Eu não queria ouvir o que ela tinha
para falar. Como num transe, eu apenas via o mexer dos lábios murchos da velha,
sua dentadura frouxa, e o bailar de sua língua saburrosa. Tudo sem som. Eu não
escutava nadica de nada. O buço da velha lhe sombreava o lábio, e se misturava
com os pelos que lhe saíam pelas ventas. Vez em quando algum perdigoto da
bruaca me atingia o rosto. Eu permanecia imóvel. Eu não queria ouvir nada.
Nadica de nada. No pátio um dos piás chutou a pelota, que entrou pela porta da
cozinha, bateu no pé do fogão a lenha, depois no pé da mesa, espantou o gato
que passava preguiçoso, veio girando, girando, girando, até que esbarrou em
mim, me tirando do torpor. Lá fora começava um chuvisqueiro finíssimo, parecido
com neve. E eu que não queria ouvir o que ela tinha para falar escutei a última
frase do falatório da velha espanhola: O velho está morto.
Do livro O palhaço do circo sem graça (a sair em 2012)
4 comentários:
bom pra caraio!
Abração!
Berzé
Berzé!
Valeu!
muito bom!
Douglas!
Feliz 2012!
Abraço.
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