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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Entrevista com Cleber Pacheco


Cleber Pacheco é gaúcho, nascido em Esmeralda, em 1965. Mestre em Literatura Brasileira e Especialista em Filosofia. É poeta, contista, romancista, dramaturgo, crítico literário e artista plástico. Tem vários livros publicados. Na área do Teatro ganhou o Prêmio Qorpo Santo, em 1996, com a peça Intimidades. Publica na internet (no blog Translittera).   

CC: Será que me esqueci de alguma coisa? Quantos livros são ao todo? Alguns deles tivemos (Cínthia e eu) o privilégio de editar.
Cleber Pacheco: Tem o meu trabalho na área de Terapias Complementares, chamadas também de Alternativas. É o que faço diariamente, não apenas para sobrevivência, mas como missão de vida. Acredito nisso. Há uma interação profunda com as pessoas, um compartilhamento que vai muito além do comum. Tenho aprendido imensamente e agradeço todos os dias pela oportunidade de realizar tal tarefa. É um privilégio.
Quanto aos livros, são dez publicados individualmente e participação em vinte e cinco antologias.


 
CC: Você vive em Esmeralda. Sempre viveu aí? Como é a vida, para uma mente em constante ebulição, como a sua, numa cidadezinha com pouco mais de 3.000 habitantes?
Cleber Pacheco: Estive fora por alguns anos. Morei em Passo Fundo, onde fiz o curso de Letras e Filosofia e, posteriormente, para lecionar na Universidade como professor de Literatura do RS, Brasileira e Portuguesa. Depois fiquei dois anos e meio em Porto Alegre para fazer o curso de Mestrado em Literatura Brasileira.
Estou ainda aqui por acreditar no meu trabalho como uma missão que, por ora, precisa ser cumprida neste local.
Não tenho nenhum receio de falar que é um ambiente extremamente hostil e de total indigência intelectual e cultural. Não recebo apoio algum. Ao contrário, sofro perseguição política há uns dez anos por ter criticado a administração municipal no jornal da cidade. Sou boicotado até hoje. É como na época da ditadura. Cheguei a ser seguido em viagens e espionado. Minha casa, não raro, é cercada por pessoas. A estratégia é realizar uma total desmoralização para inviabilizar o meu trabalho por completo por meio da calúnia, da difamação, da intimidação. Não há limites para isso, nada é suficientemente baixo que eles não sejam capazes de fazer. Vale tudo. É um caso de mau-caratismo explícito. Onde falta inteligência, não há argumentos, mas bestialidade pura e simples. Enquanto isso, na cidade, a bandalheira corre solta. É avidya, ou seja, ignorância em sua plenitude. Para lidar com isso, é preciso vidya, conhecimento e viveka, discernimento. A estupidez chegou a um nível tão baixo, que só resta mesmo sentir compaixão. Como disse Buda: “O sol do meio-dia não é para as folhas tenras”.
Continuo realizando meu trabalho terapêutico e já atendi pessoas de outras cidades, estados e até de outro país. Continuo escrevendo e publicando livros. Acredito no que faço. Vim ao mundo para realizar isto, para acrescentar algo, para contribuir. Não estou aqui a passeio. Nada vai me fazer desistir.


 
CC: E sua infância, como foi?
Cleber Pacheco: Já era dedicada aos livros. Tinha verdadeiro fascínio por eles. Saí do jardim da infância porque desejava ansiosamente aprender a ler e consegui entrar na primeira série na metade do ano letivo. Já conhecia as letras e, por incrível que pareça, dentro de uma semana estava lendo e escrevendo. Eu sabia exatamente o que queria.


 
CC: Quando você teve o primeiro contato com a literatura? E quando você se descobriu escritor?
Cleber Pacheco: Ao lado da minha casa, meu avô materno tinha uma loja que vendia de tudo, incluindo revistas e livros. Depois que aprendi a ler, eu passava as tardes ali, sentado num canto, lendo, totalmente mergulhado naquele fascinante mundo. Ele, carinhosamente, permitia. Jamais vou esquecer disso.
Por volta de cinco, seis anos, ganhei da minha mãe uma fantástica coleção de histórias clássicas para crianças, com ilustrações deslumbrantes. Guardo até hoje. Tenho consciência de que aquele universo mágico tem influência em minha escrita. E despertou-me o gosto pelo desenho e pela pintura.
Na verdade, eu não me descobri escritor. Já nasci escritor. Sempre soube que eu era escritor. Pode parecer incomum, mas é a mais pura verdade.


 
CC: Somos amigos há bastante tempo (desde 2000, eu acho). Lembro-me que trocávamos correspondências. Eu na minha seca Restinga, aí no RS (hoje eu vivo em Belo Horizonte, nas Minas Gerais), e você na sua Esmeralda. Você ainda guarda as cartas que eu lhe enviei? Eu guardo as que você me enviou (risos).
Cleber Pacheco: Sim, eu tenho, sem dúvida. Lembro perfeitamente de quando recebi a primeira carta e de ter ficado pensando quem seria aquela criatura e como havia me descoberto aqui, onde o diabo perdeu as botas. Li e fiquei impressionado. Tratei de responder e aí, deu no que deu. Para minha sorte, somos amigos até hoje. E, graças a esta parceria, diversos livros meus vieram à tona. Uma amizade assim não tem preço.

CC: Uma explicação se faz necessária sobre as tais cartas: eu estava lendo uma “antologia poética”, que não sei como foi parar em minhas mãos (não me recordo), quando me deparei com um poema seu. O seu poema salvou o livro (risos). Era, de longe, o melhor poema do livro. E digo mais: você era O Poeta do livro. Não sou adepto das antologias, mas aquela caiu em minhas mãos... O seu endereço estava lá no livro, e resolvi escrever-lhe uma carta: dei o primeiro passo. Lembro-me que escrevi algo como “você é bom demais para fazer parte dessas antologias” (risos).
Continuando: Saci ou Mosqueteiro?
Cleber Pacheco: Saci, porque é um ser meio mágico, tão brasileiro, sempre aprontando das suas. Mosqueteiro também, porque Richelieu não dorme em serviço e continua querendo, em sua megalomania e prepotência, ser o dono do mundo. O falso poder doentio.


CC: O que você está lendo no momento?
Cleber Pacheco: Eu costumo ler vários livros ao mesmo tempo. Então ainda estou às voltas com o Moby Dick, que é um primor de estrutura e construção literária e, no entanto, em certos momentos, consegue ser soporífero. Enquanto isso, vou fazendo leituras mais leves ou até mais profundas, desde graphic novels e romances policiais até os clássicos da filosofia oriental, com os quais me identifico profundamente.
Na verdade, leio de tudo. Poder ler textos em outros idiomas ajuda muito também. Penso que devemos estar sempre abertos ao aprendizado, que é algo infinito. Por pior que um livro seja, sempre aprendo algo com ele. Evidentemente tenho consciência da qualidade ou não do texto que estou lendo. Mas sempre me coloco como aprendiz. Além disso, sou fascinado por histórias. Elas exercem uma atração irresistível. A aventura humana é algo único. Sou um leitor compulsivo, bibliófilo, bibliômano. Minha casa está soterrada por livros.


CC: Algum livro mudou sua maneira de ver e pensar o mundo? Você acredita que isso seja possível?
Cleber Pacheco: Sim, alguns livros foram e continuam sendo emblemáticos para mim. Sem dúvida, um deles é o primeiro que li de Clarice Lispector: Perto do Coração Selvagem. Eu tinha dezessete anos. Foi um choque e uma revelação. Um impacto decisivo. Aquilo era eu. Identifiquei-me por completo. Era como se enfim tivesse encontrado minha alma gêmea. Meu modo de perceber a realidade estava ali. Foi um alívio saber que existia mais alguém assim no mundo. Eu não estava mais só. Tratei de ler os outros livros dela, sempre com igual encantamento.
Ainda antes disso (sempre fui precoce nas leituras) descobri Em Busca do Tempo Perdido de Marcel Proust. Uma das mais extraordinárias experiências literárias que já tive. Tudo está ali. Trata-se de uma obra única e inigualável, completa, de perfeita arquitetura literária. Poucos autores conseguem tal grau de excelência. Hoje, infelizmente, deve ser conhecido apenas por estudiosos e alguns admiradores. Uma lástima.
Destaco ainda a Divina Comédia de Dante Alighieri, sem dúvida um dos maiores textos poéticos de todos os tempos. A poesia no seu mais alto grau de excelência, a meu ver. Inspirado nele, escrevi o romance A Vítima. Na poesia, ainda, Fernando Pessoa. Impossível ignorá-lo.
Sem dúvida, Jorge Luis Borges também e seu fascínio por livros, é claro, até mesmo os imaginários e civilizações antigas, outros povos e culturas, outros mundos, os sonhos, a sua capacidade de criar uma realidade profundamente rica e mágica. Muito além de um exercício de imaginação, uma compreensão outra do real. É a busca por estas outras realidades que me atrai no ato de ler e escrever. Pois é aí que efetuamos descobertas e atingimos inusitadas e originais percepções e revelações, expandindo a nossa consciência. O Aleph é obra-prima.
Não poderia deixar de citar As Ondas, de Virginia Woolf. Outra obra-prima. Li três vezes e pretendo ler novamente.
Poderia citar muitos outros, mas correria o risco de nunca terminar esta entrevista.
Sem dúvida acredito que um livro pode mudar nossa maneira de ver o mundo e trazer uma nova compreensão a respeito da vida. Ler é reinventar-se. Escrever é reinventar o mundo. Por isso escrevi o livro de poemas Vida Reinventada, inspirado nos versos de Cecília Meireles “A Vida só é possível reinventada”.
Busquei reescrever a vida com um olhar genesíaco sobre as coisas, como um Adão que renomeia o mundo, redescobrindo-o, partindo dos elementos mais básicos, como a pedra, a árvore, a água e assim por diante. Considero-o um dos meus livros mais importantes.

 
CC: Qual personagem da literatura que mais marcou você?
Cleber Pacheco: Sem dúvida, a personagem GH, do livro de Clarice Lispector A Paixão Segundo GH. Não se tratou de mera leitura. Vivi cada linha, cada palavra daquela experiência terrível e fascinante. Tinha apenas dezessete anos e conseguia compreender aquilo tudo com a maior clareza.


CC: Qual a palavra mais bonita da língua portuguesa?
Cleber Pacheco: Saudade. É, literalmente, intraduzível.

 

CC: Mafagafo ou ornitorrinco?
Cleber Pacheco: Ambos. Um estranho no ninho. Estrangeiro aqui, como em toda parte, como diria Fernando Pessoa.

 

CC: Qual o sentido da vida?
Cleber Pacheco: Aprender, evoluir infinitamente. Mergulhar no insondável Mistério, explorar o desconhecido e de lá retornar, indicando aos demais que a Vida é mágica. Alguns desses ousados conseguiram realizar tal proeza, cada um na sua área: nas letras, artes, ciências, filosofia e espiritualidade. Graças a eles, nossos horizontes se abriram e muitas transformações ocorreram. Eles nos deixaram um legado e a seguinte deixa: agora é a sua vez. Você também pode. Faça. É isso que realmente me interessa. Está muito além do intelectualismo. É uma experiência vivida de si mesmo. É a exploração dos limites do conhecimento, da sabedoria, da consciência. E é isso que eu quero e faço. Tem um preço altíssimo: raros são capazes de compreendê-lo. Você é visto como louco, como ameaça. Estou pagando o preço a cada minuto. E, ainda assim, vale a pena.

 
CC: E o Brasil?
Cleber Pacheco: Percebo que teve diversos avanços. Mas precisa melhorar muitíssimo ainda. Creio que o Brasil pode trazer um outro paradigma para o nosso planeta. No entanto, ainda tem de amadurecer, tornar-se adulto.

CC: Quem você ainda não leu, e que gostaria de ler?
Cleber Pacheco: Alguns mestres indianos a que ainda não tive acesso. No Ocidente há uma prepotência de ainda achar que tudo foi inventado aqui. Esta idéia é difundida vulgarmente nos estabelecimentos de ensino. Até mesmo muitos intelectuais adotam uma perspectiva tão equivocada.
Vou citar um exemplo: a filosofia grega está longe de ser o início de tudo. Os pré-socráticos foram influenciados pela filosofia indiana. Depois houve uma virada e uma mudança de perspectiva. Na Índia antiga, não havia separação entre ciência, filosofia, religião e arte. A filosofia era o produto de profunda introspecção, meditação e uma vivência. Já no Ocidente, ela passou, muitas vezes, a ser mera especulação, exercício de retórica, intelectualismo vazio. Resultado: perdeu enormemente sua importância. E, no entanto, precisamos dela, pois é, de fato, fundamental.


CC: Quem você não leu e nem vai ler
Cleber Pacheco: Aí é que está: caiu na minha mão, leio.

 
CC: Você se arrependeu de ler o quê?
Cleber Pacheco: Nada. Mesmo o pior tem algo a ensinar. Nem que seja o seguinte: se quiser ser um escritor de verdade, nunca escreva desta maneira.

CC: Você tem fome de quê?
Cleber Pacheco: De um mundo melhor. De que as pessoas consigam atingir um grau mais elevado de consciência. Só assim esta melhora poderá se concretizar. As mudanças são internas. Nenhuma revolução, nenhum partido político, nenhum governo, assistência social, nenhuma religião conseguirá realizar o que só o autoconhecimento é capaz de proporcionar.

 
CC: Você é do tipo que coloca lenha na fogueira, ou corre para pegar um balde com água?
Cleber Pacheco: Às vezes é preciso colocar lenha na fogueira. Às vezes é preciso pegar o balde. Depende do momento.

 
CC: Como você gostaria de morrer?
Cleber Pacheco: Com a maior naturalidade.


CC: O que você gostaria de ter falado e que eu não perguntei?
Cleber Pacheco: Ignorância é a pior doença da humanidade.

CC: Cleber Pacheco por Cleber Pacheco.
Cleber Pacheco: Um explorador do desconhecido.



 



Cleber Pacheco integra, juntamente com Ádlei Duarte de Carvalho,
Fal Azevedo e este entrevistador, o Grupo de Escritores O Bodoque.



 
A entrevista foi concedida por e-mail, em fevereiro de 2012.
Contato com o entrevistado: cleberjpacheco@gmail.com

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012