BICHO-HOMEM
A possível poética da bovina vida humana
– será possível a poética?
Eis aqui uma prosa louca
, que insiste em ser poema.
Primeira parte: a necessidade
O homem, muitas vezes, acostuma-se à sua
condição de bicho marcado. Sua resignação o faz
sentar nos garrões enquanto espera o que não vem: e
porque não vem o que ele espera,
passa também o boi-tempo, passa a vida com
suas idas e vindas. Passa de tudo, menos
o trem.
Segunda parte: a solidão
Pior cego é aquele que não quer ver.
A desculpa é a bengala.
A solidão pior de todas é a de se estar rodeado.
O homem, muitas vezes, por ser só,
paga o que não tem preço,
compra o que não devia ser vendido.
Aí, depois, já era, já foi.
O homem é cão do homem na sua vida de boi...
Terceira parte: a repulsa
O homem é bicho marcado sob o sol
do bom deus.
Quando não tem, o homem sente na
pele o calor da brasa, que arde feito
chaga. Quando falta o pouco, aí já não
falta muito pra ele sentir a repulsa dos
seus. Quando o nada abunda, ilha é o
boi. A miséria, num beijo de morte,
lança-lhe a sina, lambe-lhe os beiços.
Na vida o que fica, depois de tanto
andar, é a fome, filha do homem, a
viver em outras bocas com a mesma
falta de dentes e de sorte de sempre.