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quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

DIA DAS MÃES



 Imagem: Cândido Portinari


Era um chão de terra batida. O vento enovelava o cisco. Havia um choro comprido: quatro ou cinco pessoas. E um cachorro, a um canto, dormitando. Maria enterrava o filho. Era o segundo domingo de maio.



Do livro Narrativas Mínimas.





segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Sobre influências & outras coisinhas




Eu não veria a Arte do modo como vejo, nem escreveria como eu escrevo, se não tivesse sofrido a indelével influência de Bebeto Alves. Quando eu conheci a Música do Bebeto (que para mim é também Literatura), na minha adolescência (em Restinga Seca), descobri que minha inquietação tinha nome: Poesia. E nunca mais fui o mesmo. Ainda bem. Gracias, Bebeto!

domingo, 11 de dezembro de 2011

TORPOR


Eu não queria ouvir o que ela tinha para falar. Como num transe, eu apenas via o mexer dos lábios murchos da ve­lha, sua dentadura frouxa, e o bailar de sua língua sabur­rosa. Tudo sem som. Eu não escutava nadica de nada. O buço da velha lhe sombreava o lábio, e se misturava com os pelos que lhe saíam pelas ventas. Vez em quando al­gum perdigoto da bruaca me atingia o rosto. Eu permane­cia imóvel. Eu não queria ouvir nada. Nadica de nada. No pátio um dos piás chutou a pelota, que entrou pela porta da cozinha, bateu no pé do fogão a lenha, depois no pé da mesa, espantou o gato que passava preguiçoso, veio gi­rando, girando, girando, até que esbarrou em mim, me ti­rando do torpor. Lá fora começava um chuvisqueiro finís­simo, parecido com neve. E eu que não queria ouvir o que ela tinha para falar escutei a última frase do falatório da velha espanhola: O velho está morto.


Do livro O palhaço do circo sem graça (a sair em 2012)