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sábado, 24 de julho de 2010

Entrevista com Leonardo Brasiliense

Foto: Patricio Orozco-Contreras


Leonardo Brasiliense, escritor nascido em São Gabriel, e atualmente residindo em Santa Cruz, acaba de lançar Três dúvidas (novelas), pela Companhia das Letras. Conversei com o autor que será o homenageado da 23ª Feira do Livro de Santa Cruz do Sul.











CC: Três dúvidas é seu primeiro livro de maior fôlego. Você vinha apresentando um trabalho mais voltado ao miniconto, não é? Como se deu essa passagem do miniconto para a novela? Foi algo natural, ou planejado?


Leonardo Brasiliense: Na verdade minha dedicação maior ao miniconto se deu em apenas dois momentos: de 1994 a 1996, quando comecei a escrever, e em 2005, quando escrevi o Adeus conto de fadas, que é um livro de minicontos voltado para o público juvenil. Fora desses dois períodos, devo ter escrito uma meia-dúzia de minicontos. Minha produção principal sempre foi o conto “normal”, e entre 2001 e 2004 escrevi um romance, ainda inédito. O formato das novelas do Três dúvidas foi uma exigência das tramas, que não cabiam no conto.


CC: Fale um pouco sobre essas três novelas que compõem o Três dúvidas.


Leonardo Brasiliense: Eu fiz uma nota ao fim do livro (aliás, fui chamado de arrogante por uma crítica em função dela). Diz assim: “É simples: Um dia em comum, A grande ventura de Paulo Sérgio contada por ele mesmo três dias antes de morrer e O visitante referem-se a um dos fundamentos da humanidade, a dúvida. A primeira trata de dúvidas existenciais; a segunda, de uma dúvida essencial; e a terceira, da essência da dúvida. Toda a Literatura que mereça esse nome trabalha com uma ou outra. O resto é sociologia.”


CC: Você tem sete livros publicados: O desejo da Psicanálise, Meu sonho acaba tarde, Des(a)tino, Adeus conto de fadas, Olhos de Morcego, Whatever, e Três dúvidas. Com o Adeus conto de fadas você ganhou o Prêmio Jabuti em 2006. O que mudou depois que você ganhou o Prêmio?


Leonardo Brasiliense: A principal mudança foi o reconhecimento fora do meio literário. Aquela coisa de o vizinho saber que tu és escritor e dizer que te viu dando uma entrevista aqui ou ali.


CC: Você ganhou outros prêmios com esse mesmo livro. Quais foram?


Leonardo Brasiliense: Açorianos (Secretaria de Cultura de Porto Alegre), O Sul - Nacional e os Livros (Rede Pampa) e Livro do Ano (Associação Gaúcha de Escritores).


CC: O que você acha desses prêmios literários?


Leonardo Brasiliense: Eles dão uma certa credibilidade ao autor. As pessoas te tratam com mais respeito. Talvez desproporcional.


CC: Três dúvidas tem apresentação de Luiz Antonio de Assis Brasil. Você participou da Oficina de Criação Literária do Assis Brasil?


Leonardo Brasiliense: Não. Nunca tive oportunidade. Nunca morei em Porto Alegre. Mas aprendi muito com ele, não apenas lendo seus livros, mas também conversando e trocando emails.


CC: Quando foi seu primeiro contato com a Literatura?


Leonardo Brasiliense: De verdade, foi quando comecei a ler o Guimarães Rosa, na época da faculdade.


CC: Tem algum personagem da Literatura que sempre o acompanha?


Leonardo Brasiliense: O Henry Chinaski, que aparece em vários livros do Charles Bukowski.


CC: Fale um pouco sobre esse personagem.


Leonardo Brasiliense: Assim como todos os personagens do Bukowski, o que mais me atrai nele é que, apesar de toda a desgraça da vida, não é um suicida. Ele resiste, embora sem saber por que.


CC: Você gosta de todos os seus livros?


Leonardo Brasiliense: Sim. Mas, em momentos de “férias”, entre um projeto e outro, reescrevi os dois primeiros livros de contos, para o caso de algum dia serem republicados.


CC: Como é seu processo de criação? Você primeiro pensa para que a coisa aconteça, ou primeiro acontece a coisa para que você pense sobre?


Leonardo Brasiliense: Eu não começo a escrever a primeira linha sem ter todo o projeto do livro acabado. Ficaria perdido se não fizesse assim. Algumas coisas podem mudar no meio do caminho, claro, mas o guia tenho que ter pronto. O tempo gasto com o projeto geralmente é o mesmo (ou até maior) que o usado para escrever o texto.


CC: O que você espera da Literatura?


Leonardo Brasiliense: Na minha vida, que continue me proporcionando espaço para ela (a vida) ser maior do que é. Para a humanidade, que continue fazendo o mesmo com a vida das pessoas. Isso tem lá seus resultados.


CC: O que você pretende?


Leonardo Brasiliense: Continuar escrevendo, mas não apenas livros. Agora estou estudando roteiro de cinema, o que me levou também a começar a trabalhar com fotografia. Vejo isso tudo atuando dentro de mim no mesmo sentido, não são coisas separadas.


CC: Para que serve tudo isso?


Leonardo Brasiliense: Para fazer barulho. O artista é uma chaleira que apita. Não basta que a pressão alivie com a saída do vapor, ela tem que sair fazendo barulho. Por quê? Se alguém souber a resposta, me conte, por favor.


CC: Você será o escritor homenageado da 23ª Feira do Livro de Santa Cruz do Sul (de 28 de agosto a 5 de setembro de 2010). Como é isso? Qual é a sensação?


Leonardo Brasiliense: Para mim isso significa reconhecimento do meu trabalho e ao mesmo tempo um sinal de acolhida desta cidade onde moro há quase três anos. Isso mostra que os promotores culturais de Santa Cruz (especialmente o SESC) conseguem mapear e colocar em evidência sua produção artística.


CC: O patrono da Feira será João Ubaldo Ribeiro. O que você teria a dizer sobre o João Ubaldo?


Leonardo Brasiliense: É um grande escritor. Um autor que consegue conciliar a tradução da alma do indivíduo com a do povo de seu lugar, de seu país.


CC: Quem você ainda não leu, e que gostaria de ler?


Leonardo Brasiliense: Li pouco do Borges, uns três livros, se não me engano. Tenho a coleção da obra completa em casa, há anos. Quero parar uma hora dessas e mergulhar mais fundo nele.


CC: Quem você não leu e nem vai ler?


Leonardo Brasiliense: Pergunta difícil. Não li muita gente, mas posso morder a língua se disser que “desta água não beberei”. Já li até Paulo Coelho.


CC: Você se arrependeu de ler o quê?


Leonardo Brasiliense: Pois é, o Paulo Coelho (risos).






Entrevista concedida ao poeta e prosador Cláudio B. Carlos (CC).


Sites do Leonardo Brasiliense: http://www.leonardobrasiliense.com.br/ e http://www.leonardobrasiliense.blogspot.com/



10 comentários:

Eduardo Silveira disse...

entrevista bacana. o único livro dele que eu li foi justamente esse premiado 'Adeus contos de fadas' Gostei de alguns minicontos, e até me surpreendi com o fato de ser premiado pelo Jabuti na categoria juvenil. eu achei legal, na época. livro para se reler qualquer hora. ^^

Jorcenita disse...

Que mistura bem boa : poeta e prosador entrevistando escritor.

Luiz Alberto Machado disse...

Parabens pela entrevista. Este espaço está cada vez melhor. Indicarei nas minhas páginas, aguarde.
Abração
www.luizalbertomachado.com.br

Valdeck Almeida de Jesus disse...

Parabéns pelas obras e pelos prêmios...

Também faço barulho, para mexer com a sociedade e comigo mesmo. O resultado, também não sei. Se você descobrir primeiro, mande-me um e-mail contando: valdeck2007@gmail.com

Não me arrependi de ler Paulo Coelho, pois não li nada dele ainda...

Abração e boa sorte.

Valdeck Almeida de Jesus
Escritor, Poeta e Jornalista
www.galinhapulando.com

Cláudio B. Carlos (CC) disse...

Eduardo!

Valeu!

Volte sempre.

Cláudio B. Carlos (CC) disse...

Jorce!

Beijos.

Cláudio B. Carlos (CC) disse...

Lualma!

Obrigado.

Grande abraço.

Cláudio B. Carlos (CC) disse...

Valdeck!

:-)

Ádlei Duarte de Carvalho disse...

Excelente entrevista!

Grande abraço.

Cláudio B. Carlos (CC) disse...

Ádlei!

Excelente comentário! Hahahahahaha.