Foto: Patricio Orozco-Contreras
Leonardo Brasiliense, escritor nascido em São Gabriel, e atualmente residindo em Santa Cruz, acaba de lançar Três dúvidas (novelas), pela Companhia das Letras. Conversei com o autor que será o homenageado da 23ª Feira do Livro de Santa Cruz do Sul.
CC: Três dúvidas é seu primeiro livro de maior fôlego. Você vinha apresentando um trabalho mais voltado ao miniconto, não é? Como se deu essa passagem do miniconto para a novela? Foi algo natural, ou planejado?
Leonardo Brasiliense: Na verdade minha dedicação maior ao miniconto se deu em apenas dois momentos: de 1994 a 1996, quando comecei a escrever, e em 2005, quando escrevi o Adeus conto de fadas, que é um livro de minicontos voltado para o público juvenil. Fora desses dois períodos, devo ter escrito uma meia-dúzia de minicontos. Minha produção principal sempre foi o conto “normal”, e entre 2001 e 2004 escrevi um romance, ainda inédito. O formato das novelas do Três dúvidas foi uma exigência das tramas, que não cabiam no conto.
CC: Fale um pouco sobre essas três novelas que compõem o Três dúvidas.
Leonardo Brasiliense: Eu fiz uma nota ao fim do livro (aliás, fui chamado de arrogante por uma crítica em função dela). Diz assim: “É simples: Um dia em comum, A grande ventura de Paulo Sérgio contada por ele mesmo três dias antes de morrer e O visitante referem-se a um dos fundamentos da humanidade, a dúvida. A primeira trata de dúvidas existenciais; a segunda, de uma dúvida essencial; e a terceira, da essência da dúvida. Toda a Literatura que mereça esse nome trabalha com uma ou outra. O resto é sociologia.”
CC: Você tem sete livros publicados: O desejo da Psicanálise, Meu sonho acaba tarde, Des(a)tino, Adeus conto de fadas, Olhos de Morcego, Whatever, e Três dúvidas. Com o Adeus conto de fadas você ganhou o Prêmio Jabuti em 2006. O que mudou depois que você ganhou o Prêmio?
Leonardo Brasiliense: A principal mudança foi o reconhecimento fora do meio literário. Aquela coisa de o vizinho saber que tu és escritor e dizer que te viu dando uma entrevista aqui ou ali.
CC: Você ganhou outros prêmios com esse mesmo livro. Quais foram?
Leonardo Brasiliense: Açorianos (Secretaria de Cultura de Porto Alegre), O Sul - Nacional e os Livros (Rede Pampa) e Livro do Ano (Associação Gaúcha de Escritores).
CC: O que você acha desses prêmios literários?
Leonardo Brasiliense: Eles dão uma certa credibilidade ao autor. As pessoas te tratam com mais respeito. Talvez desproporcional.
CC: Três dúvidas tem apresentação de Luiz Antonio de Assis Brasil. Você participou da Oficina de Criação Literária do Assis Brasil?
Leonardo Brasiliense: Não. Nunca tive oportunidade. Nunca morei em Porto Alegre. Mas aprendi muito com ele, não apenas lendo seus livros, mas também conversando e trocando emails.
CC: Quando foi seu primeiro contato com a Literatura?
Leonardo Brasiliense: De verdade, foi quando comecei a ler o Guimarães Rosa, na época da faculdade.
CC: Tem algum personagem da Literatura que sempre o acompanha?
Leonardo Brasiliense: O Henry Chinaski, que aparece em vários livros do Charles Bukowski.
CC: Fale um pouco sobre esse personagem.
Leonardo Brasiliense: Assim como todos os personagens do Bukowski, o que mais me atrai nele é que, apesar de toda a desgraça da vida, não é um suicida. Ele resiste, embora sem saber por que.
CC: Você gosta de todos os seus livros?
Leonardo Brasiliense: Sim. Mas, em momentos de “férias”, entre um projeto e outro, reescrevi os dois primeiros livros de contos, para o caso de algum dia serem republicados.
CC: Como é seu processo de criação? Você primeiro pensa para que a coisa aconteça, ou primeiro acontece a coisa para que você pense sobre?
Leonardo Brasiliense: Eu não começo a escrever a primeira linha sem ter todo o projeto do livro acabado. Ficaria perdido se não fizesse assim. Algumas coisas podem mudar no meio do caminho, claro, mas o guia tenho que ter pronto. O tempo gasto com o projeto geralmente é o mesmo (ou até maior) que o usado para escrever o texto.
CC: O que você espera da Literatura?
Leonardo Brasiliense: Na minha vida, que continue me proporcionando espaço para ela (a vida) ser maior do que é. Para a humanidade, que continue fazendo o mesmo com a vida das pessoas. Isso tem lá seus resultados.
CC: O que você pretende?
Leonardo Brasiliense: Continuar escrevendo, mas não apenas livros. Agora estou estudando roteiro de cinema, o que me levou também a começar a trabalhar com fotografia. Vejo isso tudo atuando dentro de mim no mesmo sentido, não são coisas separadas.
CC: Para que serve tudo isso?
Leonardo Brasiliense: Para fazer barulho. O artista é uma chaleira que apita. Não basta que a pressão alivie com a saída do vapor, ela tem que sair fazendo barulho. Por quê? Se alguém souber a resposta, me conte, por favor.
CC: Você será o escritor homenageado da 23ª Feira do Livro de Santa Cruz do Sul (de 28 de agosto a 5 de setembro de 2010). Como é isso? Qual é a sensação?
Leonardo Brasiliense: Para mim isso significa reconhecimento do meu trabalho e ao mesmo tempo um sinal de acolhida desta cidade onde moro há quase três anos. Isso mostra que os promotores culturais de Santa Cruz (especialmente o SESC) conseguem mapear e colocar em evidência sua produção artística.
CC: O patrono da Feira será João Ubaldo Ribeiro. O que você teria a dizer sobre o João Ubaldo?
Leonardo Brasiliense: É um grande escritor. Um autor que consegue conciliar a tradução da alma do indivíduo com a do povo de seu lugar, de seu país.
CC: Quem você ainda não leu, e que gostaria de ler?
Leonardo Brasiliense: Li pouco do Borges, uns três livros, se não me engano. Tenho a coleção da obra completa em casa, há anos. Quero parar uma hora dessas e mergulhar mais fundo nele.
CC: Quem você não leu e nem vai ler?
Leonardo Brasiliense: Pergunta difícil. Não li muita gente, mas posso morder a língua se disser que “desta água não beberei”. Já li até Paulo Coelho.
CC: Você se arrependeu de ler o quê?
Leonardo Brasiliense: Pois é, o Paulo Coelho (risos).
Entrevista concedida ao poeta e prosador Cláudio B. Carlos (CC).
Sites do Leonardo Brasiliense: http://www.leonardobrasiliense.com.br/ e http://www.leonardobrasiliense.blogspot.com/


10 comentários:
entrevista bacana. o único livro dele que eu li foi justamente esse premiado 'Adeus contos de fadas' Gostei de alguns minicontos, e até me surpreendi com o fato de ser premiado pelo Jabuti na categoria juvenil. eu achei legal, na época. livro para se reler qualquer hora. ^^
Que mistura bem boa : poeta e prosador entrevistando escritor.
Parabens pela entrevista. Este espaço está cada vez melhor. Indicarei nas minhas páginas, aguarde.
Abração
www.luizalbertomachado.com.br
Parabéns pelas obras e pelos prêmios...
Também faço barulho, para mexer com a sociedade e comigo mesmo. O resultado, também não sei. Se você descobrir primeiro, mande-me um e-mail contando: valdeck2007@gmail.com
Não me arrependi de ler Paulo Coelho, pois não li nada dele ainda...
Abração e boa sorte.
Valdeck Almeida de Jesus
Escritor, Poeta e Jornalista
www.galinhapulando.com
Eduardo!
Valeu!
Volte sempre.
Jorce!
Beijos.
Lualma!
Obrigado.
Grande abraço.
Valdeck!
:-)
Excelente entrevista!
Grande abraço.
Ádlei!
Excelente comentário! Hahahahahaha.
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