segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Entrevista com o poeta Douglas da Cunha Dias




CC: Fale um pouco sobre você, sobre sua infância.
Douglas da Cunha Dias: Nasci em Belém, minha família é toda de Belém. Morei apenas um ano fora, Rio de Janeiro, 1999-2000, pra cursar mestrado. Minha infância: invento-a bretoniana, ao lado do meu irmão (2 anos mais novo que eu), meus pais, primos, tios e avós. Morávamos todos no mesmo bairro, tivemos uma criação bem próxima. Brincadeiras, cirandas, passeios, coisas assim. Minha mãe morreu quando eu tinha 13 anos; tal perda foi de grande impacto para a vida de todos nós. Sobrevivemos. Daí veio o rock, o blues e muitas loucuras impublicáveis. Um dia acordei formado em educação física e, logo adiante, professor concursado da Universidade Federal do Pará; trabalho com disciplinas ligadas ao universo da filosofia, antropologia e sociologia, em três cursos, educação física, pedagogia e licenciatura em dança. E escrevo. E sonho. E desperto. Não necessariamente nessa ordem.

CC: Quando você descobriu a poesia? Ou a poesia lhe descobriu?
Douglas da Cunha Dias: Rabiscava palavras, entre meus 16 e 20 anos, acreditando que um dia seriam letras de rock ‘n’ roll. Não há registro algum delas. Depois, um longo hiato. A partir de 2000 comecei a freqüentar a sala de poesia, chat do terra – nesse tempo existia vida inteligente por lá. Estabeleci contato, virtual, com algumas delas; duas, em especial. Permita-me revelar apenas os nicks: menino sujo de tinta (esquilo) e a morphine. Até hoje converso com o esquilo, que, por sinal, tem um blog muito bom, mas acho que ele não gostaria que eu revelasse o endereço. De fato, considero que foi desta forma que comecei a escrever – em um chat, pasme. De lá pra cá, não parei mais. Descobri a poesia quando ela soube de mim.

CC: Você é um poeta de uma fecundidade ímpar. Você mantém vários blogs na internet, como você consegue? Tudo começou com o vomitando imagens, não é? Fale um pouco sobre seus blogs. Quando você decidiu publicar na internet?
Douglas da Cunha Dias: Decidi publicar justo no dia do meu aniversário, 23 de setembro, ano de 2004. Eu estava no chat, conversando com a morphine e ela lançou o desafio: crie um blog. Bem, eu criei o vomitando imagens.
Não sei explicar, racionalmente, como mantenho esses blogs. Considero que cada um deles tem um perfil, expressa uma forma minha de olhar ao mundo, dizer o que sinto e o que invento. Sei que muitas vezes a quantidade de blogs prejudica a qualidade do que posto, mas não consigo livrar-me de nenhum deles. Alguns ficam um tempinho empoeirados, quase sem postagens – com regularidade mesmo, só o vomitando imagens (esse, sempre): o amores fúnebres, o eu, espantalho, o rascunhos em tons de brevidade e silêncio e, agora, o prelúdio ao homem de palha, o mais recente de todos e que é, na verdade, o que chamo de não-livro, um blog que terá três tomos, cada qual com uma estética-estilo, mas com um único tema. Também posto fotos nos blogs, em três deles, vomitando, deus e outros escombros e o prelúdio. Os demais apresentam ilustrações de pintores que admiro; o da natureza dos sonhos e o rascunhos não possuem qualquer imagem, só palavras.

CC: Qual é o seu método de criação?
Douglas da Cunha Dias: Há um autor chamado Paul Feyerabend, cujo livro “contra o método” orienta minhas intervenções acadêmicas. Por que eu teria método para poetar? Se há algum método na minha poesia, este é algo visceral, corpóreo. Afirmo que o não-método está lá, na origem do primeiro blog: vomitando imagens.

CC: Inspiração existe?
Douglas da Cunha Dias: Sim, existe. Inspiração, pra mim, é algo fundamentalmente visceral, emotivo, avesso ao racional, àquilo que é meticuloso. No meu caso, a inspiração está enraizada à respiração. Do sufoco ao êxtase, respiração, fluxo contínuo e incansável. Expirar e inspirar. Dito isso, não creio que o verbo anteceda à carne. O verbo é, antes, carne. A inspiração será carne ou não será, permita-me parafrasear o Breton.

CC: Qual a finalidade da poesia? É possível defini-la em uma única palavra?
Douglas da Cunha Dias: Não há finalidade alguma que pertença à poesia. Poesia não tem fim. Poesia é um eterno vir-a-ser, no sentido nietzscheano, com todo o peso e a leveza que isso implica. Deste modo, poesia está além de qualquer definição. Mas, uma palavra fala da poesia às minhas entranhas: suportar.

CC: Qual a importância da poesia na sua vida?
Douglas da Cunha Dias: Preenche-me daquilo que fui, alimenta-me daquilo que sou e revigora-me daquilo que serei.

CC: Como você definiria sua Poesia?
Douglas da Cunha Dias: Inquieta.

CC: Poesia para viver... De quê?
Douglas da Cunha Dias: Daquilo que pulsa.

CC: Você acredita em oficinas literárias?
Douglas da Cunha Dias: Elas têm a minha total descrença. Poesia não é algo que se ensine. Ou se aprenda.

CC: Qual a palavra mais bonita da língua portuguesa?
Douglas da Cunha Dias: Saudade. E isso não tem nada de clichê!

CC: Sua opinião sobre o acordo ortográfico.
Douglas da Cunha Dias: A linguagem tem várias possibilidades. A escrita, uma delas. O acordo não modificará a pronúncia das palavras, e isso é bem interessante. Sim, é fato que a língua é e deve ser viva, cambiante. Agora, incomoda-me saber que alguns acadêmicos reunidos decidem o que julgam ser o melhor para uma língua por milhões escrita-falada, a partir de critérios quase-arbitrários, movidos por interesses pouco claros, sequer consultando-nos sobre isso tudo. Talvez porque sejamos rebanho. Ou eles, iluminados, quem sabe.

CC: Qual personagem da literatura que mais marcou você?
Douglas da Cunha Dias: Chinaski.

CC: Dos poetas de hoje, quais são seus preferidos?
Douglas da Cunha Dias: Arnaldo Antunes. Rubens da Cunha. Carlos Besen. Gosto do que a Marianna T., a menina com quem namoro, escreve, embora apenas em blogs. Gabriela Kimura, literatura porrada. E o Antonio Gamoneda. Mas o meu hoje tem muito dos que já partiram: Rilke, Bukowski, Ted Hughes, Maiakovski, Jorge de Lima, Sylvia Plath.

CC: O que você está lendo no momento?
Douglas da Cunha Dias: Leio vários livros, ao mesmo tempo. Agora, Bukowski “O amor é um cão dos diabos”, Vicente Franz Cecim “Ó Serdespanto”, Lucy Figueiredo “Imagens Polifônicas - corpo e fotografia”, Zygmunt Bauman “Vida para consumo”, W. H. Auden “A mão do artista” e o Nietzsche, sempre.

CC: Hoje em dia todo mundo é “escritor”, todo mundo é “poeta”... Basta navegar um pouco pela internet para perceber isso. O que você acha disso? De cada 10 blogs, quantos, em sua opinião, são de Literatura?
Douglas da Cunha Dias: Há blogs de excelente qualidade. Literatura mesmo. Mas a quantidade de blogs vazios, recheados por pessoas vazias, é imensa. Assim, pensando em termos proporcionais, dois, no máximo três blogs a cada dez.

CC: Já que estamos falando em internet e blogs, indique um blog para os leitores do Balaio de Letras.
Douglas da Cunha Dias: Resposta difícil... só um? Se eu indicar o do
Rubens da Cunha vai parecer gratidão, porque ele indicou o meu. Assim, indico o blog do Carlos Sousa de Almeida (http://casoual.wordpress.com/) e o palavras sobrepostas, da Marianna (http://www.palavrassobrepostas.blogspot.com/) e assim acabo rompendo o limite da tua pergunta!

CC: Como anda a Literatura aí no PA? Você mantém contato com poetas daí?
Douglas da Cunha Dias: Nenhum contato. Não os conheço, tampouco eles a mim. Admiro, muito, a obra do Vicente Franz Cecim. Dos ditos novos poetas paraenses, os que por aqui são premiados com publicações e coisas do gênero, não gosto.

CC: Algum livro mudou sua maneira de ver e pensar o mundo? Você acredita que isso seja possível?
Douglas da Cunha Dias: Fazer revolução com um livro? Não creio. Creio que um livro possa mudar a nossa forma de ver-sentir-agir. No meu caso, não há um único livro, mas a obra do Nietzsche.

CC: Qual o sentido de tudo isso?
Douglas da Cunha Dias: Ir além. Com todos os sentidos. Em todos os sentidos.

CC: E o papel da poesia?
Douglas da Cunha Dias: Devorar-nos. E ser devorada. Pra que nada estanque.

CC: E o Brasil?
Douglas da Cunha Dias: É o país do futuro, que não chega.

CC: Pode-se dizer que você é inédito em livro, não é?
Ou o nosso livro cinza (*) conta como a primeira experiência em livro impresso? Fale um pouco sobre o livro cinza, já que a modéstia me impede de fazê-lo (risos).
Douglas da Cunha Dias: O livro cinza é minha única experiência em livro impresso e dele sinto muito orgulho. Por todo o processo que envolveu a criação, pela competência tua em administrar os encontros e desencontros, bem como a tua excelência em dar corpo ao livro cinza. Além disso, há a qualidade da poesia nele presente. Fico muito feliz de ter sido publicado ao teu lado e ao lado do Celso. Não sei se algum dia algo meu será publicado, mas o primeiro tem um sabor todo especial.

CC: O que você acha dos e-books?
Douglas da Cunha Dias: Gosto dos livros, do contato com as páginas, do cheiro, das dobraduras. Confesso que a princípio não me sinto atraído pelo formato dos e-books. Mas, enquanto veículo traz em si a essência da subversão. E isso me fascina.

CC: Navegar é preciso?
Douglas da Cunha Dias: Pra que as águas não estagnem. Sim, é preciso navegar.

CC: O navegar é impreciso?
Douglas da Cunha Dias: Por ser fluxo, ir e vir que não cabe em si, impreciso é. Precisa ser.

CC: O que você gostaria de ter falado e que eu não perguntei?
Douglas da Cunha Dias: Que há uma lanterna mágica (Breton mais uma vez) presente naquilo que escrevo.

CC: Qual palavra seria a mais apropriada para o fim de tudo?
Douglas da Cunha Dias: Quietude.

CC: Douglas da Cunha Dias por Douglas da Cunha Dias.
Douglas da Cunha Dias: Olhos docemente tristes. Sorriso que traz paz àqueles que me habitam. Amo, desesperadamente, até o tutano. Tenho a língua presa, sigmatismo lateral, o que faz a minha voz ser sempre de moleque. Poucos amigos, verdadeiros amigos. Guardo sonhos numa caixinha de fósforos. Gosto de silêncio. Rock e blues. Troco o dia pela noite (madrugada), como minha mãe sempre dizia. É isso. E bem mais que isso.


(*) Livro artesanal, com poemas de Douglas da Cunha Dias, Celso Boaventura e Cláudio B. Carlos (CC).

Entrevista concedida ao poeta e prosador Cláudio B. Carlos (CC).
Visite o blog do Douglas da Cunha Dias:
www.vomitandoimagens.blogspot.com

4 Comments:

Blogger marcia cardeal disse...

Adorei a entrevista com o DD (suspeita em falar porque sou fã dele!!!). Cê disse que queria falar comigo.. Pode ser por email? marciacardeal@gmail.com. bjs

19 Fevereiro, 2009 07:20  
Blogger Cláudio B. Carlos (CC) disse...

Márcia!

Pois é... o DD é bom, hehehe.

E-mail enviado.

Beijos.

19 Fevereiro, 2009 09:27  
Blogger Rubens da Cunha disse...

Douglas Cunha é o cara. Quando quero uns poemas porrada, para me tirar da estagnação passo num dos 'zilhões' de blogs dele, aproveito também pra sentir inveja de como ele como ele consegue manter tudo aquilo atualizado :)

parabéns pela entrevista.

Abraços

21 Fevereiro, 2009 07:02  
Blogger douglas D. disse...

lá no memórias
algo pra ti
( e desculpa pela entrevista pouco comentada. é que meu autismo é imenso ehehehe)
ah, obrigado pela publicação lá no outro blog!!
vlw!!!

04 Março, 2009 03:12  

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