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terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Entrevista com Ádlei Duarte de Carvalho







Ádlei Duarte de Carvalho é poeta e romancista. Mineiro de Belo Horizonte, nascido em 1969, é autor de três livros: A Travessia (romance), que tive a honra de prefaciar, Todas as Palavras de Amor (poesias) e Triângulo Vermelho (romance), que Cínthia Casagrande e eu tivemos o privilégio de editar. Ádlei publica na internet (no blog Verso e Reverso). 



CC: Você passou a infância no interior de Minas, em João Monlevade, né? Fale sobre.
Ádlei Duarte de Carvalho: Tive a sorte de uma infância feliz. Primogênito, cresci cercado pelo carinho, amor e atenção dos meus pais e irmãos. Afora isso, as cidades do interior são boas para os pirralhos. A sensação de segurança dos pais permite maior liberdade aos filhos, ensejando-lhes as mais diversas travessuras. Tal foi o que se deu comigo. Gozei, na infância, de tanta liberdade quanto se poderia dar a um menino na década de 70. De outro lado, sempre fui um garoto responsável. Fazia o dever de casa antes de ganhar a rua. Todavia, nunca abri mão das peraltices próprias da meninice.

  
CC: Quando você se tornou leitor? E quando se tornou escritor?
Ádlei Duarte de Carvalho: Comecei a ler ainda muito novo. Meu pai lecionou várias matérias, mas se dedicou mais à Língua e Literatura Brasileira. Recebia muitos livros de editoras e, por essa razão, havia sempre algo novo para ler em nossa casa. Creio que, aos dez ou onze anos, eu já havia lido toda a Coleção Vaga-Lume e outras obras mais como, por exemplo, O Diário de Dany, de Michel Quoist, e O Pequeno Príncipe, do Exupéry. Não obstante isso, o meu interesse mais incisivo pela literatura, naquela época, recaiu sobre a poesia. Eu tinha oito anos quando meu pai me deu para ler o poema Meus oito anos, do Casimiro de Abreu. Gostei tanto que decorei. Certa ocasião, despertei no meio da noite e tomei o rumo da sala, onde meus pais recebiam amigos. Não me recordo bem o porquê, mas acabei recitando o poema inteiro e, enquanto o fazia, notei que os olhos dos meus pais se enchiam de luz. Daí por diante, passei a buscar outros versos para ler, decorar e recitar. Cerca de um ano depois, decidi escrever meus próprios versinhos, que tratavam, claro, das coisas simples da infância, mas atraíam a atenção dos meus pais, avós, tios, professores... Desde aquela época, nunca parei de escrever. Na adolescência, sempre me convocavam para redigir algo sobre datas comemorativas, pessoas, símbolos da Pátria e coisas do gênero. Mais tarde, passei a publicar crônicas e contos em uma revista de João Monlevade, denominada Agenda Cultural, afora as poesias e textos para teatro.

 
CC: Qual o papel da internet em sua Literatura? Fale um pouco sobre seu blog.
Ádlei Duarte de Carvalho: A internet é hoje muito importante para a divulgação de trabalhos literários, além de permitir um saudável intercâmbio entre escritores. Conheci muitos através das suas publicações na rede e, igualmente, tornei-me conhecido deles e de outros que me leem. Ainda sou apaixonado pela obra impressa, pelo papel, mas não há como negar a importância da internet, hoje, para o tráfego de literatura. Afora isso, claro, a internet é uma boa fonte de pesquisas e, como sou também romancista, muitas vezes busco nela os dados necessários àquilo em que estou trabalhando.
Meu blog nasceu de uma necessidade de mostrar o meu trabalho. Creio que todo artista sofre de exibicionismo em maior ou menor grau. Isso é natural e necessário à arte. Ninguém pinta, esculpe, compõe uma canção, ensaia uma peça de teatro ou escreve apenas para si mesmo. Chega um momento em que a arte pede para sair de dentro do artista porque, do contrário, não sobreviverá. O blog é mais voltado para a poesia, porque é mais facilmente publicável por esse meio, mas contém também informações sobre meus romances e sobre os trabalhos de outros escritores que admiro.

CC: - Qual sua relação com o mercado editorial?
Ádlei Duarte de Carvalho: Vejo o mercado editorial brasileiro dividido hoje em dois segmentos bastante claros: o primeiro é formado pelas chamadas grandes editoras, aquelas que recebem a obra, revisam (nem sempre muito bem), diagramam, elaboram a capa, publicam, distribuem e adotam ações de marketing voltadas para as suas publicações. A outra parte do mercado, que vem crescendo visivelmente nos últimos anos, é formada por editoras de pequeno a médio porte, ou por grupos de gráficas que publicam obras literárias mediante pagamento do custo pelo autor, ou até mesmo gratuitamente, com venda sob demanda. Vejo problemas em ambos os segmentos. É perceptível que as editoras incluídas no primeiro grupo têm crescentemente abandonado a literatura criativa – aquela nascida do imaginário do artista – para se dedicarem mais à publicação de coisas que, segundo julgam, lhes garantirão retorno financeiro mais rápido, como biografias, ensaios jornalísticos, livros de culinária, transcrições de filmes de sucesso no cinema, etc. Quando decidem pela publicação de um romance, por exemplo, será sempre uma obra já com alguma garantia de sucesso de vendagem, não pela sua qualidade intrínseca, mas, sobretudo, pela notoriedade do autor ou por sua exposição na mídia. Nesse cenário, apresentadores de TV, atores e compositores já consagrados, jornalistas famosos e outros que, de algum modo, conseguiram exposição midiática são entendidos como publicáveis. Não quero dizer, com isto, que obras vindas dessas fontes sejam ruins, mas que, mesmo não sendo boas, serão publicadas.
Do mesmo modo, a outra parcela do mercado editorial – aquela formada pelas editoras menores – é ainda muito falha, embora seja a alternativa mais viável aos escritores não midiáticos. O grande problema das editoras desse grupo é que, quase sempre, fazem apenas o trabalho gráfico e alguma pequena divulgação. Não se preocupam muito com o conteúdo da obra enquanto criação artística, tampouco com a qualidade da escrita. Por isso, acabam publicando muito lixo, comprometendo até mesmo a imagem dos bons autores que têm por clientes. É uma proposta interessante – na medida em que abre portas a um grande contingente de autores que, de outro modo, não seriam publicados –, mas pode ser melhorada.
Percebo que o mercado editorial brasileiro padece de uma preguiça imensa de buscar novos escritores de talento. Os grandes editores querem os já consagrados ou, pelo menos, aqueles que tenham um nome atraente. Os pequenos e médios editores abdicam de tudo isso, inclusive da qualidade. Esse comportamento do mundo editorial conduz a um empobrecimento gradual da literatura brasileira, com natural enfraquecimento da própria língua. Não é por acaso que, hoje, uma boa parcela da nossa população adolescente não sabe escrever corretamente uma palavra de três letras.


CC: É possível definir sua Literatura em apenas uma palavra?
Ádlei Duarte de Carvalho: Alma.

 
CC: Fale um pouco sobre Triângulo Vermelho, seu livro mais recente.
Ádlei Duarte de Carvalho: Toda obra artística nasce da inquietação, não é? Um escultor, por exemplo, olha a pedra e algo lhe revolve o espírito, instigando-o a libertar de dentro dela a figura aprisionada.
Triângulo Vermelho surgiu de uma inquietação oriunda da minha própria ignorância. Certa ocasião notei quanto eram superficiais os meus conhecimentos sobre a transferência da Capital Mineira de Ouro Preto para Belo Horizonte, cidade planejada e construída para esse fim. Os motivos desse evento, os seus impactos e muitos outros aspectos me eram absolutamente incógnitos, assim como deveriam ser para grande parte do povo mineiro e brasileiro.
Decidi então escrever um romance ficcional cuja trama se desenvolvesse exatamente nesse cenário real: as Minas Gerais dos últimos anos do Século XIX. Por essa razão, quis inserir no livro um grande número de notas de rodapé que, embora prescindíveis para o romance em si, são importantes enquanto informações históricas, geográficas e sociais. Meu desejo era de trazer à luz uma obra que não apenas proporcionasse entretenimento, mas, também, conhecimento.
A trama começa em uma fazenda da região mineira do Médio Piracicaba, depois se transfere para Belo Horizonte, então em construção. A pesquisa histórica foi feita pela Lilian Mari Santana de Carvalho, a revisão e a diagramação são do escritor Cláudio B. Carlos (conhece?) e a capa é da Cínthia Casagrande.

 
CC: Cláudio B. Carlos? Conheço de vista. Ele mora dentro do meu espelho (risos). E agora que o livro foi publicado, como você se sente?
Ádlei Duarte de Carvalho: Estou feliz com o resultado final, sobretudo pelo retorno que tenho recebido das pessoas que leram ou que estão lendo o livro.



CC: Analisando sua obra, hoje, você mudaria alguma coisa?
Ádlei Duarte de Carvalho: Aprendi a me resignar com as minhas criações ou, melhor, com as minhas limitações. Chega um ponto em que a gente tem que dar um basta e publicar porque, do contrário, serão intermináveis as alterações (não estou falando aqui das revisões, que têm que ser realizadas, a meu ver, quantas vezes forem necessárias). Sempre queremos mudar algo daquilo que fizemos. Carregamos involuntariamente esse sentimento de que poderíamos ter feito melhor. Isso é bom para a nossa evolução, enquanto artistas. Entretanto, é preciso contextualizar cada livro. Se eu tomasse para reler, por exemplo, A Travessia, meu primeiro romance, cujo texto foi escrito em 1996, é óbvio que encontraria ainda nele muita coisa que eu mudaria. Sou hoje mais maduro, inclusive artisticamente, do que há 16 anos. Nada obstante, vejo aquele livro como um registro da minha literatura naquele momento da minha existência e, sob esse enfoque, acho que não seria bom mudar qualquer vírgula. Pretendo um dia olhar toda a minha criação e perceber nela algum traço evolutivo, o que não seria possível se eu mudasse indefinidamente o que já foi feito. 

 
CC: Você se considera essencialmente poeta, ou romancista?
Ádlei Duarte de Carvalho: Isso é um pouco complicado. Gosto de dar aos meus romances um toque de poesia. Costumo dizer que escrevo poesia por necessidade e romance por prazer. Acho, entretanto, que na raiz da minha literatura está a poesia. Por isso, poderia dizer que sou poeta em essência, embora minha prosa seja melhor que minha poesia.


CC: Você vive em Belo Horizonte há muito tempo. Como é a cena literária em BH?
Ádlei Duarte de Carvalho: Belo Horizonte é um celeiro de bons escritores. Sempre foi. No entanto, sinto entre nós um distanciamento tão perturbador quanto inoperante. Não nos unimos, não nos organizamos e, por isso, não alavancamos grandes projetos para a nossa literatura. Hoje, por exemplo, me relaciono muito mais com escritores de outros Estados (São Paulo, Rio Grande do Sul, Ceará, Paraíba, Distrito Federal, etc.), do que com os da minha cidade. Acho que uma aproximação maior entre os escritores poderia impulsionar a criação e a exposição da literatura belo-horizontina.



CC: O que você está lendo no momento?
Ádlei Duarte de Carvalho: No momento leio As esquisitices do óbvio, bela obra que me foi enviada pelo autor Manuel Soares Bulcão Neto, na qual reúne alguns de seus ensaios filosóficos. 

CC: Qual personagem da literatura que mais marcou você?
Ádlei Duarte de Carvalho: Jean Valjean (Os Miseráveis, de Victor Hugo) é, para mim, sem dúvida alguma, o mais belo personagem fictício da literatura mundial.

CC: E o Brasil?
Ádlei Duarte de Carvalho: O Brasil é um gigante-menino que começa a adolescer. São visíveis as nossas conquistas dos últimos anos, inclusive pela posição de destaque que temos alcançado no cenário mundial em várias vertentes (econômica, política, artística, etc.), indicando-nos que estamos em rota de evolução. Todavia, ainda há muito a se fazer. Precisamos educar melhor nossas crianças e jovens, combater a violência, a miséria, a corrupção e outras mazelas que impedem o nosso País de crescer com robustez e os nossos cidadãos de viverem em plenitude todas as suas potencialidades, que são muitas.


CC: O que você pretende?
Ádlei Duarte de Carvalho: Viver o suficiente para ver o meu País vencendo as suas mazelas e garantindo o bem-estar social. 

CC: Qual a palavra mais bonita da língua portuguesa?
Ádlei Duarte de Carvalho: Amor.

 
CC: Para que serve tudo isso?
Ádlei Duarte de Carvalho: Tudo o que existe tem alguma finalidade útil. As estrelas, por exemplo, servem para muita coisa mais importante do que agradar aos nossos olhos. Dentre muitas outras funções, respondem pelo equilíbrio cósmico e pela irradiação do calor e da energia que sustentam as mais variadas formas de vida dos planetas que as orbitam. Igualmente, as bactérias são fundamentais à existência. Desempenham, por exemplo, importante papel no Ciclo do Nitrogênio, elemento estrutural dos aminoácidos que compõem os nossos corpos físicos. O mais incrível é que só o homem não consegue encontrar o seu papel dentro do fenômeno existencial, talvez por sua mania de complicar tudo o que é simples e óbvio. Tudo serve a todos. A existência é uma relação de troca ininterrupta e eterna de energias, fluidos e matérias entre tudo o que existe. Cada um de nos é um átomo do todo. Por isso é que não posso crer que tudo tenha surgido do nada por obra do acaso.


CC: Sua biblioteca está em chamas: qual livro você tentaria salvar primeiro? Por quê?
Ádlei Duarte de Carvalho: Certa feita, indagado sobre algo semelhante, Gandhi disse que, caso se queimassem todos os livros da Terra e apenas sobrasse o Sermão do Monte, de Jesus Cristo, a humanidade ainda assim teria o maior código de moral e ética de que pudesse necessitar. Num incêndio daquela magnitude, provavelmente eu salvaria o Sermão do Monte. Como, entretanto, a sua pergunta se restringiu à minha biblioteca, eu tentaria salvar primeiro o livro Por uma piscina ao lado, novelinha de Alberto Barroca, escritor mineiro já falecido, por ser, talvez, a única obra da minha coleção que eu jamais conseguiria recuperar.  


CC: Literatura para viver... De quê?
Ádlei Duarte de Carvalho: Salvo casos excepcionais, ninguém vive de literatura. No Brasil, isso não dá dinheiro, a menos que você decida revelar as suas aventuras sexuais – e que elas sejam de impressionar –, ou que, de algum modo, explore o mundo metafísico. Todavia, a literatura é fundamental para a formação intelectual, a expansão do imaginário, o desenvolvimento da sensibilidade. Sob esse prisma, creio que é preciso literatura para viver.


CC: Dos escritores de hoje, quais são seus preferidos?
Ádlei Duarte de Carvalho: Ah, são muitos. Considerando de hoje os que estão vivos (até onde eu sei, hehehehe), citarei apenas alguns exemplos, tomados por ordem alfabética: Adélia Prado, Affonso Romano, Ana Miranda, Ariano, Carlos Lúcio Gontijo, Chico Buarque, Cláudio B. Carlos, Cleber Pacheco, Fal Azevedo, Ferreira Gullar, Leonardo Brasiliense, Luís Fernando Veríssimo, Nilto Maciel, Rubem Alves, Rubem Fonseca e muitos outros. Difícil lembrar todos os nomes e, nesses casos, corremos sempre o risco de cometermos injustiças. Que me perdoem, então, os que se sabem queridos por mim e não foram aqui citados. Recentemente conheci a literatura da jovem Ângela Calou e do Poeta de Meia-Tigela, amigos cearenses. Fiquei encantado!


CC: Agradeço a deferência (risos). O que você gostaria de ter falado e que eu não perguntei?
Ádlei Duarte de Carvalho: Acho que suas perguntas exploraram bem a minha alma. Ainda assim, eu gostaria muito de poder lhe ter respondido algo do tipo: sim, você pode depositar aqueles R$ 10.000.000,00 na minha seguinte conta: xxxxx (hehehe).


CC: Ádlei Duarte de Carvalho por Ádlei Duarte de Carvalho.
Ádlei Duarte de Carvalho: Considerando apenas o que de fato interessa, sou um homem feliz. Feliz pela família que tenho e pelos muitos amigos que construí até aqui, feliz por ter conquistado o que me é essencial, feliz por me reconhecer um ser em evolução e, por isso mesmo, poder carregar os meus defeitos sem culpa, mas sempre com o firme propósito de me melhorar a cada dia. Sou um aprendiz!



 
Ádlei Duarte de Carvalho integra, juntamente com Cleber Pacheco, Fal Azevedo e este entrevistador,
o Grupo de Escritores O Bodoque.


A entrevista foi concedida por e-mail, em janeiro de 2012.
Contato com o entrevistado: adleidecarvalho@gmail.com








3 comentários:

Ádlei Duarte de Carvalho disse...

Amigo, muitíssimo obrigado! Foi muito bom poder bater esse papo contigo!

Abraço!

O POETA DE MEIA-TIGELA disse...

Quando a Poesia espalma
O Ser e nele se instaura,
Faz Morada, tudo é Aura:
Tornam-se, Corpo & Mente, ALMA.

ABRAÇOS TIGELÁLMICOS PARA CLÁUDIO E ÁDLEI.

Cláudio B. Carlos (CC) disse...

Poeta!

Grato pela visita.

Grande abraço.