavio

não sei se faz calor
muito menos frio

nem mais sei se é março
agosto dezembro abril

(não sei o que me cala)

no olhar que me conforta
vejo que a curva da porta

sempre abriga
uma sombra amiga



Os versos “vejo que a curva da porta/ sempre abriga/ uma sombra amiga” compõem a dedicatória do exemplar que me foi, gentilmente, enviado pelo autor.







Retiro, de Madrigal de firulas, o poema que segue:

“NA MARGEM DO RIO”

sempre se apanha
um peixe
no olhar do pescador


Aqui, outra bela imagem...


Em Arroio de estrelas pesco “DA ILUSÃO DE NARCISO”:

qual o limite
para o desespero?

esconder segredo
a um espelho?



 E, finalmente, de Canteiro de arrebol, destaco “PESSOAS”:

você grita esperneia
faz caras truques caretas

traça versos de espanto
e nesse universo pandilheiro

você, álvaro de campos
eu, seu alberto caeiro


Sublime, não?


As coisas de João Flores é todo escrito em letras minúsculas – gosto disso, desses “atrevimentos” estilísticos.


Agora, como revisor de textos que sou, digo: nenhuma vírgula fora do lugar. As coisas de João Flores é um primor.


Recomendo – com força.





BH – fevereiro de 2015.