Cleber Pacheco é gaúcho, nascido
em Esmeralda, em 1965. Mestre em Literatura Brasileira e Especialista em
Filosofia. É poeta, contista, romancista, dramaturgo, crítico literário e
artista plástico. Tem vários livros publicados. Na área do Teatro ganhou o
Prêmio Qorpo Santo, em 1996, com a peça Intimidades.
Publica na internet (no blog Translittera).
CC: Será que me
esqueci de alguma coisa? Quantos livros são ao todo? Alguns deles tivemos
(Cínthia e eu) o privilégio de editar.
Cleber Pacheco: Tem o meu trabalho na área de Terapias
Complementares, chamadas também de Alternativas. É o que faço diariamente, não
apenas para sobrevivência, mas como missão de vida. Acredito nisso. Há uma
interação profunda com as pessoas, um compartilhamento que vai muito além do
comum. Tenho aprendido imensamente e agradeço todos os dias pela oportunidade
de realizar tal tarefa. É um privilégio.
Quanto aos livros, são dez
publicados individualmente e participação em vinte e cinco antologias.
CC: Você vive em
Esmeralda. Sempre viveu aí? Como é a vida, para uma mente em constante
ebulição, como a sua, numa cidadezinha com pouco mais de 3.000 habitantes?
Cleber Pacheco: Estive fora por alguns anos. Morei em Passo Fundo, onde
fiz o curso de Letras e Filosofia e, posteriormente, para lecionar na
Universidade como professor de Literatura do RS, Brasileira e Portuguesa.
Depois fiquei dois anos e meio em Porto Alegre para fazer o curso de Mestrado
em Literatura Brasileira.
Estou ainda aqui por acreditar no
meu trabalho como uma missão que, por ora, precisa ser cumprida neste local.
Não tenho nenhum receio de falar
que é um ambiente extremamente hostil e de total indigência intelectual e
cultural. Não recebo apoio algum. Ao contrário, sofro perseguição política há
uns dez anos por ter criticado a administração municipal no jornal da cidade. Sou
boicotado até hoje. É como na época da ditadura. Cheguei a ser seguido em
viagens e espionado. Minha casa, não raro, é cercada por pessoas. A estratégia
é realizar uma total desmoralização para inviabilizar o meu trabalho por
completo por meio da calúnia, da difamação, da intimidação. Não há limites para
isso, nada é suficientemente baixo que eles não sejam capazes de fazer. Vale
tudo. É um caso de mau-caratismo explícito. Onde falta inteligência, não há
argumentos, mas bestialidade pura e simples. Enquanto isso, na cidade, a
bandalheira corre solta. É avidya, ou
seja, ignorância em sua plenitude. Para lidar com isso, é preciso vidya, conhecimento e viveka, discernimento. A estupidez
chegou a um nível tão baixo, que só resta mesmo sentir compaixão. Como disse
Buda: “O sol do meio-dia não é para as folhas tenras”.
Continuo realizando meu trabalho
terapêutico e já atendi pessoas de outras cidades, estados e até de outro país.
Continuo escrevendo e publicando livros. Acredito no que faço. Vim ao mundo
para realizar isto, para acrescentar algo, para contribuir. Não estou aqui a
passeio. Nada vai me fazer desistir.
CC: E sua
infância, como foi?
Cleber Pacheco: Já era dedicada aos livros. Tinha verdadeiro
fascínio por eles. Saí do jardim da infância porque desejava ansiosamente
aprender a ler e consegui entrar na primeira série na metade do ano letivo. Já
conhecia as letras e, por incrível que pareça, dentro de uma semana estava
lendo e escrevendo. Eu sabia exatamente o que queria.
CC: Quando você
teve o primeiro contato com a literatura? E quando você se descobriu escritor?
Cleber Pacheco: Ao lado da minha casa, meu avô materno tinha uma
loja que vendia de tudo, incluindo revistas e livros. Depois que aprendi a ler,
eu passava as tardes ali, sentado num canto, lendo, totalmente mergulhado
naquele fascinante mundo. Ele, carinhosamente, permitia. Jamais vou esquecer
disso.
Por volta de cinco, seis anos, ganhei
da minha mãe uma fantástica coleção de histórias clássicas para crianças, com
ilustrações deslumbrantes. Guardo até hoje. Tenho consciência de que aquele
universo mágico tem influência em minha escrita. E despertou-me o gosto pelo
desenho e pela pintura.
Na verdade, eu não me descobri
escritor. Já nasci escritor. Sempre soube que eu era escritor. Pode parecer
incomum, mas é a mais pura verdade.
CC: Somos amigos há bastante tempo (desde 2000, eu acho). Lembro-me
que trocávamos correspondências. Eu na minha seca Restinga, aí no RS (hoje eu
vivo em Belo Horizonte, nas Minas Gerais), e você na sua Esmeralda. Você ainda
guarda as cartas que eu lhe enviei? Eu guardo as que você me enviou (risos).
Cleber Pacheco: Sim, eu tenho, sem dúvida. Lembro perfeitamente de
quando recebi a primeira carta e de ter ficado pensando quem seria aquela
criatura e como havia me descoberto aqui, onde o diabo perdeu as botas. Li e
fiquei impressionado. Tratei de responder e aí, deu no que deu. Para minha
sorte, somos amigos até hoje. E, graças a esta parceria, diversos livros meus
vieram à tona. Uma amizade assim não tem preço.
CC: Uma explicação se faz necessária sobre as tais cartas: eu
estava lendo uma “antologia poética”, que não sei como foi parar em minhas mãos
(não me recordo), quando me deparei com um poema seu. O seu poema salvou o
livro (risos). Era, de longe, o melhor poema do livro. E digo mais: você era O
Poeta do livro. Não sou adepto das antologias, mas aquela caiu em minhas
mãos... O seu endereço estava lá no livro, e resolvi escrever-lhe uma carta:
dei o primeiro passo. Lembro-me que escrevi algo como “você é bom demais para
fazer parte dessas antologias” (risos).
Continuando: Saci ou Mosqueteiro?
Cleber Pacheco: Saci, porque é um ser meio mágico, tão brasileiro, sempre
aprontando das suas. Mosqueteiro também, porque Richelieu não dorme em serviço
e continua querendo, em sua megalomania e prepotência, ser o dono do mundo. O
falso poder doentio.
CC: O que você
está lendo no momento?
Cleber Pacheco: Eu costumo ler vários livros ao mesmo tempo. Então
ainda estou às voltas com o Moby Dick,
que é um primor de estrutura e construção literária e, no entanto, em certos
momentos, consegue ser soporífero. Enquanto isso, vou fazendo leituras mais
leves ou até mais profundas, desde graphic
novels e romances policiais até os clássicos da filosofia oriental, com os
quais me identifico profundamente.
Na verdade, leio de tudo. Poder
ler textos em outros idiomas ajuda muito também. Penso que devemos estar sempre
abertos ao aprendizado, que é algo infinito. Por pior que um livro seja, sempre
aprendo algo com ele. Evidentemente tenho consciência da qualidade ou não do
texto que estou lendo. Mas sempre me coloco como aprendiz. Além disso, sou
fascinado por histórias. Elas exercem uma atração irresistível. A aventura
humana é algo único. Sou um leitor compulsivo, bibliófilo, bibliômano. Minha
casa está soterrada por livros.
CC: Algum livro
mudou sua maneira de ver e pensar o mundo? Você acredita que isso seja
possível?
Cleber Pacheco: Sim, alguns livros foram e continuam sendo
emblemáticos para mim. Sem dúvida, um deles é o primeiro que li de Clarice
Lispector: Perto do Coração Selvagem.
Eu tinha dezessete anos. Foi um
choque e uma revelação. Um impacto decisivo. Aquilo era eu. Identifiquei-me por
completo. Era como se enfim tivesse encontrado minha alma gêmea. Meu modo de
perceber a realidade estava ali. Foi um alívio saber que existia mais alguém
assim no mundo. Eu não estava mais só. Tratei de ler os outros livros dela, sempre
com igual encantamento.
Ainda antes disso (sempre fui
precoce nas leituras) descobri Em Busca
do Tempo Perdido de Marcel Proust. Uma das mais extraordinárias experiências
literárias que já tive. Tudo está ali. Trata-se de uma obra única e
inigualável, completa, de perfeita arquitetura literária. Poucos autores
conseguem tal grau de excelência. Hoje, infelizmente, deve ser conhecido apenas
por estudiosos e alguns admiradores. Uma lástima.
Destaco ainda a Divina Comédia de Dante Alighieri, sem
dúvida um dos maiores textos poéticos de todos os tempos. A poesia no seu mais
alto grau de excelência, a meu ver. Inspirado nele, escrevi o romance A Vítima. Na poesia, ainda, Fernando
Pessoa. Impossível ignorá-lo.
Sem dúvida, Jorge Luis Borges
também e seu fascínio por livros, é claro, até mesmo os imaginários e civilizações
antigas, outros povos e culturas, outros mundos, os sonhos, a sua capacidade de
criar uma realidade profundamente rica e mágica. Muito além de um exercício de
imaginação, uma compreensão outra do real. É a busca por estas outras
realidades que me atrai no ato de ler e escrever. Pois é aí que efetuamos
descobertas e atingimos inusitadas e originais percepções e revelações, expandindo
a nossa consciência. O Aleph é obra-prima.
Não poderia deixar de citar As Ondas, de Virginia Woolf. Outra
obra-prima. Li três vezes e pretendo ler novamente.
Poderia citar muitos outros, mas
correria o risco de nunca terminar esta entrevista.
Sem dúvida acredito que um livro
pode mudar nossa maneira de ver o mundo e trazer uma nova compreensão a
respeito da vida. Ler é reinventar-se. Escrever é reinventar o mundo. Por isso
escrevi o livro de poemas Vida Reinventada,
inspirado nos versos de Cecília Meireles “A Vida só é possível reinventada”.
Busquei reescrever a vida com um
olhar genesíaco sobre as coisas, como um Adão que renomeia o mundo, redescobrindo-o,
partindo dos elementos mais básicos, como a pedra, a árvore, a água e assim por
diante. Considero-o um dos meus livros mais importantes.
CC: Qual
personagem da literatura que mais marcou você?
Cleber Pacheco: Sem dúvida, a personagem GH, do livro de Clarice
Lispector A Paixão Segundo GH. Não se tratou de mera leitura. Vivi
cada linha, cada palavra daquela experiência terrível e fascinante. Tinha
apenas dezessete anos e conseguia compreender aquilo tudo com a maior clareza.
CC: Qual a
palavra mais bonita da língua portuguesa?
Cleber Pacheco: Saudade.
É, literalmente, intraduzível.
CC: Mafagafo ou
ornitorrinco?
Cleber Pacheco: Ambos. Um estranho no ninho. Estrangeiro aqui, como
em toda parte, como diria Fernando Pessoa.
CC: Qual o
sentido da vida?
Cleber Pacheco: Aprender, evoluir infinitamente. Mergulhar no
insondável Mistério, explorar o desconhecido e de lá retornar, indicando aos
demais que a Vida é mágica. Alguns desses ousados conseguiram realizar tal
proeza, cada um na sua área: nas letras, artes, ciências, filosofia e espiritualidade.
Graças a eles, nossos horizontes se abriram e muitas transformações ocorreram. Eles
nos deixaram um legado e a seguinte deixa: agora é a sua vez. Você também pode.
Faça. É isso que realmente me interessa. Está muito além do intelectualismo. É
uma experiência vivida de si mesmo. É a exploração dos limites do conhecimento,
da sabedoria, da consciência. E é isso que eu quero e faço. Tem um preço
altíssimo: raros são capazes de compreendê-lo. Você é visto como louco, como
ameaça. Estou pagando o preço a cada minuto. E, ainda assim, vale a pena.
CC: E o Brasil?
Cleber Pacheco: Percebo que teve diversos avanços. Mas precisa
melhorar muitíssimo ainda. Creio que o Brasil pode trazer um outro paradigma
para o nosso planeta. No entanto, ainda tem de amadurecer, tornar-se adulto.
CC: Quem você ainda não leu, e que gostaria de ler?
Cleber Pacheco: Alguns mestres indianos a que ainda não tive
acesso. No Ocidente há uma prepotência de ainda achar que tudo foi inventado
aqui. Esta idéia é difundida vulgarmente nos estabelecimentos de ensino. Até
mesmo muitos intelectuais adotam uma perspectiva tão equivocada.
Vou citar um exemplo: a filosofia
grega está longe de ser o início de tudo. Os pré-socráticos foram influenciados pela filosofia indiana. Depois houve uma virada
e uma mudança de perspectiva. Na Índia antiga, não havia separação entre
ciência, filosofia, religião e arte. A filosofia era o produto de profunda
introspecção, meditação e uma vivência. Já no Ocidente, ela passou, muitas
vezes, a ser mera especulação, exercício de retórica, intelectualismo vazio. Resultado:
perdeu enormemente sua importância. E, no entanto, precisamos dela, pois é, de
fato, fundamental.
CC: Quem você não
leu e nem vai ler
Cleber Pacheco: Aí
é que está: caiu na minha mão, leio.
CC: Você se arrependeu de ler o quê?
Cleber Pacheco: Nada. Mesmo o pior tem algo a ensinar. Nem que seja
o seguinte: se quiser ser um escritor de verdade, nunca escreva desta maneira.
CC: Você tem fome de quê?
Cleber Pacheco: De um mundo melhor. De que as pessoas consigam
atingir um grau mais elevado de consciência. Só assim esta melhora poderá se
concretizar. As mudanças são internas. Nenhuma revolução, nenhum partido
político, nenhum governo, assistência social, nenhuma religião conseguirá realizar
o que só o autoconhecimento é capaz de proporcionar.
CC: Você é do tipo que coloca lenha na fogueira, ou corre para
pegar um balde com água?
Cleber Pacheco: Às vezes é preciso colocar lenha na fogueira. Às
vezes é preciso pegar o balde. Depende do momento.
CC: Como você
gostaria de morrer?
Cleber Pacheco: Com
a maior naturalidade.
CC: O que você
gostaria de ter falado e que eu não perguntei?
Cleber Pacheco: Ignorância
é a pior doença da humanidade.
CC: Cleber
Pacheco por Cleber Pacheco.
Cleber Pacheco: Um
explorador do desconhecido.
Cleber Pacheco integra, juntamente com Ádlei Duarte de Carvalho,
Fal Azevedo e este entrevistador, o Grupo de Escritores O Bodoque.
Fal Azevedo e este entrevistador, o Grupo de Escritores O Bodoque.
A entrevista foi concedida por e-mail, em fevereiro de 2012.
Contato com o entrevistado: cleberjpacheco@gmail.com






