domingo, 20 de janeiro de 2008

A SANTA

Foto: Cica

DELA
guardei comigo uma medalhinha amassada com a imagem de uma santa que carrega um guri no colo. Quando perambulava por aí a trazia no bolsinho da fatiota. Quando assentei parada aqui na fazenda depositei-a pendurada a um prego sobre a cabeceira do catre. Rezar rezar, não rezo, que não sei nem nunca aprendi, mas proseio co’a santa vez por outra. E não é só pra pedir que falo com ela. Aprendi que na vida se tem que agradecer às vezes. Mesmo que se tenha pouco. Pior seria se fosse nada.
POR
aqui faço o de tudo. Tudo que um piá pode fazer, que o patrão é homem bom e não força sua montaria. Tiro o leite, que é tarefa buena, pois sou o primeiro a beber dele de manhã. Direto da teta pra caneca. Da caneca pra goela. Aí é só lamber o bigodinho de apojo que fica no beiço. Também varro o terreiro, dou bóia pras galinhas, pros porcos, pros patos, pros cavalos e cuido de manter o nível do sal do cocho daqui de perto da casa, o da Bragada, a que dá leite pros da casa. O de vender são os peões que tiram e essas vacas nem ficam aqui por perto...
DE
tarde vou ao grupo, que o patrão me quer fazendo conta, lendo e escrevendo. Pra mim já ta bom assim que já sei assinar o nome e o reconheço no papel.
DE
tardezinha repito as obrigações de tratar da bicharada e depois da janta me deito. Bem cedo, que aqui faz bastante frio. Até mesmo no verão. Aqui sempre sopra um ventito bagual que aprendi com a tia Leonor, a minha professora, se tratar de uma tal de brisa. No quarto, às vezes, fico folheando umas revistas de mulheres peladas, que consigo de contrabando com o negro Bocage. Nessas horas fico meio desajeitado nos pelegos, me dá uns troços diferentes, o pau endurece e aí não tem jeito. Não durmo enquanto não castigo o bem-te-vi.
O BORGES
disse que guri que muito se espunheteia cria cabelo nas mãos, mas eu tenho certeza que é mentira dele, ou então milagre da santa. Por falar nela – na santa – quando eu preciso fazer essas minhas necessidades com as gurias das revistas, eu tapo os olhos dela. Penduro as bombachas por cima. A peonada diz que dá pra guri fazer com as ovelhas ou com alguma égua mais mansa, ou até mesmo com porca que é bem parecido com mulher. Mas eu nunca tive vontade. E acho que se tivesse vontade teria medo. Medo de algum coice ou que o patrão me pegue, ou pior ainda, que a mulher dele me pegue. Ou muito pior ainda, que a filha dele que é guria meio fresca, me pegue. Credo. Me mijo de medo só de pensar...
AQUI NA FAZENDA
tenho um cusco de meu mesmo. Cruza de ovelheiro com perdigueiro. É meu amigo mesmo, o vivente. Quando saio pro mato pra caçar passarinho, não de arminha de chumbo, que o patrão não deixa, de bodoque mesmo, ele sempre vai junto comigo. Até já me aliviou de um bote de cruzeira, o bichão. O bodoque quem fez foi o Borges, que é mais meu amigo do que o Bocage, apesar de o Bocage me emprestar as revistas. É que o Bocage é mais bagaceira. Falquejou bem direitinho com o facão uma forquilha de figueira, amarrou uma borracha bem novinha de câmara de pneu de bicicleta, que conseguiu com o Jarí da borracharia, e me deu. Era meu aniversário. Nesse dia, o patrão me deu um relogito que uso só às vezes, por que o saber que o tempo escorre me angustia. O Bocage, à noite, foi ao meu quartinho, me entregou uma revista novinha, plastificada e tudo, me deu uma piscadinha e disse que eu não precisava devolver. Tá com as páginas surradinhas já e algumas meio que coladas por causa de uns acidentes de percurso que andei tendo...
DE VEZ EM QUANDO
choro. Nessas horas me escondo. Vou até a velha ponte quebrada e ali debaixo dela, sentado no barranco da sanga fico a escutar o lamento chiado das águas. Tenho vontade de mijar quando escuto o barulho que faz a água escorrendo. Quando lavo a cara de manhã cedo também sinto vontade de mijar, aí eu fecho a torneira, mas não adianta. Depois da vontade nascida só mesmo o prazer do mijo.
QUANDO
estou ali, na sanga, penso nela. Não consigo lembrar do rosto dela. Só dos cabelos lisos, longos e dos olhos tristes e grandes, e das mãos de dedos longos, unhas bem curtinhas e judiadas pelo sabão, pelo frio e pela água gelada. Se queixava de dor nos braços. Batia na tábua um tanto de roupa por dia. Lembro dela me dando a imagem da santa. Com a manga da camisa seco as lágrimas, afago a cabeça do cusco e volto pra casa, ora correndo atrás dele, ora ele atrás de mim. E olhando pro céu azul azulzinho daqui, me consolo. Que vida melhor do que essa pra um guri?

4 Comments:

Blogger gdec disse...

Um texto feito de terra e água. Muito bom, portanto
Geraldes de Carvalho

02 Fevereiro, 2008 19:00  
Blogger Cláudio B. Carlos (CC) disse...

Geraldes!

Grato pelas palavras da primeira visita. Volte sempre.

Abraços,

*CC*

02 Fevereiro, 2008 19:34  
Anonymous Anônimo disse...

Puxa, Carlos! este tocou profundamente....
Abraço

02 Setembro, 2009 18:39  
Blogger Cláudio B. Carlos (CC) disse...

Jô!

Obrigado, amigo.

02 Setembro, 2009 22:18  

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