DAS CISMAS
Todo início de todas as manhãs alimentava o hábito que mandava no corpo. Sempre. Mateava. Sempre o mesmo ritual. Sacro. A água esquentando na chapa do fogão, seis ou sete colheres de erva na cuia, o morro ajeitado com capricho: a cuia inclinada sobre a palma da mão direita, o morro lisinho e verde que nem coxilha. Começava o mate com a água morna. Esperava a água abaixar inchando a erva. Introduzia a bomba com o bocal tapado pelo polegar direito. Depois, o primeiro mate, já com a água chiando. Aí cismava, tomava uma, duas chaleiras, ouvia o assobio do vento que vazava frinchas adentro, invadindo o rancho. Ali cismava, ouvia a gritaria do bichedo e era acariciado pelas lembranças do tempo em que era guri e acordava mais tarde e ali naquele baú de guardar gravetos sentava o pai pra matear despacito. A vida segue. Somos peças de um jogo que na evolução(?) vão trocando de posição até o fim, numa espécie de rodízio. Até o fim. O fim de nós mesmos. Sabia do termo, mas era se como esperasse, de cuia na mão, enquanto o filho no quarto, aboletado no catre, dormia até um pouco mais tarde...




2 Comments:
Essa é uma das pérolas que mais gostei do seu livro "Um Arado Rasgando a Carne".
Você escreve com uma poeticidade incrível e fascinante.
Grande abraço.
Ádlei!
Obrigado, amigo.
Grande abraço.
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