KAFKA?
Foto: Cínthia CasagrandeAs pequeninas patas produzem, ao andar freneticamente na madeira do rodapé do banheiro, um barulho como o de unhas batendo alternadas numa mesa.
De cócoras. Tenta pegá-la com a mão esquerda. O dedo anular da direita está inflamado. Evita usar a mão direita. Ela é elétrica, rápida, pequena e ágil. Escapa. Corre atrás dela. Um, dois, três passos laterais. Desordenados. Tenta esmagá-la com o pé direito. Chuta a parede. Erra. Abaixa-se novamente. Tenta agarrá-la com a mão (esquerda) de novo. Evita usar a direita. O dedo anular da mão direita está inflamado. Tem a mania de arrancar as cutículas com os dentes. Bem feito. Deu nisto. À tarde tomou vacina antitetânica. O dedo lateja. Um minúsculo vôo. 2 x 0. Ela foge mais uma vez.
Encurralada atrás da porta do banheiro. Talvez cansada. Talvez desistente. Ela se entrega. Ele agarra-a (com a mão esquerda). A direita está com o dedo anular inflamado. O dedo lateja. Tem na ponta uma bolha de pus. Anda até o vaso onde joga-a com força. Ela esperneia inutilmente. Ele abaixa as cuecas. Barata, água sanitária e mijo se misturam. Aperta com o polegar direito o botão da descarga. Ela some em redemoinho com a água e com o mijo. Ele ergue as cuecas. Vai até a pia. Lava as mãos. Faz xis para o espelho oval. Os dentes amarelos de cigarro. Sorri um sorriso adormecido. Amarelecido (não de cigarro). Tem a garganta rasgada do resfriado e das palavras não-ditas pensadas na insônia de tantas noites. Click. Apaga a luz. Dirige-se ao quarto. Deita. Tenta dormir. Consegue?
De cócoras. Tenta pegá-la com a mão esquerda. O dedo anular da direita está inflamado. Evita usar a mão direita. Ela é elétrica, rápida, pequena e ágil. Escapa. Corre atrás dela. Um, dois, três passos laterais. Desordenados. Tenta esmagá-la com o pé direito. Chuta a parede. Erra. Abaixa-se novamente. Tenta agarrá-la com a mão (esquerda) de novo. Evita usar a direita. O dedo anular da mão direita está inflamado. Tem a mania de arrancar as cutículas com os dentes. Bem feito. Deu nisto. À tarde tomou vacina antitetânica. O dedo lateja. Um minúsculo vôo. 2 x 0. Ela foge mais uma vez.
Encurralada atrás da porta do banheiro. Talvez cansada. Talvez desistente. Ela se entrega. Ele agarra-a (com a mão esquerda). A direita está com o dedo anular inflamado. O dedo lateja. Tem na ponta uma bolha de pus. Anda até o vaso onde joga-a com força. Ela esperneia inutilmente. Ele abaixa as cuecas. Barata, água sanitária e mijo se misturam. Aperta com o polegar direito o botão da descarga. Ela some em redemoinho com a água e com o mijo. Ele ergue as cuecas. Vai até a pia. Lava as mãos. Faz xis para o espelho oval. Os dentes amarelos de cigarro. Sorri um sorriso adormecido. Amarelecido (não de cigarro). Tem a garganta rasgada do resfriado e das palavras não-ditas pensadas na insônia de tantas noites. Click. Apaga a luz. Dirige-se ao quarto. Deita. Tenta dormir. Consegue?




4 Comments:
OI Carlos
li teus livros, quero te parabenizar pelo projeto, atrás da aparente simplicidade há uma sequência de poemas que me fez ter raiva de você.
Não se preocupe, raiva é o que sinto quando leio os "fodões" :))
Rubens!
Obrigado. Hehehehehehe.
gostei de achar este por aqui, cc!
criou uma situação bem bacana. bem escrita.
parabéns!
abração.
Íta!
Valeu!
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