taedium vitae
Foto: Cicanão oferecerei resistência. não serei eu a desviar o curso dos caprichos divinos. não que me falte vontade. não que não me sobre indignação. apenas tenho tédio. falta-me ânimo. ficarei aqui sentado enquanto este bafo quente varre o terreiro, enquanto os vermes resfolegam na carne de pêssegos maduros que se desprendem do pé, enquanto moscas azuladas e gordas cumprem seu destino de depositar ovos em cães, homens e outros bichos, enquanto o charque seca no varal, enquanto o charco se forma de água, terra e bosta de galinhas que pisam e repisam seu fadário burro... não serei eu a levantar daqui, a quebrar este encantamento de coisas e animais que como que hipnotizados vivem e morrem, são e estão, sem saber como nem porquê, quem apodrece e quem viceja, quem é que escolhe isto ou aquilo... estou aqui sentado. não resisto. não por mim, é que isto já foi decidido. então sigo parado, quieto. só o meu pensar é que pulsa, mas isto não tem importância. de que vale o pensamento se o esboço já vem de antes traçado? só me resta esparramar-me, ocupar um lugar até que seja, de fato, obra conclusa sob um revoar de corvos crocitantes: carne podre sobre terra fétida...




8 Comments:
Observando com maestria a transformação, deixando-se levar e aceitando-as. Fotografia primorosa do tédio. Valeu.
Abrs.
Deve estar chegando por ai...
Valeu Ordisi!
Abraços do *CC*
Pois eu, com esse microespetáculo da vida, me satisfaria.
Meu tédio é de paredes brancas, de luzes brancas, de telas brancas de computador, de horas brancas (quero-as coloridas).
Um grande abraço (troca teu tédio pelo meu?)
Dayse!
Se for para te fazer contente, sim.
Beijos,
*CC*
Gosto muito das tuas narrativas, cara!
parabéns!
abração
Íta!
Abração.
Claudio, tá muito lindo isso aqui tudo, você está com um texto abissal, muito obrigado, viu, por me convidar, é como disse: lenitivo. Espero que você escreva sempre, saber que poderei te ler é coisa bem... lenitiva. Aquela entrevista da mineira é de cair o queixo. Me apaixonei por ela. Seus desafios místicos raspam o divino e protestam com propriedade, viva a veemência!
Everton!
Obrigado pelas palavras, meu amigo.
Grande abraço,
*CC*
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